Felipão com Neymar e Hulk no jogo contra a Croácia na abertura da Copa de 2014 (AP Photo/Kirsty Wigglesworth)

O que a Seleção de Dunga pode ensinar ao Brasil de Felipão

O Brasil se perguntava o que seria do time dali a quatro anos. Era 2 de julho de 2010 e nesse dia a Seleção de Dunga foi eliminada pela Holanda, nas quartas de final da Copa do Mundo, na África do Sul. O time, envelhecido, parecia não deixar nenhum legado para o próximo Mundial. Os jovens que eram pedidos, Neymar e Ganso, não foram chamados. Alexandre Pato, outro dos jovens falados, também não foi. A pergunta era: e daqui quatro anos, quando o Brasil vai sediar a Copa?

O tempo passou, o comando da seleção brasileira mudou. O time foi refeito praticamente do zero.  Mas, apesar das diferenças, o time de Felipão e o time de Dunga possuem várias características em comum.

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Semelhança: o questionamento do aspecto emocional
Felipe Melo

Felipe Melo, símbolo da pilhada seleção de Dunga

Uma das bolas cantadas daquela Copa do Mundo era que o time de Dunga jogava no limite. Aliás, Dunga foi chamado por ser uma espécie de Felipão, um cara enérgico, com perfil de liderança dura, que tinha a missão de fechar o time e evitar o oba-oba no qual a Seleção de 2006 afundou. Tinha um meio-campo bastante experiente, com Gilberto Silva, um líder, sendo o pilar no setor, aos 33 anos. Um poço de tranquilidade, algo que o caracterizou em toda a sua carreira. Ao seu lado, ninguém poderia ser mais diferente nesse aspecto: Felipe Melo. Alta qualidade técnica e alta capacidade de explosão.

Mas Felipe Melo era sempre assim, e não só com Dunga. Só que aquele time era tão tenso que Felipe Melo acabou se tornando o símbolo de uma equipe que jogava com os nervos no limite. Tanto que tivemos momentos de muita tensão durante a Copa, como no jogo contra a Costa do Marfim, quando o sempre controlado e bom moço Kaká foi expulso depois de uma cotovelada – o que inclusive gerou um meme na internet chamado #kakabadboy. Nem antes nem depois Kaká demonstrou qualquer tipo de comportamento como naquela partida, tão pilhado.

Um dos grandes temores com relação àquele time de Dunga era como a equipe reagiria emocionalmente a uma situação adversa, por estar sempre tão pilhada. Esse estilo, é bom dizer, em parte ajudou o time a vencer jogos muito difíceis, como foi nas Eliminatórias, quando bateu a Argentina em Rosario por 3 a 1, por exemplo, ou quando venceu a Copa das Confederações de 2009 de virada depois de sair perdendo dos EUA por 2 a 0. Só que o time parecia não ter um plano B caso a pilha não funcionasse. A tensão era método. Só que não se vive só de tensão.

Nesse sentido, Felipe Melo foi a personificação daquele time. Ele era uma bomba-relógio – e isso era uma pedra cantada.  Quando jogava bem, jogava muito. O volante melhorou demais o meio-campo do Brasil, com toda a qualidade que tem. Mas também parecia prestes a colocar tudo a perder. Ele sempre deixou evidente que o pavio era curto demais e poderia causar um dano grave à Seleção.

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Thiago Silva

Thiago Silva, símbolo da frágil, emocionalmente, seleção de Felipão

O que se viu contra a Holanda foi a combinação de tudo isso ao mesmo tempo. Depois de um primeiro tempo excelente, com o Brasil dominando e marcando 1 a 0 com Robinho em um lindo passe de Felipe Melo, o time mudou na etapa final. Felipe Melo tomou bronca de Lúcio por um lance displicente. Depois, veio o gol de Sneijder quando Felipe Melo e Júlio César se chocaram. O time virou o fio e perdeu a cabeça. Michel Bastos, que àquela altura da carreira jogava de meia-atacante no Lyon, mostrou a sua fragilidade na marcação, tão cantada desde a convocação. Robben deitava e rolava por aquele lado. O lateral tomou amarelo e foi substituído para não ser expulso. Mas o problema seguiria.

Depois de um escanteio, a Holanda virou o jogo. O Brasil não conseguia atacar, não tinha uma solução tática para o jogo e ainda parecia um time nervoso em campo. Seis minutos depois de levar o gol, Felipe Melo pisou em Robben no chão e acabou expulso. A bomba-relógio explodiu, justamente no momento mais instável do time. Como cantado antes. Sem nenhum controle dos nervos, o Brasil acabaria eliminado da Copa. E a crítica à pilha exagerada e aos jogadores e a seu técnico descontrolados foram enormes.

Não bastasse o descontrole, o time ainda tinha mostrado problemas quando o seu jogo não encaixava. O Brasil de Dunga era um dos melhores times do mundo em contra-ataque, mas sentia uma dificuldade imensa para enfrentar defesas fechadas. O time pecava pela falta de criatividade.

Kaká era o grande nome do Brasil na Copa do Mundo de 2010

Kaká era o grande nome do Brasil na Copa do Mundo de 2010

Curiosamente, são problemas pelos quais a Seleção de Felipão também passa. No primeiro mata-mata desta Copa, sob uma enorme pressão, o time deu sinais de fragilidade emocional para enfrentar a situação. Acabou passando às quartas de final, mais com a sorte do que com a prudência, mas foi reprovada no seu teste de nervos. Além disso, ainda levantou questionamentos sobre a postura de Thiago Silva e deixou evidente um problema tático e técnico do time, especialmente no meio-campo.

O time tinha um problema parecido com 2010 no quesito falta de criatividade. Lá, Kaká era um ponto confiável do time, mas vinha com problemas físicos e não tinha ninguém além dele no grupo capaz de ajudar nessa responsabilidade – nem em campo nem no banco. Em 2014, Oscar é o principal responsável pela criação, mas suas atuações não têm convencido e o substituto, Willian, também é um jogador que não é tarimbado nem tem entrado tão bem quanto se esperava. E não há outro jogador que tenha essa característica. Hernanes é um quebra-galho.

No Brasil de 2010, se falava que Ganso poderia ser útil, ao menos como substituto de Kaká. Em 2014, também se lamenta a ausência de Ganso, desta vez não pelo técnico não tê-lo convocado, mas porque o jogador não confirmou as expectativas. Continua faltando esse jogador ao Brasil.

O momento do hino nacional: Oscar é o grande responsável por armar o time brasileiro

O momento do hino nacional: Oscar é o grande responsável por armar o time brasileiro

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Diferença: contra-ataque x posse de bola

Em 2010, Dunga montou muito bem o Brasil, que era um time temível, mas tinha um só estilo: gostava de adversários que o atacassem e dessem espaços às suas costas. Era um dos times de melhor contra-ataque do mundo, mortal nas bolas em velocidade com Kaká e Robinho e as finalizações de um Luís Fabiano em grande fase. Ainda tinha a saída pelo lado direito com Maicon, uma locomotiva de força física. Em ataques absolutamente verticais, o time conseguia ferir grandes adversários, baseado na segurança defensiva que o time tinha.

Felipão está com problemas para manter o time em um estilo de jogo de posse de bola, algo que caracteriza esse time de 2014. Em tempos de futebol como o espanhol, com posse de bola monstruosa, essa afirmação precisa ser melhor explicada. O Brasil não é a Espanha nem tem características para isso. Não é um time de posse de bola incessante, que preza mais pela paciência do que pela verticalidade. A Seleção de Felipão gosta de ficar com a bola, mas também é agressiva. Não é um time que só vive do contra-ataque e soube, nos seus melhores momentos, chegar com força também pela aproximação dos homens de trás, como Paulinho e Fernandinho, além dos laterais, especialmente Marcelo, uma força pelo lado esquerdo.

Dunga com Robinho, um dos pilares do time que ele levou à África do Sul  (AP Photo/Luca Bruno)

Dunga com Robinho, um dos pilares do time que ele levou à África do Sul (AP Photo/Luca Bruno)

O Brasil segue sendo um time muito perigoso no contra-ataque, mas é um time que tem muito do coordenador técnico, Carlos Alberto Parreira, e menos do Dunga que parecia tanto beber nos times de Scolari dos anos 1990, times de muita velocidade e transição rápida, dando campo ao adversário. O Brasil atualmente sofre justamente porque está com dificuldades em jogar com a bola, com posse de bola, e a criação está pecando. Mas é um time que gosta de ter a bola, e não só de correr com ela. Até pela característica de seus jogadores. Neste aspecto, os times de 2010 e 2014 são bem diferentes.

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Semelhança: vítimas do espólio de 2006

O ano de 2006 deixou um trauma. O time do quadrado mágico, que resgatava o futebol arte, que trazia craques do futebol vistoso, tudo isso caiu por terra em uma campanha muito ruim na Alemanha. Foram poucos daqueles protagonistas que conseguiram se manter em alto nível e, assim, se tornarem referências técnicas para as gerações que viriam depois. Esse foi um dos problema com os quais a Seleção de Dunga teve de lidar. Mais tarde,  Mano Menezes e Felipão também sentiram as consequências.

Ronaldinho, o melhor do mundo, entrou em decadência logo depois da Copa do Mundo da Alemanha. Ronaldo não jogou mais pela Seleção Brasileira. Adriano parece ter entrado em um buraco negro, com um espasmo em 2009, quando ameaçou voltar a ser o jogador que fora um dia – mas logo voltou à sombras. Cafu e Roberto Carlos, já veteranos na época, deixaram a Seleção para nunca mais voltar.

Ronaldinho é um dos símbolos da terra arrasada da Copa de 2006

Ronaldinho é um dos símbolos da terra arrasada da Copa de 2006

Mesmo os que continuaram na Seleção não conseguiram ser o que se esperava. Robinho, reserva daquele time, se tornou protagonista da seleção de Dunga, mas caiu de nível demais de 2010 em diante. Kaká demorou a ser resgatado por Dunga, mas acabou se tornando protagonista do time que foi à África do Sul. Depois,com problemas físicos, não conseguiu mais manter o nível. Teve algumas chances na seleção, mas não convenceu os treinadores da sua importância.

Se Ronaldinho e Adriano não conseguiram dar ao time de 2010 a referência que poderiam, em 2014 Felipão passa pelo mesmo problema. Kaká, Ronaldinho e Robinho, em uma situação normal, ao menos teriam condição de compor o grupo. Destes, Kaká parecia o único a ter algo a acrescentar ao time, e mesmo assim a decisão de deixá-lo de fora foi compreensível. O legado de 2006 foi uma terra arrasada.

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Diferença: protagonistas são jovens

As certezas ao final da Copa de 2010 eram a saída de muitos dos veteranos e a chegada de jogadores jovens que estavam pedindo passagem na Seleção. Dunga apostou em um grupo de jogadores mais experientes. Só três jogadores entre os 23 tinham 25 anos ou menos: Thiago Silva, 25, Nilmar, 25, e Ramires, 23.

A zaga, por exemplo, era formada por Lúcio e Juan, dois jogadores que repetiram a parceria de 2006, quando tinham ido bem. Lúcio tinha 32 anos, enquanto Juan tinha 31 anos. Além dos dois, outros sete jogadores já tinham 30 anos ou mais: Júlio César (30), Gilberto Silva (33), Gilberto (34), Josué (30), Kléberson (30), Doni (30) e Grafite (31). Era o elenco mais velho em média de idade na Copa do Mundo daquele ano, 28,6 anos.

Lúcio era um dos pilares do time de Dunga na Copa de 2010 (AP Photo/Schalk van Zuydam)

Lúcio era um dos pilares do time de Dunga na Copa de 2010 (AP Photo/Schalk van Zuydam)

Em 2014, a média de idade abaixou ligeiramente para 28,35 anos, a sétima seleção mais velha em média de idade, mas mudou consideravelmente o cenário. São sete jogadores com 30 anos ou mais, mas só três deles são titulares: Júlio César (34), Daniel Alves (31) e Fred (30). Em 2010, eram quatro: Júlio César, Lúcio, Juan e Gilberto Silva.

Há outro ponto a se considerar. Em 2010, nenhum titular tinha menos de 25 anos. Os mais jovens eram Michel Bastos (26) e Robinho (26). Em 2014, Neymar (22), Oscar (22) e Paulinho (25) começaram a Copa como titulares. Os dois primeiros, que estão entre os mais jovens de todo o elenco, são dois protagonistas do time e certamente são jogadores não só para o presente, mas para o futuro da seleção também. No banco, Willian (25) e Bernard (21) também são jogadores com boas perspectivas futuras.

Depois da eliminação em 2010, o trabalho teve que ser iniciado do zero. Já se sabia que Thiago Silva, reserva na África do Sul, assumiria o posto. David Luiz foi chamado na primeira convocação pós-Copa, já com Mano Menezes no comando, e formou a dupla de zaga que permaneceria até a Copa de 2014, sendo um dos pontos altos do time. Daniel Alves foi promovido a titular, depois de passar o ciclo anterior na reserva de Maicon, que retomou o posto na Seleção pouco antes da Copa, mas desta vez como reserva.

Paulinho foi decisivo na Copa das Confederações (AP Photo/Bruno Magalhaes)

Paulinho foi decisivo na Copa das Confederações (AP Photo/Bruno Magalhaes)

 

Marcelo tornou-se o titular da lateral sem muitos questionamentos. Ele chegou a jogar com Dunga, mas teve problemas com o treinador e ficou fora do elenco que foi à Copa. Do meio para frente, porém, o time teve que partir mesmo praticamente do zero. Ramires é o único do setor que permaneceu de 2010, mas é reserva. A grande maioria teve a sua primeira convocação só depois daquela Copa do Mundo.

Se em 2010 pouco ficou para a Copa seguinte, em 2014 não deve ser assim. Algumas das principais figuras permanecerão. Neymar e Oscar certamente continuam, assim como Paulinho. Outros, que têm entre 26 e 29 anos, devem ter condição de jogar uma próxima Copa. Não será preciso recomeçar a construção do time do zero, como foi com o time de Dunga. Quem comandar a Seleção após a Copa do Mundo terá muitos jogadores com quem começar o trabalho. O legado de Felipão, no final das contas, pode ser bom.

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