Se você conhece um pouquinho do Brasil rural, já testemunhou a cena da galinha estrangulada. Não é agradável. Certamente despertou o sentimento vegetariano de muitas pessoas. A sua avó vai até o fundo do quintal, escolhe um bicho bonitinho, passa-lhe a mão no pescoço e, com um único movimento, brusco, mas elegante, mata a galinha. Nunca seria capaz de repetir aquilo (meus movimentos não seriam elegantes). Por alguns instantes após a morte, o bicho ainda se debate como se estivesse procurando um sopro de vida em algum lugar.

E AGORA, SCOLARI? Entrevista de Felipão mostra que Brasil tem grande passado pela frente

ANÁLISE: Ou mudamos nosso futebol ou este será apenas o primeiro de muitos vexames

O torcedor esconde o rosto no Mineirão

O torcedor esconde o rosto no Mineirão

Depois da sambada da Alemanha sobre a defesa do Brasil, não consigo me livrar dessa imagem, da galinha. Não que o futebol brasileiro tenha sido estrangulado pela Alemanha, embora a sensação seja essa – as galinhas provavelmente poderiam cacarejar disso com mais propriedade. Mas a nossa reação, naturalmente, se assemelha à da galinha estrangulada. Estamos nos debatendo, buscando um sopro de vida para tirar o futebol brasileiro dessas sete camadas de lama. É natural, ainda mais depois da desastrosa entrevista que Felipão e Parreira deram hoje, apontando que o Brasil tem um grande passado pela frente.

 “A frase de Picasso é simples: bons artistas apenas imitam outros artistas. Eles não criam nada muito original sobre aquilo. Já grandes artistas entendem profundamente o trabalho de outros artistas, incorporam essa reflexão ao seu próprio trabalho e criam obras originais. Eles roubam o método e o transformam em outra coisa completamente diferente, a partir da sua própria leitura de mundo.”

Só que o desespero não costuma produzir grandes obras. O movimento descontrolado, aleatório, só leva a situações cada vez mais bizarras. Saindo das galinhas para a Bolsa de Valores: quando o preço das suas ações está caindo, a melhor medida não é vendê-las abaixo do preço que você pagou, só por medo de que elas caiam ainda mais. É respirar fundo, entender o mercado e saber se aquilo é um movimento isolado ou conjuntural. Em muitos casos, é o momento de comprar mais ações boas a preços muito baixos – e não vendê-las todas de uma vez. Ou, se você realmente percebeu que o negócio entrou numa espiral de destruição, é hora de sair. Mas isso tem de ser pensado. Refletido.

Então, olhando agora, às 22h17 de 9 de julho de 2014, é hora de respirar fundo, entender o cenário e pensar.

“Grandes artistas roubam”

O pintor Pablo Picasso cunhou uma frase muito repetida e pouca compreendida: “Bons artistas copiam. Grandes artistas roubam”. Calma. Não é uma defesa do roubo (não quero ser linchado). A frase de Picasso é simples: bons artistas apenas imitam outros artistas. Eles não criam nada muito original sobre aquilo. Já grandes artistas entendem profundamente o trabalho de outros artistas, incorporam essa reflexão ao seu próprio trabalho e criam obras originais. Eles roubam o método e o transformam em outra coisa completamente diferente, a partir da sua própria leitura de mundo. Já havia rock antes dos Beatles. O que eles fizeram? Roubaram as técnicas de outros artistas e reinventaram a música pop. Simples assim.

Fernandinho lamenta depois de erro que levou ao gol (AP Photo/Natacha Pisarenko)

Fernandinho lamenta depois de erro que levou ao gol (AP Photo/Natacha Pisarenko)

Essa é a reflexão que o Brasil precisa fazer agora – assim como já fez no passado. No começo do nosso futebol, nós importamos técnicos e jogadores estrangeiros, aprendemos com eles e criamos uma nova escola a partir deles – tática e técnica. Mais tarde, enviamos missões à Europa para aprender como eles se preparavam fisicamente. Isso nos rendeu, além de cinco Copas do Mundo, a paixão pelo futebol bem jogado, bonito, acadêmico, fluido. Se não fosse por essa curiosidade, talvez nem estivéssemos aqui, escrevendo de futebol numa noite fria de feriado em São Paulo. Esses homens e mulheres construíram a nossa paixão pelo esporte.

Mas a cópia pela cópia, como nós sabemos, não nos leva a lugar nenhum. Se fosse assim, a China e o Japão já teriam ao menos uma Copa no currículo. A cópia não basta. É preciso refletir – e roubar (os métodos, não a Copa).

A revista Superinteressante fez uma excelente reportagem em 2013 sobre o futebol alemão. Contou como a CBF deles reorganizou o campeonato e a seleção, enchendo de concreto as bases que levariam os clubes do país ao topo das competições europeias e a seleção, à final da Copa do Mundo de 2014.

Claro, nem tudo é perfeito e automático. O Campeonato Alemão é praticamente um monopólio do Bayern de Munique, e isso afeta a graça do esporte. Por outro lado, dá uma baita força à seleção – vários dos jogadores jogam juntos há muito tempo no mesmo time. Estão entrosados, sabem como cada um joga. Não é o único fator, claro. Senão, a Inglaterra não estaria na fila desde 1966, já que vários dos seus talentos estão juntos nos mesmos clubes. Porém, uma política forte de formação de talentos certamente ajuda. São vários fatores, atuando em conjunto, que dão um baita resultado. É muito trabalho bom concentrado. Isso é Alemanha.

Só que a vida é sempre mais complicada. Ok, a Alemanha chegou à final jogando um futebol ofensivo e organizado. Seus times estão entre os melhores do planeta. O campeonato é muito bem organizado. Mas como a gente explica a Argentina? O país tem sofrido horrores nesta Copa, com vários 1 a 0 obtidos na bacia de las almas. O ponto mais alto tem sido a defesa – que vem tomando poucos gols no torneio. Já o ataque se resume a uma única jogada: toca para o Messi, cruze os dedos e torça para ele se inspirar. Senão, vamos confiar na mística – justamente a mística que agora é achincalhada no Brasil porque jogou uma névoa profunda nos olhos da direção brasileira. Confiamos no bruxo Felipão e nos esquecemos de treinar (sempre lembrando: entre os oito finalistas da Copa, o Brasil é o que menos treina).

Felipão e Müller durante o massacre alemão sobre o Brasi

Felipão e Müller durante o massacre alemão sobre o Brasil

Fora de campo, a Argentina abraça a bagunça como método. A economia, caótica, não ajuda nas combalidas finanças dos clubes locais. O campeonato nacional foi estatizado. A soma destes dois fatores faz com que os clubes sejam cada vez menos competitivos fora da Argentina. Eles não têm como competir em salários contra clubes de outros países. Resultado? Os clubes vêm perdendo jogadores não apenas para a Europa, mas também para o Brasil – vários clubes daqui estão se esbaldando no mercado argentino, como o Palmeiras. Resultado número dois? Os argentinos costumavam dominar a Libertadores. Porém, nas últimas cinco edições do torneio, eles venceram apenas uma.

Finalmente, quando eles conseguem revelar algum jogador, ele logo sai do país. E, é sempre bom lembrar, Messi só conseguiu virar Messi porque foi muito cedo para o Barcelona. Talvez, se tivesse ficado na Argentina, seria o craque de algum time de várzea do interior.

Mas nem tudo é tragédia, mística e acaso na bacia do rio da Prata A maior vantagem da Argentina sobre o Brasil é a sua escola de técnicos, que continua muito boa. Diego Simeone foi vice-campeão da Europa com o Atlético de Madrid, em uma campanha histórica. Além disso, dos seis times da América do Sul nesta Copa, três tinham técnicos argentinos. Além da própria Argentina, o Chile (que fez uma Copa empolgante) e a Colômbia (que viveu o melhor Mundial da sua história) também foram buscar seus comandantes na pátria do melhor churrasco do mundo, de um dos maiores escritores da história, o Jorge Luis Borges, e do papa Francisco. Ah, como se não bastasse, Marcelo Bielsa é uma das maiores inspirações de Pep Guardiola.

A Argentina pode ser uma bagunça em uma série de quesitos, mas seus técnicos são espetaculares. Qual técnico brasileiro se compara a Simeone, por exemplo? É. Pois é.

E agora, Brasil?

Uma pessoa mais apressada diria que o Brasil teria de unir a escola de técnicos da Argentina com a metodologia alemã. É, pode ser. Já é um caminho. Só que não adianta copiar as duas escolas. O Brasil no futebol, na economia, no modelo de organização da sociedade, é um país bem diferente da Alemanha e está cada vez mais diferente da Argentina. Somos um país gigantesco, complexo.

Messi corre e domina a bola durante partida entre Argentina e Holanda (AP Photo/Fabrizio Bensch, Pool)

Messi corre e domina a bola durante partida entre Argentina e Holanda (AP Photo/Fabrizio Bensch, Pool)

Além disso, não é o caso de reinventar tudo do zero. Isso é usar o desespero como método. 7 a 1 dói, a situação é grave e as coisas precisam mudar, como nós estamos falando ao longo desta Copa. Só que a cópia pela cópia não leva ninguém a lugar nenhum. É preciso roubar, a la Picasso, os métodos e as ferramentas que fizeram o sucesso alemão, argentino e de tantos outros países que jogaram melhor que o Brasil nesta Copa. Em seguida, combinar com o que de melhor existe aqui. A partir daí, começamos a trilhar o nosso próprio caminho.

É um caminho longo, é verdade. Tem várias coisas para fazer. Não existe receita de bolo. Mas um bom caminho é adotar um discurso completamente oposto ao de Felipão e Parreira na entrevista de hoje. A gente só vai conseguir ir para algum lugar se admitir os erros, identificar as oportunidades e começar a trabalhar. Senão, vamos continuar nos debatendo como galinhas degoladas pelas Copas do Mundo que nos esperam adiante.

É hora de aprender, e aprender de perto. Temos de ter a disposição de alunos nerds, que vão anotar cada uma das frases do professor e passar horas e horas fazendo lições no laboratórios. Precisamos fazer aulas pessoais – nada de ensino à distância. E, claro, fazer isso com dignidade, humor e alguma graça. Os alemães foram melhores que a gente até no quesito carisma.  Porque, convenhamos: galinha estrangulada não é legal. Nem à moda alemã nem à moda argentina.

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