Buffon teve uma despedida à altura da sua lenda: gigante e emocionante

Acabou. Foram 17 anos da mais pura lealdade, da maior excelência que a maioria de nós viu para a posição. Tantas vezes campeão, Gianluigi Buffon deu adeus à Juventus, neste sábado, na vitória por 2 a 1 sobre o Verona, última rodada do Campeonato Italiano que o goleiro mais uma vez ajudou a Velha Senhora a conquistar. Entre rumores sobre os próximos passos da sua carreira, Gigi teve uma despedida à altura da sua lenda: gigante. 

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O problema de um goleiro se despedir contra o Verona, vice-lanterna, um dos piores ataques da Serie A com 30 gols em 38 rodadas, é que, em campo, ele se torna um coadjuvante da própria festa. Ainda em termos metafóricos, convidou o pessoal para o seu apartamento e ficou no quarto o tempo inteiro, com uma única aparição, no primeiro tempo, para defender um chute de Mohamed Fares. 

No começo do segundo tempo, a Juventus tratou de garantir que a despedida de Buffon acontecesse com mais uma vitória, como ele está acostumado. Rugani pegou o rebote do goleiro para fazer 1 a 0, e Pjanic, em ótima cobrança de falta, ampliou para 2 a 0. Por volta dos 15 minutos, a apoteose. A entrada triunfal. Ou, no caso, saída. 

Allegri ordenou a substituição, e a plaquinha eletrônica ergueu o número 1. O Allianz Stadium inteiro começou a aplaudir. O primeiro que Buffon abraçou foi Barzagli, um dos companheiros mais antigos entre os que estavam em campo. Passou os braços jogador por jogador, inclusive em alguns do Verona, como Rômulo. 

Entregou a braçadeira de capitão para Marchisio. Mas não a que usava no braço. Essa vai para o seu museu pessoal. Retirou outra do uniforme para o amigo. Em seu lugar, entrou Carlo Pinsoglio, prata da casa. Enquanto diversas faces da arquibancada choravam copiosamente, inclusive integrantes da família Buffon, Gianluigi passou pela guarda da honra montada pelos seus colegas de clube, cumprimentando um a um e se sentou no banco de reservas. 

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As câmeras flagraram um momento de pura introspecção. Com as costas repousadas na cadeira, o rosto molhado por suor e lágrimas, Buffon fechou os olhos, inclinou a cabeça e simplesmente absorveu o momento por alguns minutos. Ouviu os gritos em sua homenagem, tentou registrar o barulho característico da torcida que ama, uma última vez para nunca se esquecer. E pensou no amanhã, o primeiro dia desde 2001 em que não terá um jogo ou uma temporada para se preparar a serviço da Juventus. 

De repente, Buffon abandonou o banco de reservas e entrou no vestiário. Trocou de roupa, deve ter tomado uma chuveirada e voltou ao gramado para uma volta olímpica pessoal. Rodou a arquibancada para abraçar, beijar e cumprimentar todos os afortunados que estavam na primeira fila. Um por um, sem pressa, ouvindo juras de amor e de gratidão. Recebeu cachecóis e foi tocado como se fosse uma entidade divina, o que de fato é para aquela torcida. 

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Daquelas ironias que apenas o futebol é capaz, Cerci descontou para o Verona, sem precisar vazar Buffon, e a Juventus teve um pênalti bem discutível a seu favor nos minutos finais. Seria a chance de Buffon tornar a festa mais especial, mas ele já estava fora de campo. Quem bateu foi Lichtsteiner, outro que deve estar se despedindo, ao fim do seu contrato. O suíço, que está no clube desde 2011, cobrou baixo, no canto esquerdo, e Nicolas conseguiu fazer a defesa. A partida terminou 3 a 1 para a campeã Juventus, resultado sem efeitos práticos para a tabela. Mas a festa ainda não havia terminado. 

A entrega das medalhas para os campeões italianos foi preparada no centro do gramado. Um a um, os jogadores foram anunciados pelo locutor e celebrados pela torcida. Juntaram-se a seus familiares,  receberam a medalha e esperaram. O convidado de honra obviamente seria o último. “Um dos maiores jogadores do Calcio. 656 jogos de bianconeri. Maior campeão da Serie A. O número 1: Gianluigi Buffon”.

Buffon, então, entrou em campo, acompanhado dos filhos. Recebeu a sua medalha e tomou o lugar no topo do pódio. Levantou a taça sobre a cabeça. Seu último ato como jogador da Juventus. Deu mais uma volta olímpica, entregando recordações aos torcedores. Luvas e braçadeiras de capitão. Acenou para os seus pares, ciente de que a história que começou 17 anos atrás, com pontos altos e baixos, vitórias e decepções, havia chegado ao fim.