“São Paulo, a maior cidade da América do Sul, acordou na segunda-feira no quinto dia de interrupção do transporte e imagens na televisão de confrontos entre a polícia e trabalhadores do transporte. Blatter gasta parte do seu dia no seu carro oficial escoltado pela polícia para levar delegados de três das seis federações continentais de futebol”, diz um relato de Graham Dunbar, da agência AP. Uma imagem que parece retratar muito do que Joseph Blatter, 78 anos, presidente da Fifa, representa para o futebol mundial. Na semana da abertura da Copa, o suíço parece alheio ao que acontece na cidade, à Copa e mais preocupado com o futuro.

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Enquanto a maioria dos paulistanos penava para chegar aos seus destinos por causa da greve de metrô em São Paulo, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, tratava de algo muito menos nobre. Fazia política, visitante os representantes das confederações continentais que estão em São Paulo para o Congresso da Fifa, nesta quarta-feira. Andando com seu carro escoltado e batedores, o dirigente fica completamente alheio ao caos da cidade e sua única preocupação é a politicagem. Uma imagem que reflete bem como o futebol, o esporte mais popular do mundo, consegue ter tantos problemas mesmo com uma entidade tão rica. Blatter não sabe o que é trânsito, como não sabe o que é o problema do calendário. Vive nos seus escritórios, faz política, aperta mãos.

Blatter se encontrou com dirigentes da África, Ásia e América do sul na segunda-feira. Os encontros tinham o objetivo de angariar apoio para a eleição presidencial de 2015, quando ele será, novamente, candidato – se eleito, será o seu quinto mandato à frente da entidade, que sofre com acusações de corrupção nos mais diversos níveis, ignorar direitos humanos e por engessar a evolução de um esporte que movimenta bilhões, mas segue sob a égide de poucos eleitos a discuti-lo.

As acusações sobre corrupção na escolha do Catar como sede da Copa de 2022 estão se acumulando. Blatter disse que as acusações, vindas especialmente da Europa, são fruto de racismo. Disse que estão tentando “destruir a Fifa”. Pede apoio dos dirigentes para a eleição se dizendo motivado a continuar. “Nós estamos em uma situação onde precisamos de liderança. Eu ainda tenho fogo dentro de mim”, disse o dirigente.

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Para convencer os dirigentes a votarem nele, Blatter prometeu dividir bônus dos lucros da Copa do Mundo com as confederações. O evento deve gerar mais de US$ 4 bilhões à entidade, que sequer paga impostos no Brasil – mais uma vitória de Blatter contra o governo brasileiro, que aceitou essa condição. Com as promessas, Blatter foi aplaudido por membros dessas confederações. Muitos aplausos. Mas o mesmo não deve acontecer com os dirigentes da Uefa.

Em um congresso da Uefa,em 2011, Blatter prometeu que aquele seria o seu último mandato, abrindo caminho para Michel Platini, presidente da confederação europeia, para sucedê-lo. A vontade de Blatter de manter o poder deve irritar alguns dos membros europeus e dificilmente terá aplausos como ouviu na segunda-feira.

Blatter, atolado em uma entidade que não tem transparência e que escândalos de corrupção emergem mais rápido do que os seus dirigentes conseguem abafá-los, enfrenta uma certa resistência no Brasil. Os protestos que correram o país em 2013 atingiram também o futebol e a Copa das Confederações, com protestos contra os gastos governamentais na Copa do Mundo. As obras não foram bem geridas, a Fifa não foi bem aceita no Brasil e a presidente Dilma Rousseff, que concorre à reeleição em outubro, preferiu esnobar o suíço no Congresso da Fifa nesta quarta-feira. Aparecer ao lado dele seria uma imagem negativa que os opositores iriam usar. Sim, aparecer ao lado do presidente da Fifa, às vésperas da Copa do Mundo, é uma imagem ruim.

Essa é a imagem de Blatter em uma entidade que recebe avalanches de críticas. E, mesmo assim, ele quer se reeleger em 2015. Pior ainda: os dirigentes que podem impedi-lo devem mantê-lo lá. O futebol foi sequestrado por esses senhores de terno e gravata que se escondem em seus escritórios e fogem das acusações de corrupção. O futebol é muito maior que a Fifa e, por isso, nunca irá perder a sua força. Mas o futebol não pode ficar nas mãos de quem está.

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