O Bom Senso Futebol Clube deu sua maior pancada na CBF. A carta aberta divulgada nesta terça-feira é a manifestação mais incisiva do grupo, mais até que qualquer protesto realizado dentro de campo durante o Brasileirão. Ao invés de manter o tom de diálogo e de apontar soluções, o ataque ficou evidente, como alguém que perde a paciência com a falta de ação de uma confederação que deveria agir em prol da boa organização do futebol.

Na mira do Bom Senso, o calendário estapafúrdio, os regulamentos paradoxais, a falta de parada nas datas Fifa e a decisão do Brasileiro nos tribunais – ainda que sem tomar partido de Fluminense ou Portuguesa. Os caminhos discutidos nas outras cartas foram deixados de lado para mandar a CBF à ‘segunda, terceira, quarta divisão’. A crítica pela crítica.

O aumento no tom de voz não tira a legitimidade do Bom Senso, ressaltando a pressão que o movimento faz pelas mudanças. Ainda assim, o movimento se isola de outros temas importantes e que, ao contrário do que possa se sugerir, também são de interesse dos jogadores. A manifestação sobre  a violência em Joinville e a forma de ação das torcidas organizadas foi genérica. Houve o repúdio aos atos, mas nada que discuta a questão das organizadas mais a fundo. Sobre o tapetão, o generalismo é compreensível, já que o grupo é composto por atletas do Flu e da Lusa e tomar partido poderia causar problemas internos.

De qualquer forma, é um momento delicado do movimento, talvez o primeiro desde sua criação. Alguns torcedores já exigem um posicionamento do Bom Senso em várias áreas, e dar uma pancada (mais que justa, diga-se) na CBF pode soar a “fugir do assunto”. Como o grupo se propôs a brigar pela melhora do futebol brasileiro, não pode dar as costas àquilo que não ache pertinente a sua pauta. Se há esperança no grupo, é por essa chance de mudança como um todo. Como eles mesmo dizem, ‘para quem joga, torce, apita, transmite e patrocina’.

Confira a carta do Bom Senso Futebol Clube na íntegra:

“CARTA ABERTA À CBF

Caro Presidente,

Talvez o senhor não saiba, mas não somos apenas um grupo de jogadores. Somos mais de 1000 (mil), reunidos em apenas três meses, em prol de um futebol melhor para todos.

Um grupo democrático, onde todos os envolvidos têm poder de votar, opinar e participar. Sabemos que o senhor não está acostumado com essa tal democracia e até entendemos que seja difícil se adaptar, faz pouco tempo…

O senhor tem razão quando diz que existe um calendário permanente desde 2003. E um calendário ruim desde então. Porque antes disso ele era péssimo.

Mas o senhor conseguiu resolver todos os problemas do calendário do dia para a noite. Foi só limitar o número de jogos dos jogadores e não dos clubes e pronto, eis que melhoraremos a qualidade no espetáculo. Ou seja, a saída escolhida é o mesmo que encontrar um burro dentro de sua sala e pedir para trocarem o sofá, pois algo lhe parece estranho.

Não nos diga que o senhor tem orgulho do calendário de apenas quatro meses de competição para a maioria dos clubes do Brasil. Talvez o senhor dê pulos de alegria quando vê a formula de disputa do Campeonato Paulista de 2014, que pode fazer com que um time seja campeão e rebaixado ao mesmo torneio.

Desconfiamos até que o êxtase o atinja quando o senhor percebe a extraordinária estratégia de um time precisar ser desclassificado de uma competição nacional (Copa do Brasil) para se classificar para um torneio internacional (Copa Sul-Americana).

Quanta genialidade! Responda-nos uma coisa: É justo que os times percam seus melhores jogadores quando há partidas das seleções simplesmente porque o campeonato daqui não para nas datas FIFA?

Responder não parece ser seu forte, não é mesmo?

Inclusive, esse “grupo de meia dúzia de jogadores” deve ser muito chato mesmo para exigir explicações tão “complicadas”.

De qualquer forma, e apesar de tudo, foi importante o senhor ter falado das Séries C e D e ressaltar a boa ação da CBF com essas duas competições. Mas veja, caro presidente, a fonte de receita da CBF é a Seleção Brasileira, fruto final do futebol jogado no país. Logo, usar parte desses recursos para subsidiar as competições para as quais a confederação não consegue receita não é caridade, é uma simples obrigação. Afinal, assim como os direitos sobre a NOSSA Seleção são da CBF, os deveres sobre o futebol brasileiro também devem ser.

Só para lembrá-lo, é graças à grandeza do futebol brasileiro, construída por clubes e jogadores nos últimos 100 anos, que a CBF possui hoje, 14 legítimos patrocinadores. Logo, não basta cuidar apenas da Seleção, é preciso regar a raiz do nosso futebol.

Outra coisa. Talvez o senhor não tenha lido, mas já falamos abertamente sobre os salários do futebol. E temos certeza de que o Fair Play Financeiro implementado de forma eficaz (não aquele de faz de conta da FPF) irá diminuir os salários. E mesmo cortando na nossa própria carne, continuaremos lutando pelo bem do futebol. Porque quem regula o salário pago aos jogadores é o mercado e se o gestor for obrigado a gastar apenas o que o clube arrecada, pagará menos a todos. O que gera salários astronômicos (e atrasados) é a falta de um dispositivo punitivo (esportivo e civil) a quem gasta mais do que ganha.

Mas isso é encrenca política demais para alguém assumir em ano de eleição, não é?

E para ajudar o Bom Senso FC a virar consenso de uma vez por todas, o Campeonato Brasileiro terminou de forma melancólica, dentro do tribunal! A frase: “Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas” não poderia se encaixar melhor nessa situação. A justiça desportiva se torna protagonista e o resultado de campo fica para trás. Sem discutir o mérito de quem está certo ou errado, a conclusão final é de que a CBF é que deveria ir para a segunda, terceira, quarta divisão.

No fundo e para finalizar, a nossa expectativa é que a CBF, que se denomina entidade maior do futebol brasileiro, realmente assuma o seu papel de gestora do nosso esporte e participe do debate jogando, atuando, e não apenas assistindo.

E antes que nos perguntem, as férias têm nos feito muito bem.

Em janeiro nos vemos por aí. Boas Festas!

Bom Senso Futebol Clube

Por um futebol melhor
para quem joga,
para quem torce,
para quem apita,
para quem transmite,
para quem patrocina.

Por um futebol melhor para todos”.