Destaque do Torino na temporada passada, o lateral brasileiro Bruno Peres se transferiu para a Roma este ano e vive a sua primeira temporada na capital italiana. O jogador se tornou rapidamente titular do clube giallorossi, atuando tanto pela lateral direita quanto pela esquerda quando necessário. O jogador falou com exclusividade à Trivela sobre o início de carreira, a passagem pelo Torino e na Roma, a disputa do título com a Juventus e seleção brasileira.

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Confira a conversa com Bruno Peres:

Trivela: Você é fruto das categorias de base do Audax. Como era a base por lá?

Bruno Peres: Eu tive o privilégio de entrar no Pão de Açúcar (nome anterior do time, antes de se tornar Audax) quando eu era juvenil, fiz toda a base ali, juniores. Me profissionalizei, aprendi muita coisa ao longo do tempo que estive lá.

Trivela: Você imaginou que o time chegaria à primeira divisão e ficaria tão perto do título?

Bruno Peres: A gente não imaginava que chegaria tão forte assim, mas sempre tivemos uma base que seria um grande clube um dia. Sempre formou muitos jogadores, sempre revelou muitos jogadores para outros times. Eu esperava que se tonasse um grande time. Acabou jogando a final do paulista. Ficamos felizes por ter amigos e ex-companheiros que fizeram história e marcaram seu nome no clube.

Trivela: Ainda falando de times que você jogou, o Guarani, onde você jogou em 2011, fez uma das maiores viradas de todos os tempos na Série C. Perdeu por 4 a 0 do ABC de Natal e fez 6 a 0 jogando no Brinco de Ouro. O time vai voltar à Série B em 2017. O que você guarda de lembrança do Guarani?

Bruno Peres: O Guarani é um clube pelo qual tenho muito carinho. A gente sofreu bastante com as dificuldades na época que eu joguei por lá. Eu acompanhei a virada histórica, foi incrível, tem que parabenizar os jogadores, a comissão técnica que está lá. Eles entraram para a história. Eu estava conversando com o Amoroso, que é meu amigo, sobre isso. Nós torcemos muito, é um clube que eu tenho um carinho muito grande. Estava de longe acompanhando e torcendo pelo Bugrão.

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Trivela: O futebol italiano é muito conhecido por formar grandes defensores. Recentemente, Marcos Alonso, ex-Fiorentina e atual Chelsea, disse que o Campeonato Italiano era como uma universidade para os defensores. Você concorda com isso?

Bruno Peres: A característica de jogo do Italiano é defensiva. Então, quando você chega na Itália, acaba aprendendo algumas coisas, a marcar, a jogar taticamente, que defensivamente você também é importante. Realmente é uma universidade, que você tem que se dedicar e tentar assimilar tudo isso que eles passam. Os italianos defensivamente sabem muito, então creio que para nós é muito bom para aprendermos com eles que são inteligentes.

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Trivela: O Torino é um clube muito tradicional e com uma torcida muito apaixonada. Como foi para você jogar no clube e ainda marcar o gol da vitória em um clássico com a Juventus?

Bruno Peres: Esse tem um lugarzinho reservado no meu coração. É uma torcida que procura estar apoiando o time sempre. Foi um lugar que fui muito bem recebido, me trataram muito bem desde que eu cheguei por lá. Aquele gol no dérbi foi um marco pra mim. Foi um divisor de águas para muitas coisas boas que aconteceram na minha vida. Foi algo que me marcou positivamente. Fazia 12 anos que o time não fazia um gol sequer no dérbi e eu tive o privilégio de fazer um belo gol, que além de nos dar a vitória, marcou o meu nome na história do clássico.

Trivela: Você trabalhou com Giampiero Ventura no Torino e ele agora dirige a seleção italiana. Como você descreveria o trabalho dele como técnico? O que podemos esperar dele na Itália?

Bruno Peres: Foi um treinador que me ensinou muitas coisas. É um dos treinadores que me fez entender o futebol, o que é a tática, o que é ser importante defensivamente. Foi um dos treinadores que me fez crescer na parte defensiva. Nunca fui um jogador de marcação e ele me ajudou a melhorar na parte defensiva. Me fez ver algumas coisas que eu ainda não tinha visto na parte defensiva. Ele tem muito a dar à seleção italiana, ele é muito inteligente e acho que tem muito a oferecer à seleção italiana.

Trivela: Você morou em Turim e agora está em Roma. Como é morar na cidade? O que você mais gosta?

Bruno Peres: É uma loucura. Tá parecendo São Paulo, trânsito, loucura. Saí de uma cidade que era uma tranquilidade e vim pra uma cidade que é doida (risos). É uma cidade muito particular, muito bonita, turística. À parte a loucura, eu estou gostando muito de estar aqui, é uma cidade muito bacana, você come muito bem, é histórica. Eu estou gostando e aproveitando muito bem. Estou me adaptando com a correria daqui, estava mais acostumado à tranquilidade de Turim, mas estou gostando bastante.

Trivela: A Roma tem uma grande tradição de jogadores brasileiros. Como é por aí? Os brasileiros e os sul-americanos ficam juntos, até por proximidade cultural?

Bruno Peres: No Torino, a gente tinha um grupo que a gente chamava de “os traíras”, que ficavam os sul-americanos de um lado e os italianos de outro (risos). Aqui na Roma não tem isso, não tem divisão. O ambiente aqui é muito bom, o grupo é muito bom. Quando cheguei, fiquei positivamente surpreso com isso. Claro que falamos entre sul-americanos, mas não existe muita divisão. O ambiente aqui é muito bom.

Trivela: Na Roma você tem jogado também na lateral esquerda. Já tinha atuado assim antes? Como tem sido essa experiência?

Bruno Peres: Pra mim não tem diferença, no Torino algumas partidas eu também joguei como lateral esquerdo. Nos primeiros jogos na Roma, fui lateral direito, depois comecei a jogar na esquerda, e agora voltei a jogar na direita. Não tem nenhum problema, jogo onde o técnico me pedir. Não tem dificuldade para atuar em nenhum dos dois lados.

Trivela: Luciano Spalletti é considerado um técnico de muita personalidade e é muito respeitado na Itália. Como é trabalhar com ele?

Bruno Peres: Eu tenho aprendido muitas coisas. Ele também foi treinado pelo Ventura, aprendeu muita coisa com ele, é um treinador muito inteligente. Costuma dar duas ou três opções de forma de jogar, o que nos ajuda muito. Ele tem me dado muita moral, me ensinado muitas coisas. É um treinador que tem sido um dos mais importantes da minha carreira.

Trivela: A Roma novamente está muito bem e brigando pelo título. Dá para acabar com a hegemonia da Juventus e desta vez ficar com o scudetto?

Bruno Peres: A Juventus sempre tem um grande time, é sempre difícil concorrer com eles, mas nós temos um grande time, um grande elenco. Podemos brigar pelo título, não vai ser fácil, mas podemos pensar nisso e brigar ponto a ponto com a Juventus. Nós acreditamos que dá para conquistar o título e vamos buscar isso.

Trivela: Daniel Alves, que hoje joga na Itália como você, hoje é titular da seleção, e tem 33 anos. Você pensa em Seleção? Alguém da comissão técnica já falou com você?

Bruno Peres: O Daniel Alves sempre vai ser um ídolo, não só pra mim, mas para o torcedor. Quero eu quando chegar aos 33 anos estar voando como ele! (risos) Ele ainda tem muito o que passar. Eu quero estar com ele ali para aprender, ele tem muita experiência para passar. Eu quero chegar lá, construir a minha história. O importante é continuar bem aqui na Roma e a Seleção será uma consequência.

Trivela: Um ídolo do futebol brasileiro que atuava na sua posição, Carlos Alberto Torres, morreu nesta terça-feira. O que dá para falar sobre o Capita?

Bruno Peres: Não tive o privilégio de vê-lo jogar, só por fita, mas para nós é uma tristeza. Um grande homem, grande pessoa, grande jogador. Nos ensinou muitas coisas nessa posição. A gente fica triste por uma perda de uma pessoa que era tão importante não só para os brasileiros, mas para o mundo inteiro. Os italianos também comentaram dessa morte, conhecem quem ele é, sabem da importância dele como jogador e como pessoa. Mas ele será eterno nas lembranças que deixou e na história que construiu.