“Muito cacique pra pouco índio.” É uma expressão comumente usada, quando se quer dizer que há muitas pessoas querendo palpitar em uma situação, ou querendo liderar algo, e poucas dispostas a ouvir e a seguir as melhores sugestões. Geralmente, é usada com sentido pejorativo e crítico. Por outro lado, equipes que têm senso coletivo desenvolvido tendem a ser elogiadas, já que ninguém quer ser mais do que ninguém.

Era o caso da seleção belga antes da estreia na Copa do Mundo, nesta terça, contra a Argélia, em Belo Horizonte. A tal ponto que o capitão Vincent Kompany assumiu essa qualidade, na entrevista coletiva após o reconhecimento do gramado no Mineirão, ainda na segunda-feira: “O interesse do elenco é central para nós, e a força deste time está no espírito de equipe”.

Pois é possível dizer, com uma ponta de má vontade, que o espírito de equipe foi mostrado no Mineirão de modo errado. Ao invés de imporem o estilo sobre os argelinos, mostrarem a maior capacidade técnica e provarem em campo a razão de tanto alarido sobre o que podem fazer nesta Copa, os Diabos Vermelhos foram anônimos. Aceitaram a marcação firme e ficaram encaixotados no espaço entre os três do meio-campo e a linha de quatro marcadores. Somente com esparsos chutes de fora da área, principalmente de Witsel, a Bélgica oferecia algum perigo.

A sorte é que o ataque das “Raposas do Deserto” também não trazia muito perigo. Até Soufiane Feghouli, o destaque argelino desta terça, começar a aparecer no jogo, armando muito bem a parte ofensiva. O que ajudou a resultar no pênalti convertido pelo próprio Feghouli, que colocou a Argélia na frente. E isso também mostrou como Vertonghen não atua bem na lateral esquerda.

Um dos principais talentos defensivos desta geração, Vertonghen se mostrou lento, tenso, sem conseguir acompanhar Feghouli ou Taïder pela esquerda. É de se pensar se não é melhor colocar Lombaerts no setor. Afinal, Vertonghen mais vale como zagueiro bom do que como lateral mediano – e de mediano para baixo. Na direita, embora tenha sido menos atabalhoado (surpresa!) do que o companheiro da canhota, Alderweireld também ofereceu possibilidades de avanço para os argelinos, principalmente por parte de Bentaleb e Mahrez.

O pior é que as coisas não mudaram no segundo tempo. De Bruyne queria armar o jogo, como quis no primeiro tempo, e até chutava a gol. Como Witsel, de longe o mais esforçado na estreia belga. Só que nada dava resultado. O espírito de equipe continuava sendo o mais importante, de modo errado: ninguém se destacava, ninguém chamava a responsabilidade, ninguém decidia ser o responsável da virada belga.

Isso, até Marc Wilmots fazer as alterações que trouxeram estes personagens ao campo. O primeiro, claro, Marouane Fellaini. O meio-campista teve sua melhor atuação na carreira em muito tempo. Jogou como não fez em seis meses de Manchester United, ainda: não só ajudou Witsel na marcação, mas também levou a bola a área para tentar o gol, tirando o sufoco de De Bruyne e ocupando o lugar que deveria ter sido de um decepcionante Hazard. O gol de empate foi um prêmio merecido para Fellaini.

E o gol da virada só provou como a escalação de Mertens se impõe no time belga. O atacante do Napoli é claramente superior a Chadli, até pelo que mostrou durante a temporada. E se antes da entrada de Fellaini as coisas ainda estavam difíceis, com o meio-campista, enfim, Mertens pôde dar vazão à sua ofensividade. É de se perguntar, novamente, se ele já não poderia entrar desde o começo contra a Rússia.

Embora a vitória tenha sido difícil para a Bélgica, ela veio. E o que se viu em Cuiabá, depois, mostrou que Rússia e Coreia do Sul não são rivais insuperáveis. No entanto, a dificuldade para virar o jogo contra os argelinos deve ser sinal de que os Diabos Vermelhos precisam se esforçar mais, de que não podem aceitar tão facilmente a marcação adversária.

E para isso, os caciques devem aparecer. Claro que o espírito de equipe decantado por Kompany deve ser mantido. Mas é preciso que o pensamento dos grandes destaques técnicos desta equipe (Mertens, Fellaini, Witsel, Hazard, Lukaku, De Bruyne) seja como o de Fellaini, em entrevista após o jogo: “Fizemos a diferença no segundo tempo”. Caso eles sigam sumidos, a Bélgica terá vida curta na Copa.