Um grande gol se grava na retina por diferentes motivos. Por sua beleza, por sua importância, pelo adversário do outro lado, pelo momento em que acontece. Neste sentido, há 18 anos, o alinhamento dos astros não poderia ser mais preciso em Marselha. Quartas de final da Copa do Mundo, 46 do segundo tempo. Holanda e Argentina faziam um duelo cardíaco, no qual ambos poderiam ser vencedores ou vencidos. O placar em 1 a 1 era modesto por tudo aquilo que as equipes tinham feito. Até que o lançamento precioso de Frank de Boer foi domado pelo bico da chuteira de Dennis Bergkamp. Um domínio ainda mais precioso. Roberto Ayala já fechava o chute quando o holandês deu um simples toque para fazê-lo passar reto. Refinado. Até o tiro seco com o peito do pé, sem misericórdia ao ajoelhado Carlos Roa. O melhor gol de sua carreira, segundo o próprio craque, que valeu à Oranje uma vaga nas semifinais do Mundial.

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Eram dois grandes times. De um lado, a Holanda contava com Van der Sar, Frank de Boer, Davids, Bergkamp e Kluivert. Do outro, a Argentina tinha Zanetti, Simeone, Verón, Ortega e Batistuta – e poderia ter Redondo, não fosse a intransigência de Daniel Passarella. Isso para ficar apenas em cinco nomes para cada lado. Holandeses e argentinos tinham dois dos melhores elencos da Copa de 1998. Fizeram jus à qualidade técnica com uma grande tarde no Vélodrome.

O épico começou com uma pressão sem tamanho da Oranje de Guus Hiddink, com direito a chute de Cocu na trave logo de cara. Aos 12 minutos, Kluivert abriu o placar, na sequência de uma excelente jogada de Ronald de Boer. O empate argentino veio cinco minutos depois, em passe magistral de Verón para Claudio López anotar por entre as pernas de Van der Sar. As chances se seguiam para os dois lados. Ortega e Batistuta quase viraram o placar, esbarrando na trave, enquanto Roa fez milagre para espalmar a cabeçada de Kluivert. No fim de um jogo tenso, Numan e Ortega acabaram expulsos. Até o lance derradeiro, a genialidade de Bergkamp.

“Foi o melhor gol da minha carreira. Também por causa de toda a situação. É um gol que te coloca na semifinal da Copa do Mundo, em um grande estádio, com tanta gente assistindo e torcendo… Fiquei muito emocionado depois. Eu nem sabia o que fazer! É o sonho de todo menino marcar um gol em uma Copa do Mundo. Mas daquele jeito… Fazer um gol como aquele, bem ao meu estilo. A maneira como você marca, o momento, em um jogo que realmente importa, isso tudo vale muito para mim. Eu amo o bom futebol, mas precisa significar algo. Precisa me levar a algum lugar. E isso aconteceu naquele gol. Quando fiz, me imaginei quando tinha sete ou oito anos, jogando futebol em casa, você sabe? É esse o momento! Foi um ótimo sentimento”, comentou anos depois, ao The Blizzard.

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“É questão de criar um pequeno espaço. Então, você primeiro precisa receber a bola. Faz o contato no olhar. Frank sabia exatamente o que fazer. Ele estava me olhando, você entende a linguagem corporal. Então, corre com tudo. A bola vinha sobre o meu ombro, sentia onde estava. Mas você sabe que está correndo no limite da linha, a linha que te dará a chance de marcar. Se você errar, acabou. A bola vem e você tem duas opções. Pode dominar no chão, o que seria mais fácil, mas você está na linha de fundo. Então, precisa pular e se encontrar com a bola no ar, e ao mesmo tempo dominá-la”, continuou Bergkamp. “Eu não estava preocupado com o ângulo do meu pé, porque é algo que você faz todo o tempo. Eu sei que posso controlar quase todas as bolas que chegam para mim. Mas eu queria me estabilizar, não sabia o quão alto tinha pulado. Mas sabia onde queria a bola. Então, no ar, eu a encontrei. Há um pouco de cálculo, mas isso é experiência”.

“Mate a bola. E, de novo, você precisa cortar para dentro, porque o zagueiro está chegando. Ele está correndo com você e, assim que a bola mudar de direção, você também muda. Ele estará batido, o que te dará uma chance aberta. Bem, está um pouco para o lado, mas te dá a chance de chutar. A bola fez a curva que eu queria, para tirá-la do goleiro e entrar. Nem passou pela minha cabeça que ele defenderia… Porque quando você está neste momento… Você sabe, não tem como dar errado. Este é o sentimento. Depois dos dois primeiros toques… este é o momento! Você dá absolutamente tudo no movimento. É como se a sua vida fosse conduzida para que aquilo acontecesse”. Resta a nós, meros mortais, apreciar o momento imortal de Bergkamp: