Existe antídoto para uma maldição? Há maneira de quebrar a raivosa sentença que alguém já falecido proferiu há mais de 50 anos? É isso o que o Benfica vai testar na final da Liga Europa, dia 14 de maio, contra o Sevilla, em Turim.

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Será a oitava vez que o clube encarnado decidirá um título continental desde que o técnico húngaro Béla Guttmann proferiu sua famosa maldição, em 1962. Na época, depois de ser bicampeão da então Taça dos Clubes Campeões Europeus (atual Liga dos Campeões) no comando do Benfica, Guttmann viu rejeitado seu pedido de aumento salarial. Pediu demissão e profetizou: sem ele, o clube não ganharia uma competição europeia pelos 100 anos seguintes.

Mais da metade desse período já se passou e a maldição do treinador, que morreu em 1981, segue mais viva do que nunca. Entre Liga dos Campeões e Liga Europa (considerando as nomenclaturas anteriores destes torneios), o Benfica disputou sete finais desde então e perdeu todas. Algumas até com requintes de crueldade, como a derrota nos pênaltis para o PSV na final do campeonato europeu de 1987/88. Ou a queda perante o Chelsea, na final da Liga Europa da temporada passada, com gol sofrido nos minutos finais.

Se, a princípio, a maldição não foi levada a sério, com o passar do tempo o fantasma de Béla Guttmann começou a assombrar a Luz. Isso se reflete em tentativas de quebrar o mau agouro que foram feitas ao longo do tempo. Em 1990, por exemplo, Benfica e Milan decidiriam a Champions. Por uma coincidência do destino, o jogo ocorreria em Viena, cidade onde está enterrado o corpo do treinador. Eusébio, o maior ídolo benfiquista da história, visitou o túmulo de seu antigo técnico – com quem compartilhou glórias nos anos 60. No cemitério, o Pantera Negra chorou e pediu que o espírito de Guttmann aliviasse um pouco, afinal, a praga havia sido rogada num momento de raiva. A vitória por 1 a 0 do Milan mostrou que a tentativa não surtiu efeito.

A mais recente maneira de tentar quebrar a maldição de Béla Guttmann ocorreu sem grande alarde, às 15h30 (horário de Lisboa) do dia 28 de fevereiro deste ano. Foi quando o Benfica inaugurou uma estátua em homenagem ao antigo treinador. Esculpido em bronze, com dois metros de altura, o monumento representa Guttmann em pé, segurando em cada braço um dos troféus de campeão europeu que conquistou pelos encarnados. Ao pé da estátua, instalada junto ao portão 18 do estádio da Luz, está uma das mais emblemáticas frases ditas pelo treinador ao longo de sua passagem pelo clube: “Só quem está cá dentro, no Benfica, é que pode saber o que é mística. Não há nenhum clube do mundo com a mística igual à do Benfica.”

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O clube quase não se pronuncia de maneira oficial sobre o assunto da maldição. No discurso de inauguração do monumento, o vice-presidente benfiquista, Rui Gomes da Silva, passou raspando pelo assunto. “Não se trata de exorcizar nada nem ninguém, mas de homenagear o treinador que confirmou, no princípio da década de 60, a fama europeia de um Benfica glorioso”, disse. O presidente Luís Filipe Vieira não participou da cerimônia porque estava no funeral de Mário Coluna, em Moçambique.

Mas, além da justa homenagem, a grande intenção de colocar a estátua de Guttmann na Luz é mesmo tentar quebrar a maldição imposta por ele há 52 anos. A revelação foi feita pelo secretário de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Hungria, Zsolt Németh. Ao citar a maldição, ele contou que a ideia partiu do embaixador húngaro em Portugal, Norbert Konkoly. “Ele surgiu com uma solução para este problema. Falou dela ao presidente do Benfica e ele concordou. A solução é colocar uma estátua de bronze enorme, de dois metros, no estádio do Benfica com as duas Taças dos Campeões nas mãos. E depois ele regressa. E, regressando, a maldição desaparece e, desaparecendo, veremos resultados. É esta a história.”

A ideia foi aceita por Filipe Vieira e o escultor Szatmari Juhos Laszlo, também húngaro, recebeu a encomenda de fazer o monumento. Depois de pronta, a estátua foi levada em segredo a Lisboa e ficou guardada até que houvesse um espaço na agenda das autoridades húngaras, convidadas para a inauguração.

Os benfiquistas confiam que, com a estátua de Béla Guttmann, a praga pode ser quebrada. Afinal, acreditam, de alguma forma o técnico está de volta ao estádio da Luz e, se não teve o aumento de salário pedido em 1962, poderá ser reverenciado por todos os encarnados que passam pelo portão 18. Foi o antídoto encontrado pelo Benfica para acabar com a maldição.

O jogo contra o Sevilla será a primeira decisão internacional do clube desde que a estátua foi inaugurada. Será, também, a oportunidade de saber se a ideia deu certo ou se o Benfica terá mais algumas décadas de vices-campeonatos europeus pela frente. Afinal, ainda que o clube não confirme que acredita em bruxas, elas existem há 52 anos.

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