Em sua entrevista coletiva de apresentação no Zenit, André Villas-Boas mostrou que pode até ter perdido sua oportunidade de causar um impacto na Premier League, mas que sua autoestima seguiu intacta após os fracassos na Inglaterra. Falando sobre seu trabalhos anteriores, o português não só se julgou vitorioso como também reivindicou crédito pela conquista do Chelsea na Liga dos Campeões em 2012. Sim, você leu certo: ele está dizendo que tem participação no título na temporada que acabou demitido.

Em ordem cronológica, o técnico, com justiça, falou do ótimo trabalho que fez em seu país-natal, com Acadêmica e Porto. No comando do primeiro, uma equipe modesta, chegou à semifinal da Copa da Liga, já no segundo, venceu quatro títulos em uma temporada, incluindo a Liga Europa e o Campeonato Português. Ou seja, de fato, até esse ponto, teve mesmo sucesso. O problema é quando se olha para sua carreira a partir da mudança para a Inglaterra.

Vamos inverter a ordem dos acontecimentos aqui e relembrar a passagem do técnico pelo Tottenham. Em sua visão, foi altamente positiva, já que “conseguiu um número recorde de pontos pelo clube”. De fato, conseguiu, mas os 72 pontos em 2012/13 sequer levaram o time para a Champions League. Além disso, para o início da temporada 2013/14, teve toda a sorte de jogadores contratados com o dinheiro da venda de Gareth Bale. Teve tempo para formar o melhor time possível com as ótimas peças que havia recebido, mas nada surgiu disso. Em vez de sucesso, acumulou partidas ruins com um ataque inefetivo e viu o interino Tim Sherwood fazer a equipe reagir imediatamente após sua demissão. Sem falar que não aceitava críticas, como no episódio em que fez um torcedor adversário ser expulso do White Hart Lane por fazer gozações à sua custa.

Voltemos ao lado azul de Londres. AVB chegou ao Chelsea cotado como o novo José Mourinho, mas sua passagem não poderia ter sido mais desastrada. Nunca conseguiu controlar efetivamente o vestiário, e os jogadores não tinham confiança em seus métodos. Acabou demitido após uma derrota na liga inglesa que deixou os Blues a três pontos do quarto colocado, e na Champions a situação era preocupante: nas oitavas-de-final, o time havia perdido o jogo de ida para o Napoli por 3 a 1, no San Paolo.

Roberto Di Matteo assumiu interinamente, fez o time reagir, conseguiu um triunfo por 4 a 1 na volta contra os italianos e acabou por levar o clube à sua primeira conquista de Liga dos Campeões na história – a primeira de qualquer londrino, por sinal. Aí vem Villas-Boas afirmando que “os jogadores têm de levar crédito, mas fui eu quem construí o time”? A história da conquista do Chelsea mostra que a equipe venceu a competição apesar de o português ter iniciado os trabalhos, e não porque ele o fez. Competência e autoestima parece serem duas grandezas inversamente proporcionais na vida do técnico.