Às vésperas de sua estreia na Copa do Mundo, a França vive uma relação com o público bem diferente daquela vista desde seu fracasso na Eurocopa-2008. A desconfiança e a vergonha causadas pelas péssimas campanhas na Copa-2010 e na Euro-12 (sem contar a crise moral pela qual passou) provocaram uma ruptura e, pior do que isso, um grande sentimento de rejeição. Didier Deschamps pode viver um novo fiasco no Mundial, mas pelo menos o treinador teve êxito em uma de suas missões mais ingratas: fazer o torcedor sentir algum orgulho pelos Bleus.

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Nos três amistosos de preparação para a Copa-2014, a França levou cerca de 160 mil pessoas em Saint-Denis, Nice e Lille. O fervor popular, traduzido pelo apoio incondicional à seleção, comprova o reencontro da fé na equipe. Este clima de confiança, obviamente, respinga no grupo em um momento delicado, devido ao corte de Franck Ribéry. O que poderia comprometer todo um longo trabalho de recuperação da imagem da seleção ganhou ares de uma sólida comunhão entre time e torcida.

A ausência de Ribéry certamente terá seu preço técnico, mas os Bleus mostraram diante da Jamaica que não se deixaram abater pelo corte de um de seus principais nomes. Claro, tudo parece lindo quando se goleia um adversário fraco por 8 a 0, mas o resultado elástico foi o de menos. A seleção exibiu um perfil vencedor, com sede de mostrar serviço e seu valor, com entusiasmo de jogar junto. Algo muito distante do egoísmo visto em Knysna, com o show do ‘cada um por si’ que terminou da forma como todos conhecem.

Fica a grata sensação de que os comandados de Deschamps querem marcar seu nome na história, sem se importar com o peso de, enfim, suceder com pompa a geração de Zidane, nem se importar com a pressão de apagar o vexame de 2010. Apenas quatro jogadores desta seleção fizeram parte do vexame na África do Sul – portanto, este grupo passa longe dos efeitos colaterais do “ônibus de Knysna”, que deu lugar às esperanças de redenção em território brasileiro.

A popularidade dos Bleus com os torcedores só fez aumentar após a emocionante classificação diante da Ucrânia. Em pesquisa realizada pelo Ifop para a i-Telé e o jornal L’Équipe, 60% dos franceses manifestaram sua simpatia pela seleção. Este cenário perdura, muito por conta da figura de Deschamps, que colhe os frutos de sua imagem fortemente construída à base de vitórias, títulos e uma carreira de sucesso – e que, consequentemente, estende-se ao seu trabalho à frente dos Bleus.

Para quem se prepara para sediar uma Eurocopa daqui a dois anos, a França vive um estado de graça como há tempos não protagonizava. A confiança é tanta que os parceiros da Federação Francesa aumentaram o valor dos patrocínios de € 29 milhões para € 34 milhões para o período 2014-2018. Ninguém apostaria alto se não houvesse a confiança de que a equipe está no caminho certo.

A passagem dos Bleus pelo Lille deixa claro o rompimento daquela estrutura de ídolos inacessíveis e elevados ao nível de semideuses. Nada de jogadores em pedestais; eles se colocaram à disposição dos fãs para fotos e autógrafos com a maior dose de paciência do mundo. Este calor era o que faltava para selar a nova relação de amor entre os franceses e a seleção, em uma dose fundamental de confiança para quem cruzaria o oceano logo mais.

A França não está entre as favoritas ao título mundial, mas a taça perseguida pelos Bleus passa longe do dia 13 de julho no Maracanã. Ela passa pela entrega do time durante as partidas, com um espírito de união capaz de despertar nos franceses o sentimento de que a derrota pode até vir, mas não sem árdua luta. Que aquele espírito maligno de individualismo e interesses pessoais acima de tudo tenha sido extirpado da alma tricolor.

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Nada de estrelismo

Paul Pogba poderia muito bem deixar o sucesso subir à cabeça. Afinal, com apenas 21 anos, o meio-campista ganhou seguidos elogios por suas atuações destacadas com a camisa dos Bleus, principalmente nas últimas partidas. O jogador da Juventus, que conseguiu a difícil tarefa de merecer as palmas do exigente público do Stade de France, mantém os pés no chão.

Pogba poderia muito bem se deixar levar pelo clima positivo e relaxar; ou então sofrer as consequências das altas expectativas criadas pelos torcedores e que poderiam se transformar em vaias com as oscilações naturais de desempenho. Além da maturidade incomum para um jovem de sua idade, o meio-campista ainda conta com outro freio dos mais eficientes: Didier Deschamps.

O treinador conversa constantemente com o jovem para orientá-lo sobre seu presente e seu futuro na seleção. Deschamps declarou que Pogba tem plena consciência de suas capacidades e seus defeitos, mostrando-se bastante receptivo a sugestões para aprimorar seu estilo de jogo. Um sintoma de que a síndrome de estrela ainda não o afetou, em uma atitude indispensável para quem deseja subir na carreira.

Mesmo após marcar seu primeiro gol pelos Bleus e os constantes elogios, Pogba não se vê como um titular indiscutível. Ele recusa categoricamente o status de estrela, e sabe que precisa de atenção para não desandar na parte defensiva. Se o seu apoio ao ataque se transformou em seu grande diferencial, o jovem ainda deve se cuidar para não deixar Matuidi e Cabaye sobrecarregados na marcação.

Na Juventus, Pogba tem Vidal e Pirlo como colegas de meio-campo, e ambos têm perfil completamente diferente dos de seus parceiros nos Bleus. Pogba tem a noção de que precisa se reposicionar e ajustar esta sintonia fina na seleção, e demonstra grande capacidade de adaptação sem prejudicar seu estilo de jogo. O talento dele aflora e aparece de forma intensa em uma hora das mais apropriadas para a França. A rápida evolução de Pogba, aliada à sabedoria exibida pelo jovem, não deixam dúvidas quanto ao seu longo caminho de sucesso.

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