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A Bundesliga é um mero monopólio do Bayern? Pois este panorama tende a mudar em breve

Pela primeira vez em sua história, a Alemanha classificou quatro representantes para as oitavas de final da Liga dos Campeões. Dois deles, cumpriram o favoritismo. O Bayern de Munique atropelou o Arsenal, enquanto o Borussia Dortmund precisou de cinco minutos para acabar com o Zenit. Enquanto isso, os outros dois foram massacrados. O Bayer Leverkusen mal viu a cor da bola contra o Paris Saint-Germain. E o Schalke 04 acabou devorado pelo Real Madrid. Apenas três dias depois de também ser degustado pelo próprio Bayern no Campeonato Alemão. Um líder que já abriu 20 pontos de vantagem, com 21 vitórias em 23 rodadas.

As discrepâncias são evidentes, tanto no cenário nacional quanto no continental. O título da Bundesliga é disputado apenas por um time há duas temporadas. Ao mesmo tempo, os vexames das forças secundárias na Champions não são novidade – ou mesmo de uma potência como o Dortmund, que foi lanterna de seu grupo em 2011/12. Os clubes alemães têm atraído mais atenção desde o ano passado, especialmente depois do que fizeram contra Barcelona e Real Madrid nas semifinais da LC. E eis que surge a grande dúvida: até que ponto vale a pena prestar atenção em um campeonato aparentemente sem competitividade?

De fato, o problema parece difícil de remediar nesta temporada. Não bastassem todos os recordes que quebrou ao longo dos últimos meses, o Bayern parece disposto a superar mais marcas. Nem para que isso tenha convencer os craques dos rivais a vestirem suas cores. Desamparado, o Dortmund se agarra na oportunidade que ainda tem na Liga dos Campeões. Confia em um trabalho que consegue garimpar tantos bons jogadores à medida que perde. E, de resto, a Bundesliga parece limitada a interesses menores. Se alguém terá fôlego para atrapalhar Bayer Leverkusen e Schalke 04 na disputa das últimas vagas na Champions 2014/15. Ou se algum gigante será rebaixado, como Hamburgo, Stuttgart ou Werder Bremen.

A televisão é a solução

Entretanto, por mais que os próximos meses sejam sem tantas emoções, as perspectivas são boas para os próximos anos. Ou melhor, excelentes. Desde o início desta temporada, o acordo pela transmissão televisiva na Alemanha, com a Sky Deutschland, passou a despejar € 500 milhões por ano na Bundesliga. Um valor que crescerá muito mais a partir de 2015/16, quando entrará em vigor o acerto com a 21st Century Fox pela exclusividade dos direitos de TV para as Américas, a maior parte da Ásia e alguns países europeus. Os valores não foram divulgados, mas as expectativas são de que só fiquem atrás da Premier League, que lucra € 1,2 bilhão por ano com as transmissões internacionais até 2016.

E esses acordos não significam apenas  dinheiro injetado diretamente pela televisão. Também garantem uma expansão de mercado e visibilidade para os clubes alemães. Com a divisão praticamente igualitária dos lucros com direitos de transmissão na Alemanha, o abismo para o Bayern não sofreria grandes alterações. Se os bávaros são tão poderosos, é por causa de seus acordos comerciais – em 2012/13, o clube recebeu € 237,1 milhões de seus patrocinadores, mais do que qualquer outra equipe do mundo e € 128,1 milhões a mais que o Dortmund, segundo no quesito entre os compatriotas.

Essa supremacia comercial do Bayern é explicada pela popularidade do clube dentro da Alemanha, economia mais forte da Europa. Não à toa, parte das ações do clube é compartilhada por Adidas, Audi e Allianz, entre as maiores empresas do país. Transmitir a Bundesliga para mais países significa expandir o mercado. E captar mais acordos comerciais também para os outros clubes alemães.

Como isso tudo se reflete no futebol?

É difícil imaginar que o Bayern de Munique consiga se fortalecer ainda mais. A não ser que contrate Messi ou Cristiano Ronaldo, a atual fase dos bávaros já sugere o ápice. Pep Guardiola conta com o melhor elenco do mundo e parece até saturado à medida que o clube contrata ainda mais reforços. Em compensação, a injeção de dinheiro permite que as outras equipes da Bundesliga possam evoluir.

O modelo de gestão rígido proposto pelo futebol alemão não dá brechas a extravagâncias. Nenhum clube pode ter mais do que 50% de suas ações nas mãos de uma só pessoa. Isso garante uma administração muito mais consciente, a partir dos sócios. Mas também afasta magnatas estrangeiros que queiram despejar milhões na construção de esquadrões – os poucos exemplos de clubes de magnatas na Alemanha são impulsionados por empresas do próprio país, como a Volkswagen (Wolfsburg) e a SAP (Hoffenheim). Com mais dinheiro dos acordos televisivos e comerciais, os times alemães têm muito mais condições de disputar estrelas com ingleses, italianos, espanhóis ou franceses.

É claro, isso não significa que a Alemanha passará por uma invasão de forasteiros nos próximos anos. Se a Bundesliga revelou tantos talentos nos últimos anos, é justamente graças ao excelente sistema de formação de jogadores nas divisões de base e de observação em mercados periféricos. O que dá para esperar é que times grandes e médios tenham mais condições de contratar craques estrangeiros para complementarem seus elencos – como já fazem Bayern e Dortmund, mantendo a base alemã. Afinal, das sete transações internacionais mais caras da história da Bundesliga, cinco foram dos bávaros e as outras duas dos aurinegros.

As consequências se toda essa dinâmica se cumprir mesmo? Uma Bundesliga sem abismo entre o Bayern de Munique e o restante dos adversários, assim como mais competitividade para os outros times nas copas europeias. Ao que parece, a roda da fortuna apenas começou a girar para os alemães, por mais que a austeridade econômica permaneça. E as impressões de uma liga fraca, como as que vieram à tona nos últimos dias, não deverão se repetir.

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A partir desta semana, faço jus aos meus antepassados e assumo a coluna de Alemanha. A missão de substituir o amigo Pedro Venancio, titular desse espaço nos últimos anos, é duríssima. Mas prometo manter o bom nível dos textos e das discussões. Até a próxima!