Fundado em 1964, após a fusão de duas equipes de bairros vizinhos na periferia de Copenhague, o Bröndby viveu ascensão meteórica ao longo dos anos 1980. Em meio a um contexto no qual a seleção da Dinamarca se afirmava como respeitável na Europa, os auriazuis buscavam se colocar como porta-bandeira do futebol do país em termos clubísticos, especialmente pela rápida adaptação à novidade do regime profissional, adotado por lá a partir de 1978. Na temporada 1990/91 viria o ápice: fizeram história na Copa da Uefa com uma equipe repleta de talentos prestes a despontar. Derrubaram camisas tradicionais e estiveram a dois minutos da final. Até hoje, foi o mais longe que um clube do país chegou num torneio continental.

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Depois de escalar as divisões inferiores do campeonato nacional ao longo da década de 1970, o Bröndby finalmente estreou na elite dinamarquesa em 1982. Naquela equipe, brilhava o talento precoce de um meia promissor chamado Michael Laudrup, de apenas 17 anos ao início daquela temporada, e filho de Finn Laudrup, ex-treinador do time. Logo seria negociado com a Juventus por uma soma recorde para os padrões locais. Dentro de pouco tempo, o clube já era hegemônico no país: o primeiro título da liga, em 1985, foi seguido por um bicampeonato em 1987 e 1988 – nestes dois contando com o futebol do meia-atacante Brian Laudrup, irmão mais novo de Michael.

Posteriormente, o clube levantaria outro bicampeonato em 1990 e 1991, ficando com o segundo lugar em 1986 e 1989. Curiosamente, foi justamente um desses vices, interrompendo a série de títulos, que valeria a vaga na Copa da Uefa da temporada 1990/91. Como na época o calendário adotado na liga do país era o de ano corrente, a classificação foi obtida com o vice no Campeonato Dinamarquês de 1989, disputado entre abril e outubro daquele ano e vencido pelo Odense.

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Em edições prévias das copas europeias, o clube já havia feito alguns estragos. Logo na estreia, na Copa dos Campeões de 1986/87, bateria Honvéd e Dynamo Berlim antes de dar calor no Porto, futuro campeão, nas quartas. Na temporada seguinte, pela Copa da Uefa, seria responsável por eliminar o IFK Gotemburgo, então detentor da taça, logo na primeira fase. Mesmo as eliminações de saída nas duas edições seguintes da Copa dos Campeões – para Club Brugge e Olympique de Marselha – não foram vergonha. Pelo contrário: além de os adversários serem fortes, deram à equipe a tarimba necessária.

A história daquela campanha começa em janeiro de 1990, quando o clube apontou seu novo treinador para o lugar de Ebbe Skovdahl, que saíra para dirigir o Vejle. Era o ex-líbero Morten Olsen, um dos nomes mais emblemáticos do futebol do país e capitão da “Dinamáquina” que brilhou na primeira fase da Copa de 1986. Olsen encerrara sua carreira de jogador poucos meses antes, em junho do ano anterior, perto de completar 40 anos de idade, e tinha agora seu primeiro desafio como treinador. Para ajudá-lo na missão, havia um elenco ponteado por nomes de nível internacional.

O time-base

A começar por um goleiro grandalhão, de estilo expansivo e reflexos impressionantes, que já se colocara como titular indiscutível da seleção (que antes vinha sofrendo com a irregularidade dos outros nomes que passaram pela posição) e chegara ao clube em 1987, vindo do vizinho Hvidovre. Seu nome era Peter Schmeichel. À sua frente jogava Lars Olsen, que, apesar da inexistência de parentesco, era o verdadeiro herdeiro de Morten Olsen tanto na posição de líbero quanto na função de capitão da seleção. Defensor sério, experiente e ótimo organizador do setor, exercia os mesmos papeis no clube e fora eleito o melhor jogador do país em 1988.

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Além de Lars Olsen, a defesa do sistema 3-5-2 era formada também pelo nigeriano Uche Okechukwu pela direita e por Kim Christofte pelo lado esquerdo. Uche era um dos dois únicos estrangeiros do elenco, juntamente com o meia-atacante Friday Elahor, seu compatriota. Ambos chegaram ao clube em julho de 1990, vindos do Iwanyanwu Nationale, após se destacarem pela seleção da Nigéria na Copa Africana de Nações daquele ano. Enquanto o zagueiro se firmaria como titular com atuações sólidas a ponto de ser escolhido pelos torcedores o jogador do ano do clube em 1992, Elahor não faria o mesmo sucesso, embora também participasse esporadicamente da boa campanha na Copa da Uefa.

Christofte, jogador versátil e talentoso, era velho conhecido do clube, pelo qual começara a carreira no fim dos anos 1970 e simbolizara um dos primeiros passos importantes da adesão ao profissionalismo: em 1981, tornou-se o primeiro jogador pelo qual o Bröndby recebeu uma quantia de transferência, ao ser vendido ao Lokeren. Retornaria ao clube em 1984, antes de ter outras duas experiências no exterior, primeiro rapidamente no Málaga e em seguida no Wettingen. Também havia atuado pela seleção e esteve bem perto de integrar o elenco que faria história no Mundial de 1986, mas acabou dispensado por lesão. Voltara outra vez ao Bröndby em 1988, após passagem pelo Odense.

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Os alas também tinham trajetórias bem distintas. Pela direita jogava Bjarne Jensen, até hoje o recordista em número de partidas pelo Bröndby, única camisa de clube que vestiu em seus 16 anos de carreira, entre 1976 e 1992. Também já acumulava quatro jogos pela seleção no fim dos anos 1980 quando do início daquela campanha. Já pelo lado esquerdo, Erik Rasmussen tinha carreira de cigano: defendera outros três clubes do país antes de aportar no Bröndby em setembro de 1989, incluindo duas passagens pelo Koge, onde se iniciara no jogo. Além disso, havia emigrado para os Estados Unidos em 1984, onde passaria cinco anos atuando pelo Wichita Wings na liga indoor da MISL.

O meio-campo começava com um cão de guarda, John “Faxe” Jensen (o apelido aludia a um episódio em que o jogador levara um banho da cerveja dinamarquesa de seus companheiros de clube). Lutador durante os 90 minutos, embora não completamente desprovido de habilidade, era presença certa também na seleção desde 1987. Teve passagem pelo Hamburgo, voltando a tempo de participar desde o início da nova aventura europeia do Bröndby. Na mesma faixa central, porém mais à esquerda, atuava Carsten Jensen, meia discreto e dinâmico, que cobria o setor e se apresentava à frente com parcimônia.

Outro nome que formava a espinha dorsal da equipe era Kim Vilfort, atacante de origem que recuara para a posição de ponta de lança ao chegar em 1986, vindo de uma experiência sem sucesso pelo Lille. Com a saída de Brian Chrøis, dispensado por Morten Olsen, além da perda definitiva por lesão do experiente Per Frimann (ex-Anderlecht, que integrara o elenco da seleção na Copa de 1986), Vilfort era o principal nome do setor de criação. Combativo, inteligente, de boa técnica e faro de gol, foi eleito o jogador do ano no país em 1991. Era também um dos quatro jogadores do clube incluídos na seleção dinamarquesa que disputara a Eurocopa de 1988 (junto com Schmeichel, Lars Olsen e John ‘Faxe’ Jensen).

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Na frente, o responsável por balançar as redes era Bent “Turbo” Christensen, jogador oportunista e veloz trazido do Servette suíço no fim de 1987 para substituir o ídolo Claus Nielsen (vendido ao Panathinaikos) e que cumpriu a missão com louvor: foi três vezes artilheiro da liga dinamarquesa (em 1988, 1990 e 1991) e peça decisiva naquela trajetória europeia. Ao seu lado, jogava Torben Frank, revelado pelo próprio clube e que na reta final da campanha deixaria o posto para a entrada de Frank Pingel, ex-jogador do AGF Aarhus que vinha de uma passagem rápida pelo Newcastle.

A campanha

Era um time que não entrava com pretensões de título na Copa da Uefa, mas cotado para surpreender incautos de camisa mais tradicional. Este foi o caso do adversário da estreia, o Eintracht Frankfurt, que vinha de um terceiro lugar na Bundesliga, atrás apenas de Bayern de Munique e Colônia. Além do meia Andreas Möller, seu principal nome, as Águias contavam com vários jogadores experientes, de passagem pela seleção alemã, como o goleiro Ulrich ‘Uli’ Stein, o líbero Manfred Binz, o volante Ralf Falkenmayer e o armador Uwe Bein, além do atacante ganês Tony Yeboah. Os dois últimos, entretanto, eram desfalques na partida de ida. O Bröndby, por sua vez, não teria ‘Faxe’ Jensen no primeiro jogo.

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O placar da estreia, entretanto, seria inapelável. O primeiro gol sairia logo aos nove minutos, após uma arrancada na raça de Uche Okechukwu pela ala esquerda, terminando num chute forte e cruzado do zagueirão. Na etapa final, a goleada se desenharia: Bent Christensen ampliaria com um leve toque por sobre o goleiro aos nove minutos e cobrando pênalti aos 18. Aos 35, seria a vez do meia Jens Madsen fazer grande jogada, tabelar e marcar o quarto. E aos 38, Christofte interceptaria uma saída de bola alemã, avançaria e entregaria para Christensen marcar seu terceiro no jogo e o quinto do Bröndby, deixando os dinamarqueses com uma ótima vantagem para a partida de volta.

O segundo jogo aconteceu numa data simbólica: 3 de outubro de 1990, dia da reunificação alemã. Mas a festa da classificação no Waldstadion foi dinamarquesa, apesar da vitória do time da casa. Yeboah abriria o placar para os Águias logo aos cinco minutos e Eckstein ampliaria aos 22, fazendo a torcida local acreditar que seria possível reverter a desvantagem do jogo de ida. Mas um gol de Bent Christensen aos 28 jogaria um balde de água fria nas pretensões do Eintracht Frankfurt. O time rubro-negro voltaria a marcar com Uwe Bein aos 38, mas iria para o segundo tempo precisando de mais quatro gols. Conseguiria apenas um, por meio de Andreas Möller, já a três minutos do fim. E a vaga ficou mesmo com o Bröndby.

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A próxima parada seria o Ferencváros, que havia eliminado o Royal Antuérpia belga na fase anterior. Trazia nomes de seleção húngara, que buscavam renovar o futebol do país, então já em baixa, como József Keller, Attila Pinter, Péter Lipcsei e Zsolt Limperger. Mas a cara mais conhecida era mesmo a do técnico Tibor Nyilasi, ex-meia-atacante que disputou as Copas de 1978 e 1982. Entretanto, os húngaros foram adversários muito mais duros que os alemães da etapa anterior. O primeiro jogo, no Bröndby Stadium, terminou com o placar um tanto enganoso de 3 a 0 para os donos da casa.

Os húngaros reclamaram muito da arbitragem do galês Keith Cooper, que no primeiro tempo marcou um pênalti num empurrão na área do Ferencváros após cobrança de escanteio. Christofte converteu abrindo o placar. Na etapa final, Limperger puxou a camisa de Erik Rasmussen, foi expulso e saiu gesticulando para a torcida. Depois, foi a vez de Szenes: amarelado no primeiro tempo ao reclamar da marcação do pênalti, acabou expulso ao dar uma banda em “Faxe” Jensen – mas logo depois de o juiz ignorar um toque de mão claro do dinamarquês.

Na cobrança dessa falta, Christofte levantou na área e Uche Okechukwu apareceu na segunda trave para escorar e ampliar. No último minuto, Vilfort apanhou a sobra de uma confusão na área e fuzilou o goleiro Miklós Jozsa com um chute no ângulo, fechando a contagem. Na volta, em Budapeste, no estádio Üllõi com portões fechados, o Bröndby levou um susto logo de saída, numa bola mal recuada por Lars Olsen para Schmeichel, que Uche evitou por pouco o gol contra. O capitão se redimiria minutos depois, ao fazer uma jogada espetacular, avançando, passando por três húngaros de uma só vez, indo à linha de fundo e rolando para o meio, onde Bent Christensen chegou para concluir e selar a classificação.

Nas oitavas de final, outra vez um clube alemão cruzaria o caminho do Bröndby. O Bayer Leverkusen, porém, não escaparia do mesmo destino do Eintracht Frankfurt na primeira fase. O primeiro jogo aconteceu na Dinamarca. Logo aos sete minutos, os donos da casa saíram na frente com Torben Frank. No segundo tempo, aos 15 minutos, Bent Christensen concluiria com oportunismo uma jogada aérea para ampliar. Cinco minutos depois, o mesmo Christensen puxou contra-ataque e saiu frente a frente com o goleiro Vollborn, que conseguiu desviar a trajetória da bola com um tapa. A finalização parou na trave, mas Torben Frank, atento, acompanhava a jogada e empurrou para as redes, fechando a vitória por 3 a 0.

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Na partida de volta, no Ulrich Haberland Stadion, nem mesmo os bons jogadores dos Aspirinas, como o lateral brasileiro Jorginho, o meia romeno Ioan Lupescu e a dupla de ataque vinda do antigo lado oriental formada por Ulf Kirsten e Andreas Thom, conseguiram ensaiar uma reação. O Bröndby segurou o 0 a 0 até o fim e avançou às quartas de final. Numa competição dominada pelos italianos – quatro dos oito quadrifinalistas (Atalanta, Bologna, Internazionale e Roma) vinham do rico e poderoso Calcio –, o Bröndby teve um tanto de sorte ao escapar de um deles naquela fase. O que não quer dizer que não tenha enfrentado dificuldades diante do soviético Torpedo Moscou.

Principalmente porque os russos, ainda que não contassem com elenco badalado, vinham derrubando algumas equipes bem cotadas. Após despacharem sem dificuldade os suecos do GAIS na primeira etapa, foram os carrascos do Sevilla que contava com o goleador austríaco Toni Polster e o meia uruguaio Pablo Bengoechea. E nas oitavas, haviam batido em casa e fora um Monaco que reunia um punhado respeitável de ótimos jogadores: o argentino Ramón Díaz, o liberiano George Weah, o português Rui Barros e franceses de seleção como Emmanuel Petit e Franck Sauzée.

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No dia 6 de março de 1991, a partida de ida na Dinamarca foi de intensa pressão do Bröndby, que sufocou o Torpedo, mas marcou apenas uma vez, aos 14 minutos da etapa final, num gol chorado de Jens Madsen, que gerou dúvidas sobre se a bola havia de fato ultrapassado a linha. Na volta, duas semanas depois em Moscou, os dinamarqueses seguraram o empate sem gols até a três minutos do fim do tempo normal. Mas não conseguiram evitar o chutaço de Oleg Shirinbekov, indefensável para Schmeichel. Sem mais gols na prorrogação, a decisão da vaga foi para os pênaltis.

Schmeichel teve sorte logo de início, quando a cobrança de Agashkov acertou a trave. Depois, quando Lars Olsen parou em Sarychev, o gigante arqueiro de Gladsaxe apareceu para defender a cobrança de Grishin, mantendo os auriazuis em vantagem. Na quinta cobrança, Christofte converteu sem problemas e selou o feito histórico do Bröndby: pela primeira vez (e até hoje a única) um clube da Dinamarca chegava a uma semifinal de copa europeia.

A batalha das semifinais

Havia, porém, uma pedreira aguardando pelo Bröndby na briga por uma vaga na final. A Roma não era mais um time que brigava pelo título da Serie A italiana, como havia sido em meados da década anterior. Mas ainda sim contava com grandes jogadores, nomes de peso daquela era de ouro do Calcio. O centro da equipe era o meia e capitão Giuseppe Giannini, titular da seleção. Com passagem pela Azzurra, havia também o lateral Sebastiano Nela, o meia Stefano Desideri e o atacante Ruggiero Rizzitelli (além do centroavante Andrea Carnevale, na época suspenso por doping).

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Os giallorossi contavam também com três bons jogadores preenchendo sua cota de três estrangeiros permitida na época: o zagueiro brasileiro Aldair e a experiente dupla alemã formada pelo defensor Thomas Berthold e o centroavante Rudi Völler, que vivia fase espetacular. Nos últimos cinco jogos pela copa europeia balançara as redes nada menos que nove vezes. Cartel ao time naquele torneio também não faltava. A equipe dirigida por Ottavio Bianchi (técnico do Napoli na conquista de seu primeiro scudetto em 1987) havia despachado pesos pesados durante todo o seu caminho: Benfica, Valencia, Bordeaux e Anderlecht foram eliminados sem dificuldade.

Mesmo sendo obrigado pelo sorteio a mais uma vez decidir a vaga como visitante, o Bröndby também tinha seus trunfos: não havia sofrido um gol sequer como mandante até então no torneio. E receberia os romanos em seu alçapão, depois que o Idraetsparken – o estádio nacional dinamarquês, que havia sediado as partidas em casa contra o Eintracht Frankfurt e o Bayer Leverkusen – entrou em reformas. Embora reconhecesse a dificuldade representada pelo adversário, nutria expectativas de obter um bom resultado no primeiro jogo para tentar administrar na volta, no Estádio Olímpico.

O resultado do primeiro jogo, entretanto, deixou um certo gosto de frustração. Com o time pouco inspirado no ataque e frequentemente encaixotado pelo forte sistema defensivo romano, o Bröndby parou pela primeira vez num empate em casa (assim como pela primeira vez não marcou jogando em seus domínios naquela campanha). Apesar do resultado, o técnico Morten Olsen – que naquela altura era fortemente cogitado para assumir a seleção dinamarquesa no lugar do criticado Richard Möller Nielsen – disse estar satisfeito com o rendimento de seus jogadores e mostrou otimismo diante da partida de volta.

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A metade inicial do primeiro tempo do jogo de volta foi bastante estudada, sem oportunidades claras para nenhumas as partes. Até a abertura do placar pelos donos da casa, aos 33 minutos. O chute de Nela, rasteiro, no canto, tinha endereço certo, mas Schmeichel foi buscar, espalmando para o lado. No entanto, Di Mauro conseguiu pegar a sobra chegando antes do goleiro e cruzou. Rizzitelli, sozinho, na pequena área, só escorou de cabeça, abrindo o placar e explodindo o estádio Olímpico. Os romanos ainda tiveram mais duas chances na primeira etapa numa finalização de Rudi Völler abafado pela zaga e num chute cruzado de Desideri defendido por Schmeichel.

Na volta do intervalo, o Bröndby testou o goleiro Cervone pela primeira vez com um chute de Christensen de fora da área. Do outro lado, uma cobrança de falta rolada para o tiro de Nela passou bem perto da trave de Schmeichel. Aos 16 minutos, outra cobrança de falta, desta vez pela ponta direita do ataque italiano. O meia Desideri cruzou alto, Brian Jensen cortou de cabeça e ainda chegou antes de Aldair na sobra para afastar. Acabou ligando um ótimo contra-ataque.

Pingel recebeu a bola e avançou em velocidade atravessando o meio-campo. Depois abriu mais adiante para a passagem do mesmo Brian Jensen, que cruzou para a área de pé trocado. Pressionado por Henrik Jensen, Antonio Comi tentou cortar, mas não viu o goleiro Cervone saindo. De carrinho, acabou metendo a bola na direção das próprias redes. Sebastiano Nela ainda tentou afastar quase em cima da linha, mas a bola bateu em sua perna e entrou. Diante de um Olímpico gelado, Bröndby exultava o empate que o colocaria numa inédita decisão da Copa da Uefa.

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A Roma tentava responder em cobranças de falta. Primeiro Desideri levantou a torcida em outra bola que passou perto. Depois foi Nela, numa bola rolada por Giannini que desviou na barreira e obrigou Schmeichel a fazer uma defesa espetacular. No lance seguinte, na cobrança do escanteio, Berthold cabeceou e Henrik Jensen salvou também de cabeça em cima da linha. Schmeichel ainda fez outra grande defesa aos pés de Völler após um cochilo da zaga. Com os giallorossi partindo para o abafa, o goleiro ainda defendeu uma finalização forte e rasteira de Rizzitelli após cobrança de escanteio.

A resistência do Bröndby, que àquela altura já ganhava ares de épico, ruiu aos 43 minutos. O lateral Pellegrini carregou a bola pelo campo de ataque e lançou para a área. Berthold escorou de cabeça e a zaga dinamarquesa afastou. O lance sobrou perto da meia-lua para Desideri, que encheu o pé. Schmeichel defendeu no susto, dando rebote. Völler, de pé esquerdo, fuzilou outra vez, e agora o gigantesco arqueiro não pôde fazer nada. Roma 2 a 1.

Logo depois o gol, enquanto o atacante alemão, cansado, era substituído pelo meia Gerolin, Morten Olsen ainda tentou uma última cartada colocando o nigeriano Friday Elahor no lugar de Henrik Jensen. Mas não havia mais tempo para um novo milagre. Mais experiente, a Roma passou a “picar” o jogo e segurar a posse de bola nos minutos finais, aproveitando-se também da falta de pernas das duas equipes. O Bröndby, no entanto, caía de pé, numa campanha que mereceu aplausos de todo o continente, expondo o potencial de recuperação que havia para o futebol de seu país, com seus talentos emergentes.

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A força daquela equipe seria demonstrada mais uma vez no ano seguinte: do time-base, nada menos que sete titulares (Schmeichel, Lars Olsen, Christofte, ‘Faxe’ Jensen, Vilfort, Torben Frank e Bent Christensen) integrariam a seleção dinamarquesa que conquistaria de maneira épica a Eurocopa – ainda que alguns nomes já não defendessem mais o Bröndby. Logo após a campanha continental histórica do clube, o goleiro seria negociado com o Manchester United, o capitão Lars Olsen sairia para o Trabzonspor e Bent Christensen seguiria para o Schalke. Torben Frank, por sua vez, trocaria de clube sem deixar o país, assinando com o Lyngby, pelo qual conquistaria a liga em 1992.

O sucesso dos auriazuis acordou outros clubes do país. Na temporada seguinte, o B 1903, de Copenhague, chegou perto de emular o feito do Bröndby na mesma Copa da Uefa: eliminou o Aberdeen na primeira fase, humilhou o poderoso Bayern de Munique com uma goleada de 6 a 2 na etapa seguinte, bateu o Trabzonspor nas oitavas de final e só parou nas quartas, diante do Torino de Lentini, Scifo e Casagrande. Ainda naquele mesmo ano de 1992, o B 1903 se fundiria com o KB, também de Copenhague, dando origem ao atual FC Copenhague, que pelas décadas seguintes se tornaria o principal adversário do Bröndby na disputa pela hegemonia do futebol dinamarquês.

Mais tarde, em 1994/95, seria a vez do OB, de Odense, também brilhar na mesma Copa da Uefa, chegando às quartas de final depois de deixar pelo caminho o Kaiserslautern e o Real Madrid de Michael Laudrup (batido por 2 a 0 dentro do Santiago Bernabéu após ter vencido por 3 a 2 na Dinamarca), antes de cair para o futuro campeão Parma, em dois jogos apertados. Recentemente, na temporada 2010/11, foi a vez do Copenhague obter seu melhor resultado, ultrapassando a fase de grupos da Liga dos Campeões e chegando às oitavas de final, quando caiu diante do Chelsea.

Após o auge, a queda súbita

Por ironia, o ano de 1992, que deveria ser o da afirmação definitiva do Bröndby como força no cenário continental, aproveitando o embalo da conquista da seleção, tomou um rumo completamente adverso e se tornou uma lembrança amarga. Tudo começou com um passo um tanto ousado do presidente Per Bjerregard no intuito de evitar que o clube se acomodasse no patamar de vendedor de talentos. Para manter a liquidez das receitas e diversificar a área de atuação dos auriazuis, o dirigente planejou a compra de uma instituição financeira, o Interbank.

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De acordo com o plano, o dinheiro para a aquisição viria do lucro obtido com a valorização das ações do Bröndby na medida em que o clube fosse vencendo e avançando na Liga dos Campeões. A seguradora Hafnia serviria de avalista, garantindo um aporte de cerca de 100 mil coroas dinamarquesas, caso ainda assim o valor arrecadado pelo clube não fosse o suficiente para efetuar a transação. Mas, numa sequência desastrosa, os auriazuis foram eliminados ainda na fase preliminar da competição pelo Dinamo Kiev e logo em seguida a Hafnia teve sua falência decretada. O clube, que havia fechado o ano de 1990 com um lucro de 8,5 milhões de coroas em caixa, deparava-se agora com um prejuízo de 400 milhões.

Sob ameaça de ter o mesmo destino da seguradora, o clube teve de aderir a um plano de salvação a médio prazo e não escapou de ter de negociar alguns de seus melhores jogadores (Christofte foi para o Colônia, enquanto ‘Faxe’ Jensen seguiu para o Arsenal). Com o elenco enfraquecido, teve de amargar um sétimo lugar entre oito clubes na segunda etapa (ou “campeonato da primavera”) da recém-instituída Superliga dinamarquesa em 1992. Em maio daquele ano, Morten Olsen seria demitido. Antes hegemônico, o clube teve que conviver com os adversários levantando a taça também nas três temporadas seguintes.

Dessa forma, embora tivesse se mantido como um participante frequente das copas europeias, o clube não voltaria a cumprir campanhas tão memoráveis. Seu feito de maior peso aconteceria em 1995/96, outra vez na Copa da Uefa, quando eliminaria o Liverpool vencendo em Anfield por 1 a 0 na segunda fase da competição – ironicamente, antes de cair novamente para a Roma na etapa seguinte. Merece destaque também uma virada incrível obtida na mesma competição, na temporada 1996/97, quando, depois de perder em casa por 3 a 1 para o Karlsruher, avançou ao aplicar uma goleada de 5 a 0 na Alemanha.

O clube voltou a reconquistar o título nacional na temporada 1995/96, iniciando um tricampeonato com os títulos de 1996/97 e 1997/98. O prenúncio de uma nova hegemonia, entretanto, não foi muito adiante. De lá para cá, os auriazuis venceriam apenas as edições de 2001/02 e 2004/05, mergulhando em nova crise a partir de 2006. E ainda presenciariam, na virada do milênio, a ascensão do Copenhague tomando seu lugar como principal força do país. De 2001 para cá, os Leões levantaram a taça nada menos que 11 vezes em 17 temporadas, enquanto o Bröndby hoje tenta recuperar seu tempo de glórias.

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.