Júlio César pegou dois pênaltis, enquanto Hulk e Willian perderam. No fim, a batida de Jara na trave foi decisiva: Brasil 3x2, classificada

Brasil 1×1 Chile (3×2 pen): Seleção sobrevive a suas próprias fraquezas

A crônica

Ninguém esperava que logo em seu primeiro jogo no mata-mata desta Copa do Mundo o Brasil teria tanta dificuldade, mas o teste para cardíacos nesse Mundial veio cedo mesmo. Depois de um empate ruim por 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação, o Brasil conseguiu a classificação para as quartas de final com uma atuação brilhante de Júlio César nos pênaltis, pegando duas cobranças. O duelo de hoje será um jogo a ser lembrado, especialmente por Felipão, cuja equipe deixou completamente expostas suas deficiências. A continuidade do Brasil na Copa depende agora da capacidade de reação da Seleção.

Mais uma vez, Felipão optou pela escalação de Oscar aberto pela direita e Hulk na esquerda, e a decisão teve consequências durante todo o jogo. Não houve criatividade ou boas jogadas no time brasileiro durante os noventa minutos do tempo complementar. A entrada de Fernandinho deu certo defensivamente, mas as escolhas de Scolari na frente minaram o meio de campo brasileiro.

A primeira boa chance da partida veio aos cinco minutos do primeiro tempo. Hulk cobrou escanteio, a bola foi afastada pela zaga chilena, e Marcelo pegou a sobra, se livrando da marcação e batendo de fora da área, com perigo, mandando à direita do gol de Bravo. Aos 12 minutos, Hulk avançou com a bola e foi derrubado dentro da área. A reclamação de pênalti foi grande, mas Howard Webb acertou em não marcar nada.

Tendo em mente a deficiência defensiva do Chile pelo alto, com um time de baixa estatura, o Brasil insistiu em jogadas pelo alto, e foi em uma delas que surgiu o primeiro gol da partida. Aos 18 minutos da etapa inicial, Neymar levantou a bola na área em cobrança de escanteio, Thiago Silva desviou de cabeça na primeira trave, e David Luiz apareceu na segunda trave para completar, dividindo com Jara e mandando para a rede.

Em um de seus poucos bons lances, Neymar arrancou em contra-ataque aos 25 minutos, atravessando o campo até o lado esquerdo, ganhando na velocidade da marcação, mas finalizou mal, sem direção.

Depois de 30 minutos de pouca contribuição ofensiva, mas de um ótimo trabalho no auxílio na marcação, Hulk falhou ao devolver a bola em cobrança de lateral de Marcelo, Vargas tomou a bola e passou para Sánchez bater cruzado e empatar o jogo, aos 32 minutos.

Depois do empate chileno, o Brasil foi mais intensivamente ao ataque. Aos 35 minutos, Dani Alves fez boa jogada, tocou para Oscar, e o meio-campista cruzou para Neymar, que cabeceou bem, mas viu um desvio na zaga chilena tirar a bola da rota para o gol, raspando a trave de Bravo. Três minutos depois, Neymar recebeu ótimo lançamento de Oscar, dominou na área e tentou se livrar da marcação. Não conseguiu, a bola sobrou na pequena área para Fred, e o camisa 9 isolou, por cima do gol. Por fim, aos 41, Dani Alves arriscou de longe e quase encobriu o goleiro do Chile, que, por segurança espalmou, para cima.

O intervalo, que poderia ter sido a chance de Felipão acertar tudo o que estava errado, serviu apenas para trazer a campo um Brasil ainda pior. Todos os defeitos do primeiro tempo se acentuaram. E as alterações do técnico ao longo da etapa complementar só reforçaram a dificuldade do treinador em alterar o panorama de uma partida.

Felipão não diagnosticou que o grande problema do time era a inexistência do meio de campo. Para o treinador, o problema era na frente. Fred realmente não estava bem, mas o gaúcho de bigode achou que a solução era colocar outro centroavante, Jô. A equipe não armava jogadas na base do toque. O recurso para tentar ameaçar os chilenos era o chutão para a frente, na esperança de que alguém conseguisse dominar e causar perigo ao goleiro Bravo.

A primeira oportunidade de gol do Brasil no segundo tempo veio com Fernandinho, que arriscou chute da intermediária e mandou a bola à direita do gol de Bravo, muito perto da trave. Sete minutos depois, Hulk até balançou a rede, mas o tento não foi validado. O camisa 7 dominou a bola com o braço e bateu desequilibrado, no canto. O brasileiro saiu comemorando o gol, mas logo foi interrompido pelo cartão amarelo de Webb, que assinalou a falta pela irregularidade.

Aos 15 minutos da etapa complementar, a impressão era de que o Chile havia acertado definitivamente a marcação. O ineficácia brasileira no ataque ia crescendo a cada minuto. Para piorar, a Roja quase chegou à virada com Aránguiz. Aos 19 minutos, o volante do Internacional chegou batendo forte, dentro da área, e Júlio César, em lance de puro reflexo, espalmou para escanteio. O primeiro dos milagres que operaria no jogo.

O Chile esteve bem mais compacto na partida. Quando tinha a bola, trocava bem os passes, com todos os jogadores próximos de quem tinha a bola. O Brasil era o contrário: todos muito distantes, o meio de campo inexistente, e quem pegava a bola não tinha a aproximação de companheiros para tentar alguma tabela ou triangulação.

Aos 29 minutos, Hulk cruzou a bola da esquerda, e Jô perdeu um gol incrível, furando o chute. Mesmo levando em conta o desvio do chileno no meio do caminho, o atacante estava muito na cara do gol para deixar passar uma oportunidade como a que teve.

A última boa chance do Brasil no tempo regulamentar veio aos 37 minutos, em boa jogada individual de Hulk, que levou a bola para o centro e bateu forte, fazendo Bravo executar uma ótima defesa.

Nos dez minutos de primeiro tempo da prorrogação, o Brasil não apresentou melhora. Não havia criação de jogadas, apenas tentativas de chutão para a frente. Ramires, que havia entrado no lugar de Fernandinho no segundo tempo, não aparecia no jogo, Jô não conseguia ficar de pé, Neymar não chamava a responsabilidade, e a defesa do Chile tinha facilidade em desarmar.

Hulk era o único no ataque brasileiro que destoava um pouco, positivamente, é claro. Aos 12 minutos, o atacante mais uma vez pegou a bola e tentou resolver sozinho, levando-a para a perna esquerda e chutando com muita força. Bravo, novamente, foi bem para espalmar.

A intensidade física do Chile, tão elogiada antes da partida, pesou para a Roja na prorrogação. Ainda assim, em uma jogada individual de um jogador que havia entrado no fim do tempo regulamentar, os chilenos quase conseguiram o gol da virada, que os classificaria. Aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação, Mauricio Pinilla chutou forte, acertando o travessão de Júlio César. Antes do apito final, o Brasil teve sua última chance com Ramires, que bateu fraco, rasteiro, à direita do gol de Bravo.

Graças ao brilho de Júlio César, a seleção brasileira conseguiu evitar o vexame de ser eliminado ainda nas oitavas de final da Copa do Mundo em seu próprio país, contra uma equipe sem tradição em Mundiais, e ainda por cima jogando muito mal. Do jeito que as coisas estão agora, não dá para imaginar um cenário em que o hexacampeonato aconteça. Há esperança de melhora. Os erros estão muito evidentes, e resta a Felipão consertá-los. É mais difícil que parece, especialmente pelo fato de o treinador precisar lidar agora com um certo nível de desconfiança, talvez dentro do próprio grupo.

FICHA TÉCNICA

Brasil 1×1 Chile (3×2 pen)

Brasil

Brasil escudoJúlio César; Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz e Marcelo; Luiz Gustavo, Fernandinho (Ramires, 27′/2T), Oscar (Willian, intervalo da prorrogação); Hulk, Fred (Jô, 19′/2T) e Neymar. Técnico: Luiz Felipe Scolari.

Chile

Chile_escudoClaudio Bravo; Gonzalo Jara, Gary Medel (José Rojas, 3′/2TP) e Francisco Silva; Mauricio Isla, Charles Aránguiz, Marcelo Díaz, Eugenio Mena e Arturo Vidal (Mauricio Pinillas, 42′/2T); Eduardo Vargas (Felipe Gutiérrez, 12′/2T) e Alexis Sánchez. Técnico: Jorge Sampaoli.

Local: Mineirão, em Belo Horizonte
Árbitro: Howard Webb (ING)
Gols: David Luiz, 18′/1T, Alexis Sánchez, 32′/1T. Pênaltis: David Luiz, Marcelo e Neymar (Brasil); Aránguiz e Díaz (Chile).
Cartões amarelos: Eugenio Mena, Francisco Silva, Hulk, Luiz Gustavo, Jô, Mauricio Pinilla e Daniel Alves
Cartões vermelhos: nenhum

O cara

Júlio César
Júlio César defende a segunda cobrança do Chile

Júlio César defende a segunda cobrança do Chile

Fez grande defesa em chute de Aránguiz no começo do segundo tempo, evitando a virada chilena. Na cobrança dos pênaltis, foi o grande nome do jogo, pegando duas cobranças do Chile. Em um jogo muito ruim do Brasil, tê-lo debaixo das traves para se agigantar e conseguir sua redenção quatro anos depois foi fundamental para a Seleção.

Os gols

12’/1T: GOL DO BRASIL!

Neymar cobra escanteio, Thiago Silva desvia de cabeça na primeira trave, e David Luiz completa para o gol na pequena área para fazer 1 a 0.

32’/1T: GOL DO CHILE!

Hulk falha na saída de bola, o Chile toma a posse com Vargas, que toca para Sánchez bater cruzado, rasteiro, para empatar o jogo.

Cobranças de pênalti

Brasil 3×2 Chile

1ª cobrança do Brasil:

Gol! David Luiz bate no canto direito de Bravo, que cai para o outro lado.

1ª cobrança do Chile:

Pegou! Pinilla bate no meio do gol, e Júlio César defende.

2ª cobrança do Brasil:

Errou! Willian bate rasteiro, e a bola vai para fora, rente à trave direita.

2ª cobrança do Chile:

Defendeu! Júlio César de novo! Sánchez bate no canto direito, e o goleiro cai bem para defender!

3ª cobrança do Brasil:

Gol! Marcelo bate à esquerda, Bravo desvia, mas a bola entra de qualquer jeito!

3ª cobrança do Chile:

Gol! Cobrança perfeita de Aránguiz, no ângulo esquerdo superior de Júlio César.

4ª cobrança do Brasil:

Pegou! Hulk bate no meio do gol, e Bravo cai para defender.

4ª cobrança do Chile:

Gol! Díaz bate no centro do gol, e Júlio César cai para a esquerda.

5ª cobrança do Brasil:

Gol! Neymar bate à direita, rasteiro; Bravo cai para o outro lado.

5ª cobrança do Chile:

Perdeu! Jara bate à direita e acerta a trave! O Brasil vai para as quartas de final!

A Tática

Escalações iniciais de Brasil e Chile

Escalações iniciais de Brasil e Chile

Sem a bola, o Chile atua em um 5-4-1-2, mas com ela os laterais avançam bastante, especialmente Isla. Díaz é o jogador mais recuado e quem tem o primeiro toque, da saída de bola. Aránguiz tem liberdade para avançar, e Vidal é o mais próximo aos atacantes, também flutuando atrás da dupla de atacantes. Na frente, Sánchez e Vargas revezam bastante os lados em que jogam. Já o Brasil começou em um 4-2-3-1, com Neymar centralizado, Hulk aberto na ponta esquerda e Oscar pela direita. Fernandinho é o cabeça de área que mais avança, enquanto Luiz Gustavo é o principal homem de marcação, mas também avançando pela esquerda.

A Estatística

8

Últimas oito disputas de pênaltis em Copas do Mundo, incluindo a desse jogo, terminaram com a vitória do time que bateu a primeira cobrança.


É jogo decisivo para a seleção brasileira. E o Mineirão certamente estará pintado de verde e amarelo. Mas não será fácil calar a torcida chilena. Por tudo o que os fanáticos por La Roja já demonstraram nas outras partidas, estão entre os mais barulhentos deste Mundial. Na galeria, as fotos da partida e os principais lances que rolarem.