Bellini não foi gigante por ter inventado um gesto, mas por não tê-lo repetido

Morreu de ataque cardíaco nesta quinta-feira o ex-zagueiro Hilderaldo Bellini. Ídolo de Vasco, São Paulo e Atlético Paranaense, o defensor era muito conhecido pela força física dentro de campo e pela beleza fora deles. Ficou famoso como galã, mas nada comparado, porém, com a fama que ganhou por ter sido o capitão do primeiro título mundial da seleção brasileira, em 1958.

Essa é a grande referência que se tem de Bellini. Ficou eternizado como o responsável pela criação do gesto de levantar a taça, acima da cabeça, com as duas mãos, para celebrar um título – a pedido de fotógrafos, que não conseguiam ver a taça. Mas não foi isso que o tornou grande. Seu maior mérito, como capitão e líder da Seleção no final dos anos 50 e início dos 60 foi na Copa de 1962 sem nem sequer ter entrado em campo.

Bem, colocar um objeto (como uma taça) conquistado com tanto suor, seja ele qual for, o mais alto possível para todos poderem compartilhar daquela glória soa como um gesto natural, e talvez ninguém o tenha inventado. O vídeo abaixo, por exemplo, mostra a vitória do Newcastle sobre o Manchester City na final da FA Cup de 1955. Veja o que ocorre quando o troféu é entregue pela Rainha Elizabeth (veja também essas fotos).

Mas isso é bobagem, um preciosismo. O problema é que a tese ficou tão famosa que parece que foi a única coisa que o capitão de 1958 fez. E ele foi muito mais que um inventor de gestos. O natural de Itapira, estado de São Paulo, nunca primou pela técnica, mas, como zagueiro central, com a responsabilidade de marcar os centroavantes adversários, tinha na força física o seu principal trunfo. Não à toa, na seleção, ganhou o apelido de “Boi”.

Técnica era coisa para Mauro Ramos de Oliveira, mas as circunstâncias foram cruéis com o lendário zagueiro do São Paulo. Em 1954, foi reserva de Pinheiro na Copa da Suíça. Quatro anos depois, de Bellini. No Chile, mais uma vez ficaria no banco de Bellini, embora tenha impressionado quando o titular se lesionou durante a preparação para o Mundial. Mauro não aceitou, aos 32 anos, ser preterido novamente. Abordou o técnico Aymoré Moreira com a cara, a coragem e um ultimato: ou eu jogo, ou vou para casa.

Anos de experiência lidando com jogadores de futebol proporcionaram muito jogo de cintura ao treinador. A resposta veio rápida e foi justamente a que Mauro queria ouvir: “Era só para mexer com os seus brios, Mauro. Quem vai jogar é você”. O problema era contar isso para Bellini, que ainda acreditava que seria o titular e tinha muita influência no resto dos jogadores. Se ele quisesse causar problemas, causaria. Mas a resposta do capitão de 1958 foi justamente a que Aymoré queria ouvir: “É justo. Agora é a vez do Mauro”.

Mauro jogou, Garrincha comeu a bola e o Brasil foi bicampeão mundial. Na hora em que recebeu a taça, reproduziu o gesto do colega que virou amigo até a sua morte, em 2002. Bellini, bom zagueiro, bonito e respeitado, colocou seu espírito de liderança e companheirismo à frente da vaidade e perdeu a chance de ser o único a levantar o troféu do Mundial (seja a Jules Rimet ou a Taça Fifa) novamente. Sim, Bellini merece muito mais entrar na história por não ter levantado a Copa do Mundo duas vezes do que por tê-la levantado antes de todo mundo.

A estátua de Bellini que não é de Bellini

Curioso é que o ato de levantar o troféu ficou tão associado a Bellini que a imagem de um jogador levantando a Jules Rimet imediatamente era ligada a ele. Inclusive a estátua do zagueiro que virou ponto de encontro de torcedores na frente do Maracanã.

Entre os anos 1950 e 1960, em tom de brincadeira, os cariocas falavam que os três homens mais bonitos do mundo eram o compositor Antonio Carlos Jobim, o ator francês Alain Delon e o zagueiro do Vasco, Hideraldo Luís Bellini. A beleza do ex-jogador era reconhecida por todos.

Tanto que em 1958, em uma das festas do título, no salão da revista O Cruzeiro, Ziraldo pediu que a Miss Brasil Adalgisa Colombo beijasse Bellini quando este apareceu com a Taça Jules Rimet nas mãos. A princípio, segundo a biografia de Garrincha, escrita pelo jornalista Ruy Castro, a botafoguense recusou-se. “Não vou beijar jogador de futebol, não”, disse. Quando viu quem era, imediatamente mudou de ideia. “Ah, se é aquele, eu beijo”.

Então, soa estranho a estátua de Bellini não ter rosto de Bellini. Mas é que ela não foi feita como sendo dele. A estátua foi construída depois do Mundial da Suécia para homenagear os campeões do mundo. E por ser um homem levantando uma taça, embora com uma única mão, convencionou-se a achar que se tratava do capitão de 1958. Basta, porém, observar com cuidado para perceber que o rosto da escultura nada tem a ver com o dele.

As versões divergem. Uns dizem que a estátua, encomendada pelo empresário Abraham Medina, tem o rosto do cantor Francisco Alves, cujo apelido era o nome da loja de eletrodomésticos de Medina: Rei da Voz. O filho dele, Roberto Medina, criador do Rock In Rio, afirmou que a ideia era mesmo reproduzir as feições de Bellini. Outros dizem que a foto usada era do jornalista Hamilton Sbarra. Em todo caso, mais uma lenda que se misturou com a vida de Bellini.

Bellini não se parece muito com a estátua que leva seu nome no Maracanã

Bellini não se parece muito com a estátua que leva seu nome no Maracanã