Durante certo tempo, o Vitesse pareceu um time que podia aspirar seriamente ao título holandês. Tal tempo passou. Não que o clube tenha caído drasticamente: é o quarto colocado do campeonato, com 53 pontos, brigando rodada a rodada com Twente e PSV por um lugar direto na fase de grupos da Liga Europa – com a vitória por 2 a 1 sobre o Heracles, o Feyenoord ganhou um respiro de quatro pontos no segundo lugar, sonhando concretamente em estar nos playoffs da Liga dos Campeões.

Mas é fato que os Arnhemmers já não demonstram a mesma vitalidade de outros momentos da Eredivisie. Prova disso são os três jogos sem vitória. Outra delas é a queda de produção de Lucas Piazon, um dos destaques do primeiro turno: o brasileiro está há 750 minutos sem marcar um gol sequer. Pior, passou algumas rodadas no banco de reservas. Isso porque ainda é o goleador do Vitesse no torneio, com 11 gols…

E o brasileiro até reclamou da situação que vive à revista “Voetbal International”, há algumas semanas: “Eu sou considerado responsável por todos os jogos que perdemos. Tudo bem, alguém tem de levar a culpa. Tudo bem, eu respeito a comissão técnica e o elenco. Continuarei trabalhando duro pela equipe. Mas estamos sem vencer há cinco rodadas e só eu sou substituído durante os jogos. Só eu”.

Depois, o time reagiu, ganhando três jogos em sequência antes da nova queda atual. Mas a campanha continua sendo razoável. E outros jogadores cresceram na ausência de Piazon, como Christian Atsu e Mike Havenaar. Enfim, se os problemas se restringissem ao campo, estava tudo normal. Mas eles começaram a ficar mais graves internamente. E é aí que mora o perigo. Não só para 2014, mas para os anos vindouros no Vites.

Aparentemente, quando vendeu suas ações para o ucraniano Alexander Chigrinskiy e deixou de presidir o clube, o georgiano Merab Jordania fizera isso num total clima de harmonia, como se fosse uma simples transição. A última semana destruiu totalmente esse cenário de tranqüilidade. Tudo começou no dia 30 de março, quando o clube anunciou que Jordania estava proibido de entrar nas dependências do estádio Gelredome. É: proibido. A razão foi uma briga séria com Joost de Wit, diretor geral do clube, que acusou o ex-mecenas de tê-lo ameaçado fisicamente, até.

Óbvio, numa briga dessas, Jordania não ia para o matadouro sem berrar. E sua vingança foi maligna. Nas páginas do jornal “De Telegraaf”, foram estampadas palavras bombásticas do georgiano, dando a entender que a ligação com o Chelsea, oficialmente apenas relativa ao empréstimo de jogadores, tinha mais, muito mais por baixo dos panos: “Eu queria ser campeão com o Vitesse, mas Londres [referindo-se aos dirigentes dos Blues] não queria isso. Ser ambicioso é ótimo, mas o Vitesse não poderia ser adversário do Chelsea na Liga dos Campeões”.

A pressão do Chelsea para que o Vitesse tivesse desempenhos mais modestos e (contrariando a intenção de Jordania quando comprou o clube – ou seja, fazer o time brigar sério por títulos na Holanda) também teria influenciado a saída do técnico Fred Rutten, no fim da temporada passada: “Agora ele sabe porque as coisas ocorreram daquele jeito no ano passado. E eu saquei porque ele não quis continuar no Vitesse. Ele ouviu que deveria treinar o time, e nada mais. Nunca teria a chance de se tornar campeão”.

E por fim, Jordania deixou claro que aquilo era sua vingança: “Eu sinto pelo que disse, porque apunhalei Joost e Londres pelas costas. Mas por outro lado me sinto feliz, pois eles me forçaram a contar a verdadeira história. Eu lutei pelo Vitesse como Cruyff lutou pelo Ajax quando [Steven] ten Have (presidente do Conselho Deliberativo do clube) apareceu [ao contratar Louis van Gaal para ser diretor técnico do Ajax, à revelia de Cruyff]. Mas perdi a briga. Eu mexi com gente mais poderosa”.

Mais obviamente ainda, as palavras de Jordania desencadearam outras reações. A federação holandesa chamou o clube às falas, para que esclareça sua relação com o Chelsea ao longo dos próximos dias – afinal, é proibido que dois clubes sejam comandados por um mesmo grupo (lembremos que Roman Abramovich é sócio e amigo próximo de… Alexander Chigrinskiy). Joost de Wit negou que o Chelsea influa nos destinos do Vitesse: “Quem disse isso foi Jordania. Sempre queremos vencer. Esse desejo está presente e o próprio Chelsea nos apoia”.

É bem provável que Jordania tenha colocado a boca no trombone exatamente porque seus interesses foram feridos pelo grupo que agora manda no Vitesse. Santo o georgiano nunca foi – até porque também era amigo de Roman Abramovich. Mas suas palavras podem ter colocado um fim na fase de sucesso do Vitesse, com jogadores emprestados pelo Chelsea (Kalas, Van Aanholt, Lucas Piazon, Aké…), salários altos etc.

Pejorativamente, o Vitesse foi apelidado por outras torcidas de “O Hollywood do Reno”, já que se vendia como um clube cujo dinheiro lhe tornava pomposo, dava-lhe sonhos de grandeza… pois bem, o momento de conflito desse filme em “Hollywood” chegou. É ver a sequência dele.

Quer enganar quem?

Frank de Boer segue dizendo por incontáveis vezes: “Não ganhamos nada”. Com oito pontos de vantagem na liderança, a três rodadas do fim, fica difícil acreditar nele. O tetracampeonato nacional (inédito na história do Ajax) pode vir já nesta 31ª rodada. Basta ganhar do Vitesse descrito nesta coluna, fora de casa, e ver o Feyenoord perder pontos em Roterdã, contra o RKC Waalwijk. A festa na Arenapark, terreno próximo à Amsterdam Arena, já está armada. O discurso de Frank de Boer já não engana muita gente.