Camisas do Cruzeiro

Ingleses, alemães, espanhóis, chilenos: nenhum deles paga tanto quanto você pela camisa de um time

Você tem a sensação que as camisas do seu clube estão caras demais? Não é por acaso. Camisas de futebol estão caras no mundo todo, tanto que, no Reino Unido, o preço do uniforme da seleção inglesa tornou-se alvo de crítica da ministra do esporte e do primeiro ministro do país. Os preços são altos e resolvemos analisar onde ele pesa mais para o torcedor, pois cada país tem uma situação econômica e um poder de compra diferente. Foi assim que chegamos à conclusão que, infelizmente, não surpreende: entre os 10 países analisados, o Brasil tem o maior preço relativo de camisas de futebol.

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Para analisarmos essa questão em alguns dos principais países do mundo, usamos um índice divulgado pelo Banco Mundial, que mostra o Produto Nacional Bruto (PNB, que é diferente do PIB) per capita convertido em dólares com base no índice de Paridade do Poder de Compra (PPC). Com isso, o dado fornecido seria equivalente a um salário anual de um morador do país. Assim,  se o índice do país é US$ 24 mil, seria equivalente a um salário mensal de US$ 2 mil. Esse índice é uma forma de analisar com mais precisão a riqueza do país de acordo com o custo de vida que a população tem, tornando um cálculo mais aproximado da realidade do que o PIB per capita, que leva a distorções grandes. Por esse índice, quanto maior o valor, melhor: significa que há mais poder de compra.

Não quer dizer que seja um reflexo fiel do custo de vida de um país, uma vez que cada cidade tem um custo diferente. Afinal, morar em São Paulo ou em São Leopoldo não é a mesma coisa. Assim como não é o mesmo morar em Milão ou Palermo, ou em Nova York e Salt Lake City. Mesmo assim, é uma tentativa de entender as diferenças econômicas entre os países e por isso escolhemos esse índice, que é global e fornecido por uma instituição que analisa a economia de todos os países.

Para medirmos o peso dos preços das camisas, pegamos uma média de preços dos uniformes e dividimos pelo valor do índice conseguido no Banco Mundial. Afinal, quanto maior o poder de compra, menos peso o preço da camisa terá. Escolhemos dez países para analisar, considerando diferentes regiões do planeta e realidades econômicas, mas sempre com ligas nacionais estabelecidas. Além do Brasil, Colômbia, Uruguai, Reino Unido, Itália, Espanha, França, Alemanha, Chile e Estados Unidos.

Incluímos os Estados Unidos, onde os preços em geral são altos, mas o poder de compra também é, apenas como base para comparação.  A Argentina não foi incluída na América do Sul, mesmo sendo um país relevante para o continente e para o futebol, porque não há dados do país desde 2006 no índice do Banco Mundial utilizado como base. Para tornar possível a comparação, usamos o dólar americano como moeda, porque é a mesma usada pelo índice do Banco Mundial.

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Para escolhermos camisas similares, usamos o modelo básico, sem personalização, de um uniforme masculino (já que nem todos possuem versões femininas do uniforme e, quando há, em geral o preço não é o mesmo). Não escolhemos o modelo “Authentic”, que é um modelo mais caro existente em alguns países, mas o o modelo de torcedor, ou “Stadium” em alguns lugares. Escolhemos alguns clubes do país, os mais representativos, e traçamos uma média de preço das camisas novas, pensando no preço cheio, sem descontos, do início da temporada.

Estados Unidos o melhor, Brasil o pior

Como era de se esperar, os Estados Unidos são o país onde o preço pesa menos para o torcedor. A camisa dos times da MLS custa, em média, US$ 85, que é um preço parecido com as camisas dos times de esportes mais populares no país, como beisebol (uma camisa do New York Yankees, por exemplo, custa US$ 80) ou futebol americano (uma camisa custa cerca de US$ 100). No índice do Banco Mundial, PNB per capita baseado no PPC, os Estados Unidos alcançam US$ 52.610. Dividindo o preço da camisa por esse índice, chegamos a 0,16%, o menor entre todos os países pesquisados. O preço da camisa é alto, mas o poder de compra compensa.

No Reino Unido, a situação é parecida com os Estados Unidos. É preciso aqui fazer a ressalva que a Inglaterra é o país com a liga mais valorizada no mundo atualmente e onde os preços estão sempre sob duras críticas de torcedores e da imprensa. Manchester United, patrocinado pela Nike, e Chelsea, patrocinado pela Adidas, vendem suas camisas a US$ 88. O Arsenal, que vive sua última temporada com patrocínio da Nike, vende camisas a preços similares, a cerca de US$ 83. Como é o último ano da parceria, a tendência é mesmo o preço ser menor. Na próxima temporada, já com a Puma, o preço deve ser equivalente aos dois rivais.

O preço médio de uma camisa no Reino Unido é alto, mas abaixo de outros países europeus. Afinal, o índice PNB/PPC do Banco Mundial é US$ 37.340, a relação entre o preço da camisa e o índice é de 0,24%, o terceiro menor entre os dez países.

O preço médio de camisas mais alto é o da Itália, US$ 110. A Internazionale, patrocinada pela Nike, vende sua camisa a US$ 110, mesmo preço da Juventus, que é da mesma fornecedora, e do Milan, da Adidas. Como o índice PNB/PPC é de US$ 32.920, a relação entre os dois é a pior entre os países europeus, 0,33%.

A França, onde o preço médio das camisas também anda inflado (US$ 106) e com índice PNB/PPC de US$ 36.720, a relação entre ambos alcança 0,29%. O caso francês tem muito a ver com a ascensão do PSG (Nike), que tem uma camisa cara (US$ 116), mas o preço médio é mesmo alto. O Olympique de Marseille (Adidas), clube tradicional do país, tem camisa com preço na casa de US$ 100.

Na Alemanha, o Bayern de Munique (Adidas), time mais forte do mundo atualmente e único alemão a alcançar grande repercussão mundial, tem a camisa mais cara do país, custando € 80 (US$ 109). O Borussia Dortmund (Puma), principal rival, vende sua camisa a US$ 96. Com um preço médio de US$ 102,5 e um índice PNB/PPC de US$ 42.230, a relação entre os dois fica em 0,24%, quarta menor da lista.

A Espanha também tem preços altos, especialmente se considerarmos a crise econômica pela qual passa o país nos últimos anos. O Barcelona (Nike) é o time com preços de uniformes mais caros, a US$ 116. O Real Madrid (Adidas) vende a camisa atualmente a US$ 83, enquanto o Atlético de Madrid (Nike) cobra US$ 111 no seu uniforme.

O caso mais curioso é o do Chile. Usando dois dos principais clubes do país como exemplo, o Colo-Colo (Under Armour) vende sua camisa a US$ 37, enquanto a Universidad de Chile (Adidas) cobra US$ 40. O preço médio das camisas é o mais baixo entre todos os pesquisados, US$ 38,49. O índice PNB/PPC é de US$ 21.230. Com isso, o Chile torna-se o segundo na relação preço da camisa/índice, com 0,18%. A economia dolarizada ajuda na baixa, mas especialmente o baixo valor da camisa torna a relação melhor para o torcedor. Especialmente vendo a situação dos outros países da América do Sul.

Não há nenhuma surpresa em perceber que Brasil, Colômbia e Uruguai, estão entre os países onde o preço das camisas pesa mais no bolso do torcedor. Em um país com alto poder de compra, como os Estados Unidos, o alto preço dos uniformes tem um peso menor. Vale o mesmo para alguns dos principais países europeus. A França, por exemplo, tem a maior média de preço dos uniformes, mas com o poder de compra dos franceses, esse preço é diluído.

O Uruguai vende camisas a um preço alto. Os dois principais times do país, Peñarol (Puma) e Nacional (Umbro), vendem suas camisas pelo mesmo preço, US$ 87. Um preço alto em qualquer lugar, ainda mais na América do Sul, onde as economias são mais fracas que países da zona do euro ou Estados Unidos. O índice PNB/PPC é de US$ 15.310, o que leva a uma relação de 0,57%, bem maior que a Itália, o pior dos europeus. Mas a situação fica ainda pior quando olhamos para os dois últimos da lista.

A Colômbia tem preço médio menor que o Uruguai. O Millonarios, por exemplo, vende sua camisa a US$ 74, enquanto o Atlético Nacional cobra US$ 72. Usando a média de US$ 73, e com índice de US$ 9.990 no PNB/PPC, a relação entre os dois fica em 0,73%.

O Brasil é um caso à parte. Embora seja a maior economia da América do Sul, tem um índice PNB/PPC pior que o do Uruguai e Chile. O índice do país é de US$ 11.530, o que indica que embora o Brasil seja um país cada vez mais rico entre aqueles em desenvolvimento, a desigualdade continua sendo alta e o poder de compra se concentra em pouca gente. Quando é espalhado pela população, é possível ver essa fragilidade.

Um dos principais fatores que contribui para o Brasil ser o pior entre os avaliados é o preço das camisas. A média no Brasil é de US$ 89,43, equivalente a R$ 200. Um preço que seria alto em qualquer lugar do mundo, mas especialmente onde o poder de compra fica tão abaixo de outros países.

O Corinthians (Nike), por exemplo, vende seu uniforme principal a R$ 199,90 (US$ 90), mesmo preço cobrado pelas camisas de São Paulo (Penalty), Fluminense (Adidas), Botafogo (Puma), Santos (Nike), Vasco (Penalty), Internacional (Nike) e Cruzeiro (Olympikus). Boa parte desses uniformes são lançados a R$ 229,90, mas as marcas têm variado a data. Às vezes os novos uniformes dos clubes são lançados apenas antes do Campeonato Brasileiro. Tanto que as camisas amarelas, em edição comemorativa, de Internacional e Corinthians, por exemplo, foram lançadas a esse preço.

Grêmio (Topper) vende a sua camisa a R$ 229,90 (US$ 104,5), Flamengo e Palmeiras (Adidas) têm sua camisa vendida a R$ 219,90 (US$ 99), mesmo preço cobrado pelo Atlético Mineiro, que fechou recentemente o patrocínio com a Puma e lançou o seu uniforme versão 2014. Coritiba (Nike), Atlético Paranaense (Umbro) e Bahia (Nike) vendem suas camisas a R$ 179,90 (US$ 81). O Vitória recentemente trocou a Penalty pela Puma, mas ainda não foi lançado o novo uniforme.

Alguns clubes brasileiros lançam uma terceira camisa, além das duas tradicionais. No lançamento, essas camisas tem sido bastante caras. O Flamengo (Adidas) lançou recentemente uma camisa preta custando R$ 249,90 (US$ 112), mesmo preço cobrado pela terceira camisa do Palmeiras (Adidas), amarela, pelo uniforme comemorativo de 90 anos do Atlético Paranaense (Umbro). A camisa amarela do Inter (Nike) foi lançada a R$ 229,90 (US$ 103,60).

Com a média de preço tão alta, a US$ 89,43, e o índice PNB/PPC baixo, US$ 11.530, a relação entre os dois fica em 0,78%, a maior entre todos os dez países. O que só mostra que a sua impressão de que a camisa do seu clube está cara de mais é mais do que uma mera impressão. É uma constatação. E não há indicativo que isso vá mudar em breve.



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