*Por Bruno Bonsanti, Leandro Stein e Ubiratan Leal

O Bom Senso FC cresceu rapidamente no segundo semestre de 2013. Organizou protestos, ganhou adesão da imprensa e da torcida, e até conseguiu forçar os dirigentes a mudarem os regulamentos dos estaduais deste ano para tornar o calendário um pouco menos sacrificante. Mas o grupo encontra agora seu grande desafio, e está relutando em combatê-lo: as torcidas organizadas.

O tema já mereceu atenção logo após a última rodada do Campeonato Brasileiro, quando vascaínos e atleticanos protagonizaram cenas dantescas nas arquibancadas da Arena Joinville. Agora o assunto retorna com força, depois de torcedores do Corinthians invadirem o CT para intimidar o elenco antes da partida contra a Ponte Preta.

Até agora, o Bom Senso foi pouco incisivo, agressivo e propositivo sobre esse tema. O que soa estranho considerando que o grupo normalmente tem uma postura incisiva, agressiva e propositiva (o que, aliás, é algo com o qual a Trivela concorda). Houve um comunicado após o Atlético Paranaense x Vasco, mas bastante genérico.

Comunicado do Bom Senso após Atlético Paranaense x Vasco

Comunicado do Bom Senso após Atlético Paranaense x Vasco

No caso do Corinthians, há informações de que o grupo conversa sobre a possibilidade de fazer algum protesto ou mesmo uma greve no próximo final de semana. Seria bom, porque ainda não houve uma posição oficial do Bom Senso sobre a invasão do CT alvinegro. Mais um sinal de como as torcidas organizadas são um tema delicado para o grupo.

Em dezembro, na esteira da indignação da briga de torcedores em Joinville, a Trivela entrevistou alguns jogadores, inclusive lideranças do Bom Senso, e perguntou se o grupo pretendia tomar alguma posição. Não era o objetivo imediato. “Eu acho que a gente deveria ter 100 pautas, mas temos três meses de existência, com duas pautas, e ainda nem fomos recebidos na CBF para defender nossos pontos”, comentou Paulo André, zagueiro do Corinthians. “Claro que a violência dentro dos estádios, experiência do torcedor nas novas arenas, tudo isso é prioridade e alguém tem que fazer alguma coisa. 2014 vai ser um ano positivo, o Bom Senso deve crescer e levantar novas bandeiras, mas não conseguimos as duas primeiras, então não adianta passar para a terceira.”

Outros jogadores apenas mostravam indignação com a briga, mas preferiam colocar a questão na alçada do poder público ou da direção dos clubes. “Você encontra alguns infiltrados, que vão mal intencionados, para brigar, arrumar confusão. Tem que identificar eles, vetar a entrada deles”, comentou o botafoguense Jefferson. “Os jogadores não são as pessoas certas para falar dessa parte. Nós procuramos fazer nossa parte, dentro de campo. Essa parte de fora tem que ficar mais com a diretoria e parte da comissão”, afirmou o atacante Hernane, do Flamengo.

O único que falou mais claramente qual seria a posição dos membros do Bom Senso foi o meia Elias, também do Flamengo. Mas ele também joga para as autoridades a tomada de alguma atitude. “O Bom Senso repudia qualquer ato de violência e prejudicar o espetáculo do futebol”, disse Elias, também do Flamengo. “Sou a favor das organizadas, mas contra os vândalos. Isso tem que partir do poder público, do governo, criar uma lei para punir esses infratores que vão prejudicar o espetáculo. Isso é caso de polícia. O Bom Senso já mostrou que é contra, nós jogadores somos contra.”

Ótimo, não se esperava nada diferente de um grupo que tem legitimidade e mostra ver os problemas do futebol brasileiro como um todo. Mas, então, porque o grupo não tomou atitudes mais enérgicas contra a violência?

Não é certo dizer que as brigas entre organizadas não têm relação direta com a atividade profissional dos atletas. Violência faz que os clubes percam mando de campo, o que reduz o faturamento e a capacidade de saldar suas dívidas e tornar a ideia de fair play financeiro viável, além de aumentar o desgaste físico com viagens desnecessárias. Violência intimida os times no trabalho. E a violência pode ser usada como modo de forçar alguns jogadores a ajudarem a financiar as torcidas em troca de “paz”.

Por isso, as organizadas não podem ser tratadas como algo menos prioritário na pauta do Bom Senso. O grupo precisa comprar essa briga. O risco de trombar com os integrantes dessas torcidas não é pequeno, mas a população em geral apoiaria a ação, e as reivindicações dos atletas ganhariam ainda mais força.