Foi um jogo intenso, cheio de vontade, como não poderia deixar de ser em um confronto pelas quartas de final da Copa Libertadores. Faltaram lances mais claros de gol, assim como a arbitragem ruim incomodou um bocado. De qualquer maneira, Botafogo e Grêmio escreveram o primeiro capítulo de seu duelo histórico na competição continental com uma partida aguerrida no Estádio Nílton Santos, na qual os dois times tiveram seus momentos e as chances apareceram dos dois lados. Entretanto, o placar de 0 a 0 carrega a tensão que aumenta para o reencontro em Porto Alegre e a promessa de que ambos precisarão se empenhar mais dentro da Arena. A batalha, que já começou pegada, precisará agora de mais incisividade para se decidir.

Jair Ventura escalou o Botafogo em uma formação um pouco modificada em relação ao que vinha fazendo na maior parte dos jogos nesta Libertadores. Adiantou um pouco mais os seus extremos, trocando o 4-4-2 pelo 4-2-3-1. Sinal da postura que teria principalmente nos minutos iniciais, tentando forçar os visitantes. Renato Gaúcho, por sua vez, teria que fazer suco com os limões que tinha nas mãos. Os desfalques de protagonistas como Luan e Geromel eram problemas claros, que o treinador precisou resolver contando com sua rotação.

Como já virou praxe nesta Libertadores, o Estádio Nílton Santos oferecia uma atmosfera sensacional. As arquibancadas, pintadas de preto e branco, ergueram uma enorme camisa alvinegra para empurrar os seus jogadores. E o começo do Botafogo foi melhor. Ao contrário do time que espera o adversário para tomar a iniciativa, desta vez os botafoguenses partiram para cima, tentando encontrar os espaços durante os primeiros minutos. Não conseguiam furar a sólida defesa tricolor.

engenho

O Grêmio, por sua vez, era bem mais direto em suas ações. Fernandinho era um dos que mais chamavam a responsabilidade e foi o primeiro a levar perigo, aos oito minutos, em finalização que acertou o lado de fora das redes de Gatito Fernández. Os gaúchos começaram a se soltar um pouco mais a partir dos 15, equilibrando as ações. O que, de certa forma, também beneficiava o Botafogo, com mais brechas para atacar em velocidade, como gosta. Matheus Fernandes chegou a ter um bom cruzamento para completar, mas cabeceou sem jeito, por cima da meta de Marcelo Grohe.

Edílson e Cortês incomodavam o Botafogo pelos lados do campo. Tentavam criar por ali, dando trabalho à zaga do Botafogo. Já do outro lado, os cruzamentos eram a principal arma. Aos 30 minutos, Bruno Silva arrancou os primeiros gritos de lamentação da torcida ao mandar a bola ao lado do gol, errando o alvo por muito pouco. Seria respondido pouco depois, em ótima jogada individual de Arthur. Crescendo na noite, o meio-campista fez fila e bateu firme de dentro da área. Forçou uma bela defesa de Gatito, a melhor (e única) do jogo. Neste momento, a balança pendia um pouco mais aos gremistas, conscientes de sua proposta. Chegaram ainda a reclamar de dois lances, pedindo pênalti – por uma bola no braço de Matheus Fernandes e uma jogada na qual Arthur foi derrubado na entrada da área. A arbitragem, de qualquer forma, era bastante fraca, sem pulso para administrar o confronto.

Para o segundo tempo, o Botafogo voltou um pouquinho diferente, novamente configurado no 4-4-2. E poderia ter saído em vantagem logo aos dois minutos, quando Gilson foi calçado na área. O árbitro, contudo, também deixou os alvinegros na bronca ao não marcar nada – e, desta vez, em um lance bem mais claro que os anteriores. Mais solto, o time da casa voltou a pressionar um pouco mais, carecendo de eficiência no passe final. Quase Cortês fez o favor aos 18, em uma bola que entregou nos pés de Roger. O centroavante matou e fuzilou, esbarrando em Bressan, que desviou para a linha de fundo.

Do outro lado, o Grêmio precisou se virar com mais uma perda, quando Lucas Barrios sentiu lesão e foi substituído por Everton. Nada que impactasse tanto sobre os tricolores, sem a mesma velocidade, mas ainda ameaçando pelos lados. O problema é que as chances concretas mal apareciam. A melhor aconteceu aos 33, em cruzamento de Léo Moura que Fernandinho emendou um voleio. Joel Carli conseguiu cortar de maneira tão espetacular quanto o arremate, quase em cima da linha. O Botafogo ainda fez suas três alterações tentando renovar as energias do ataque, sem desafiar a segura defesa tricolor. Por fim, um dos melhores em campo, Arthur ainda tentou o último lampejo, com seu arremate bloqueado. Não seriam nesses 90 minutos que o placar se modificaria.

O empate desta quarta, a princípio, ajuda o Grêmio para o reencontro em Porto Alegre. Os tricolores poderão decidir em casa, quem sabe contando com a volta de alguns desfalques. O Botafogo, ao menos, joga por um empate com gols e pode ter uma situação favorável caso balance as redes na Arena. E o ponto está exatamente aí: o que os times farão para marcar seus tentos? É primordial se arriscar mais. Ainda que o ritmo forte no Rio de Janeiro tenha sido evidente, faltou que as duas partes se soltassem para pressionar ofensivamente. O temor de um contra-ataque mortal limitou as ações. Mas com as cartas na mesa, as necessidades no jogo de volta serão maiores. Será o momento de buscar a definição.

*As fotos são de Sátiro Sodré e Vítor Silva/SSPress/Botafogo