Quantas vezes já falamos que os clubes precisam fazer valer sua importância e exigir mudanças? Um calendário mais adequado, com menos partida e sem jogar nas datas Fifa, por exemplo. Mas isso é algo que os clubes não parecem se importar muito e, mais do que isso, deixam que a CBF tome as decisões por eles. Na última semana, a entidade reuniu as 27 federações e aprovou uma medida que é um golpe forte nos clubes. E decidiu isso sem os clubes presentes. A CBF tirou o poder de decisão dos clubes nas eleições da entidade e, além disso, manteve uma forte clásula de barreira para impedir que candidatos de oposição se elejam.

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A CBF driblou a lei. A Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, lei 13.155, entrou em vigor no dia 4 de agosto de 2015. A CBF demorou a se adequar a ela. Os clubes não reclamaram. Um dos pontos é que os clubes precisam participar das decisões da entidade, da sua eleição. Assim foi feito: os clubes da Série A e B foram incluídos no processo eleitoral (40, portanto), o que os tornou maioria frente às federações (que são 27). Só uma eleição contou com esse formato e mostrou como os clubes são subservientes: quando Marco Pólo Del Nero se afastou do cargo temporariamente, foi eleito o Coronel Nunes para substituí-lo, por ser o mais velho. Clubes poderiam ter elegido outro. Não quiseram. Clubes paulistas justificaram dizendo que Coronel Nunes “tem capacidade”, nas palavras do então presidente do Palmeiras, Paulo Nobre (e com apoio de todos os demais clubes paulistas, aliás).

Mas essa situação durou pouco tempo. Com o novo estatuto aprovado no dia 23, última quinta-feira, tira o poder dos clubes e dá todo ele nas mãos das federações, mais uma vez. A CBF fez isso dando peso 3 para os votos das federações. Os seja, as 27 federações passaram a ter, na prática, 81 votos. Um voto da Federação Paulista, por exemplo, vale mais que qualquer um dos seus clubes. Os clubes da Série A passaram a ter peso 2, totalizando 40. Por fim, os da Série B têm voto peso 1, ou seja, no total, 20.

Na prática, a CBF voltou a fazer com que as federações sejam absolutas nas decisões sobre quem dirige a entidade. E como a entidade dá mesadas bastante polpudas para as federações, se cria uma relação próxima que basicamente acaba com a chance de qualquer mudança significativa. “Algo deve mudar para que tudo continue como está”, diz a frase atribuída a Maquiavel e que parece perfeitamente adequada a esta situação.

Só que vai além disso. A cláusula de barreira foi mantida. Para alguém se candidatar a presidente da CBF, precisará do apoio formal de ao menos oito federações e cinco clubes. Ou seja: é praticamente impossível que um opositor de fora do círculo das federações seja candidato. Uma manobra antidemocrática e que é um drible na lei que obriga os clubes a fazerem parte do processo eleitoral. Até porque a CBF tornou a participação dos clubes um mero acessório. Nem somados os clubes das Série A e B conseguem ser maioria diante das federações.

Não para o secretário-geral da CBF, Walter Feldman. Para ele, as mudanças tornam as eleições na entidade “mais democráticas”. Como? Bom, ele fez uso do seu tempo como político para entortar a retórica até que ela pareça que faz sentido. Em entrevista ao blog Bastidores, do Globoesporte.com, ele deu a seguinte declaração: “O Brasil tem 1.117 clubes, 700 deles profissionais. E eles são representados pelas federações. Dar mais peso para os clubes das Séries A e B seria um passo na direção da elitização”. Não é piada. Ele disse isso mesmo. Diria um ex-colega de Feldman em antigos horários políticos: peroba neles!

Tem mais: também para se adequar à lei, a CBF impôs um limite de mandato, quatro anos, e com direito só a uma reeleição. Só que aqui entra outra manobra: isso só valerá a partir da próxima eleição. Ou seja: Marco Pólo Del Nero poderá se candidatar em 2019, mesmo já sendo presidente, e ainda terá direito a uma reeleição, em 2023, permanecendo na entidade até 2027. Sim, mais 10 anos. Você ouviu algum clube reclamar desde quinta-feira? Só vejo bolas de feno. Silêncio.

O ponto aqui é: os clubes não parecem estar nem aí. É um tapa na cara dos clubes, que parece que não só permitem, como pedem mais. A preocupação que vemos é de torcedores, dos comentaristas em veículos de imprensa, mas não nos clubes. Não parece haver qualquer preocupação em não ter peso para escolher o presidente da federação que comanda o futebol brasileiro e organiza as principais competições do país, como Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil. É também a CBF que pode mudar alguma coisa em relação às federações. Os estaduais, máquinas de fazerem dinheiro para as federações (nem sempre para os clubes), seguem firmes e fortes. Não há preocupação com melhorar os gramados, a arbitragem, melhorar formação, com melhorar o futebol brasileiro como um todo. E os clubes calados.

Falar em liga parece hoje uma utopia. Os clubes sequer se mobilizam para manterem o poder que têm direito. Veem a CBF dar um drible na lei que obriga a participação dos clubes. Seguem vendo a CBF e as federações marcarem jogos (e clássicos!) para datas Fifa. E parece que tudo bem. Continuam jogando futebol em horários esdrúxulos, como esse das 21h45, ou mesmo às 17h de um dia de semana, como o Corinthians jogou para não concorrer com o jogo do Brasil (que, justamente por ter jogo do Brasil, não deveria haver futebol).

Enquanto isso, a TV continua fazendo o que quer, porque, afinal, paga um valor alto (e cada vez mais alto) para transmitir os campeonatos e, como os clubes são frágeis, se curvam a todas as vontades da emissora. Assim, vemos jogo da Seleção na terça-feira (como teremos neste dia 28 de março) e na quarta também teremos futebol, desta vez dos clubes (ainda sem poder escalar os jogadores que estão com suas seleções). Os jogos seguem em horários que a TV define ao seu bel prazer (e pode fazer isso, cabe aos clubes negociar para não ficarem à mercê da televisão).

Os clubes seguem jogando clássicos em datas Fifa, sem seus principais jogadores. Seguem com um calendário inchado, com um campeonato com problemas de organização. Mas, no fim, os clubes só querem saber da sua cota de TV, encherem os bolsos e, inclusive, dão todo poder às emissoras que detém os direitos das competições a fazer tudo que quiserem. Querem matar um ao outro, esquecendo – ou ignorando, o que é mais grave – que todos fazem parte de um mesmo campeonato, que deveriam defender interesses em comum, que são quem tem mesmo o poder. Mas, ao contrário, atacam uns aos outros, fazendo o jogo da CBF para desunir os clubes.

No fim, os clubes têm a CBF que merecem.

A coluna Brasil é publicada às segundas.