Liverpool_Luis Suarez

Cada vez é mais difícil ter uma opinião pronta sobre Luis Suárez

Não há jogador mais polêmico no futebol mundial que Luis Suárez. A cada semana o uruguaio consolida essa posição com o contraste entre suas atitudes positivas e negativas. Quanto mais ele decide, mais ele incomoda seus críticos. E quanto mais ele é protagonista, maior o risco de tomar uma atitude bastante condenável e deixar seus defensores em situação delicada. Seu yin é tão distante do yang que é muito difícil ter uma opinião pronta, como se o atacante do Liverpool fosse um personagem de caracterização fácil.

Outros craques polêmicos transitam no mundo da galhofa, do besteirol. Um torcedor pode ter birra com Cristiano Ronaldo, mas não dá para ter ódio de um jogador apenas porque ele se olha no telão durante o jogo e usa gel no cabelo. Há muitos que criticam Ibrahimovic, mas  acham que o sueco some nos momentos decisivos e fala um pouco além da conta, mas fica nisso.

Suárez vai um passo além. Do lado positivo, é o jogador que comanda uma seleção que todo amante de futebol simpatiza, ajudando a recolocá-la entre as grandes do mundo. Também é o craque que desequilibra na ótima campanha de um Liverpool que volta a brigar pelo título com um estilo ofensivo, rápido e atraente, e sem o nível de investimento de quem tem algum mecenas do Oriente Médio ou da ex-União Soviética. O modo passional do atacante se portar em campo também ajuda a atrair seguidores.

Mas o lado negativo é muito pior do que vaidade ou língua solta. Suárez já foi condenado por ofensas racistas em campo. Já foi suspenso por morder um adversário no meio de uma partida. E ainda é tido como sujo e antiético por usar as mãos para defender uma bola em cima da linha e evitar o gol da vitória – e classificação – de Gana nas quartas de final da Copa 2010.

A última semana foi boa para Suárez. Na onda de sua arrancada espetacular com o Liverpool, ele foi tratado como o melhor jogador do mundo pelo seu técnico, apareceu em um vídeo para lá de simpático tomando chimarrão e falando de sua família com um mini-torcedor dos Reds (veja abaixo) e foi tema de uma reportagem da Sports Illustrated que menciona a tese de que há uma dose de mal-entendido cultural na interpretação da palavra “negro” que o uruguaio usou para xingar Evra em 2011.

Mas é simples assim? Com base nisso é possível absolvê-lo? É bastante defensável a tese de que colocar a mão na bola em cima da linha faz parte do jogo, até porque ele foi punido como prevê a regra (cartão vermelho) pela falta. Em nenhum lugar da América do Sul o que Suárez fez contra Gana é considerado anti-jogo. Mas morder o marcador passa do limite, pois denota uma falta de controle psicológico para lidar com o calor de uma partida. E, claro, não dá para aceitar passivamente que se referir à raça do adversário é algo comum, parte do jogo, por mais que “negro” no espanhol tenha conotação bem menos pesada que “nigger” em inglês (obs.: a discussão entre Suárez e Evra se deu em espanhol).

Por isso o atacante uruguaio é tão polêmico. Não dá para tratar como piada seu lado negativo, e seu crescimento técnico também não pode ser ignorado. Ele não é um craque com alguns pontos negativos, tampouco um canalha futebolisticamente irrelevante. É um personagem complexo.