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[Camisa 9 do Brasil] Como a base ajuda a entender a carência de centroavantes

Muitas promessas, pouca realidade. As seleções de base não deixaram de apresentar camisas 9 talentosos nos últimos anos. Ainda assim, a falta de opções na seleção principal é evidente. E a dor de cabeça não se limita a Felipão. Muitos clubes brasileiros têm dificuldades em encontrar o centroavante capacitado, aquele homem de referência que tome conte da grande área. É uma carência nacional. Onde está o problema então? Se muitos bradam que o Brasil é uma fonte inesgotável de talento, então há uma deficiência na formação desses prodígios?

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Não é bem assim. A questão é muito mais complexa do que apenas apontar a culpa para o trabalho realizado nas categorias de base brasileiras. “Há uma lacuna entre gerações. Vários jogadores poderiam ter despontado e não aconteceu. Não tem uma resposta geral. A falta de um homem fixo vai muito do perfil da geração. Acaba dependendo muito do que o treinador quer. Os times de baixo acabam sendo um reflexo do que se pede em cima”, diz Bruno Costa, observador técnico da CBF.

Essa carência envolve também uma série de fatores, que incluem os treinos, a tática, a preparação psicológica e mesmo a mentalidade dos clubes na formação. A resposta definitiva, aliás, não existe.  De qualquer forma, esses vários aspectos ajudam pelo menos a visualizar as raízes dessa carência. E mostram o caminho para as mudanças no futuro.

Cravar que o Brasil padecerá sem centroavantes de alto nível, aliás, é o primeiro erro. “É um ciclo. O Brasil continua sendo o maior formador de jogadores, mas um problema específico como esse de centroavantes acontece com todos os países, em diferentes posições – por exemplo, a falta de zagueiros na Argentina, de atacantes na Itália. E isso acaba ficando ainda mais nítido na época da Copa, quando a demanda é maior”, pondera Ney Franco, atual técnico do Vitória e ex-coordenador das seleções de base. “O Brasil tem vários centroavantes de qualidade, o que acontece é que a maioria não passa por um bom momento. O Fred, sem problemas físicos, é praticamente unânime”.

A chave está na formação tática

Esses ciclos, porém, não são apenas obras do acaso. É claro, existem alguns pontos que os influenciam. E talvez o mais marcante esteja na mentalidade tática dos clubes da base. Durante a década de 1990, muitos times passaram a trabalhar com três zagueiros. A consequência? Pouquíssimos laterais que se adaptassem também às funções defensivas e muitos alas que acabaram se tornando meias como profissionais. Com os centroavantes, acontece algo parecido.

O perfil que se pede hoje nos clubes é diferente do que se fazia há um tempo na base. “Antes se trabalhava com dois homens de frente, que tinham outro estilo, dividiam o campo. Isso prejudicava quem tinha características mais específicas para jogar pelas pontas ou na área”, pondera Ney Franco. Muitos dos garotos formados nesse período não foram preparados para atuar no 4-2-3-1 ou no 4-3-3. E isso explica a dificuldade que eles acabam tendo para cumprir as promessas feitas na base, desempenhar esse papel de referência única no ataque.

Willian José e Henrique, centroavantes de Ney Franco no sub-20 em 2011

Willian José e Henrique, centroavantes de Ney Franco no sub-20 em 2011

“De uns tempos pra cá, virou moda contar com o centroavante de área, até pelas mudanças táticas, o que não era regra há um tempo atrás. A demanda maior precisa fazer o clube se mexer, rever seus conceitos na base”, pontua Emerson Ávila, técnico da seleção sub-17 no Mundial de 2011 e que também trabalhou nas bases de Cruzeiro e Corinthians. Ney Franco complementa essa visão: “Quando eu estava na seleção, me marcou o fato de que vários clubes passaram a se armar no 4-2-3-1, dando ênfase a jogadores de beirada de campo e de referência. Automaticamente, atacantes com essas características começam a se formar. É uma grande mudança de perfil, que vai ser sentida pelas equipes principais no futuro”.

Mas não é só a disposição tática do time que garante a formação de um centroavante de referência. A maneira como a equipe se porta em campo também faz muita diferença nesse processo de formação. E um traço marcante entre o 4-2-3-1 e o 4-3-3 é que, mesmo contando com um atacante de referência, ele não será necessariamente o homem para ficar fixo na área apenas escorando para as redes.

Quem explica melhor é Bruno Costa: “Grande parte dos times de base hoje jogam no 4-3-3 ou no 4-2-3-1. Isso ajuda a formar um homem de referência, mas que tenha mais mobilidade. Por isso mesmo, é mais difícil encontrar alguém com esses traços. Os próprios treinadores já não trabalham mais com esses jogadores tão presos, que prejudiquem a dinâmica do time. O Fred se adaptou a isso na seleção, buscando o jogo fora da área, fugindo um pouco de suas próprias características”.

Profissão: centroavante

Além da parte tática, as características específicas também são essenciais para moldar um atacante de área. Dadá Maravilha, um dos maiores ícones da posição na história do futebol brasileiro, soube traduzir isso em uma de suas célebres frases: “O futebol tem nove posições e duas profissões: o goleiro e centroavante”. Para desempenhar bem seu trabalho, o camisa 9 precisa ser um especialista.

“Geralmente, quando o garoto chega no clube, fala que é atacante ou meia. Mas ele precisa ter várias características específicas: fazer o pivô, ser rápido na tomada de decisões, trabalhar o cabeceio, definir no último toque, chutar com os dois pés. É isso o que faz a diferença para o homem de referência”, coloca Bruno Costa.

Ney Franco ainda destaca outro ponto importante na formação de um centroavante. Nem sempre os treinamentos específicos dão resultados imediatos. O tempo é o principal agente: “Muitos camisas 9 acabam aparecendo tarde. Sempre quando se fala em um jogador da posição, imagina-se alguém alto. Mas é necessário muito trabalho técnico para ter controle da força física e coordenação para os movimentos. Boa parte dos atletas só amadurece nesse aspecto com 22, 23 anos. Por exemplo, o Willian José é um nome que observo com muito futuro para a função, mas ele ainda precisa evoluir em alguns pontos”.

O problema é que nem sempre os jovens estão dispostos a fazer esse esforço, como aponta Bruno Costa: “A parte técnica é fundamental. Mas um problema são os jogadores muito acomodados, que não fazem esse tipo de exercício, acham que já estão capacitados. Vai muito do comprometimento do jogador, de chegar, de trabalhar. Os craques como o Messi, o Neymar, o Cristiano Ronaldo, são conhecidos pela dedicação. Falta um pouco disso nos garotos, que pensam que chegaram ao ápice com 16 anos”.

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Ademílson, camisa 9 de Emerson Ávila no Sub-17

Entretanto, não dá para dizer que é só o comodismo dos jogadores que atrapalha. Não são todos os clubes que enfatizam em suas categorias de base esses treinamentos direcionados. “Cada time tem seu jeito de trabalhar. O que acontece é que boa parte das equipes treinam menos a parte técnica e mais a tática. A preparação é mais global, visando os jogos, o coletivo, a posse de bola. E, nisso, a parte individual acaba sendo esquecida. É mais raro que os atletas trabalhem a parte técnica para a posição. Tudo precisa ser praticado diariamente”, fala Emerson Ávila.

A mentalidade do clube faz a diferença

Neste momento, se insere um dos maiores dilemas das categorias de base: o que é mais importante, vencer campeonatos ou formar jogadores para o profissional? Embora a resposta pareça óbvia, nem sempre é assim. Vários fatores determinam a mentalidade de um clube, a pressão por resultados imediatos. E isso acaba refletindo diretamente nos garotos, que nem sempre têm esse aprimoramento visto como primordial.

“Tem clube que cobra resultado, outros buscam a formação. É instável, conforme a presidência, pode mudar em dois ou três anos, conforme a gestão seja trocada. Quando se pensa muito em ganhar, se perde a formação”, vê Erasmo Damiani, coordenador das categorias de base do Palmeiras. Para ele, um problema que precisa ser resolvido dentro do departamento de futebol: “Tudo isso precisa ser passado pela coordenação, dar tranquilidade para o técnico, priorizar a formação para o profissional. Entregar apenas jogadores prontos”.

Ney Franco, durante sua passagem pela seleção

Ney Franco, durante sua passagem pela seleção

Não quer dizer que a competitividade é apenas algo prejudicial para as categorias de base. Pelo contrário. Ela serve principalmente para se observar os prodígios em situações fora da zona de conforto, como analisa Ney Franco: “Competir também é importante, ajuda o técnico a identificar talentos em momentos de maior cobrança. Só que isso muitas vezes é confundido e alguns garotos acabam prejudicados. É preciso ter cuidado, contar com pessoas capacitadas para esse trabalho na base, o que o mercado brasileiro hoje possui”.

Quando essa gestão mais racional não acontece nas categorias de base, muitos jogadores mais preparados fisicamente ganham a posição. Os garotos com maior maturação se tornam a referência, para que essa superioridade garanta as vitórias. E, com os centroavantes, isso é ainda mais comum. Atletas muito altos e muito fortes, que se aproveitam dessas vantagens para anotar gols aos montes na base. Porém, quando muitos desses passam ao profissional, fica evidente a falta de capacidade técnica.

“O clube precisa observar o potencial, não a maturação ou o momento. Se não for assim, muitos talentos acabam se perdendo. É preciso trabalhar o jogador desde o infantil. Se deixar apenas para os juniores, não adianta. Quando ele chega ao profissional, não se olha a idade, mas na base isso faz uma grande diferença. Poucos meses de diferença de idade podem representar muito para os garotos, uma grande diferença física”, ressalta Damiani.

Todo cuidado é pouco na transição

Contudo, de nada adianta um trabalho bem feito na base se o processo de transição for ruim. Por marcarem mais gols e ficarem em evidência, os camisas 9 chamam mais atenção. É até natural que cheguem aos elencos profissionais com mais rapidez. O que não pode ser negligenciada é a parte final da formação, importante principalmente no aspecto psicológico.

“O atacante é mais valorizado financeiramente em qualquer parte do mundo. Isso faz com que o processo seja acelerado muitas vezes, com a diretoria lançando o garoto no time principal visando uma possível venda. E, às vezes, ele só treina e para por aí, não tem o tempo de jogo necessário. No fim da formação, é necessário que o atleta jogue bastante, participe de competições”, coloca Emerson Ávila.

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Bruno Costa (de branco), ao lado direito de Emerson Ávila

Sobretudo, há também uma mudança brutal de realidade. Dos jogos para dezenas de pessoas nos juniores, em centros de treinamentos, aos milhares nas arquibancadas nas partidas profissionais. “Como fica a cabeça desse menino? No processo básico de formação, é preciso ensiná-lo, corrigi-lo. Tem que ter paciência, passar tranquilidade e também dar sequência. Ainda mais sobre os atacantes, existe uma cobrança muito grande, uma expectativa alta. E os jogadores de renome costumam contar com uma colaboração maior da torcida do que esses meninos, cobrados logo nos primeiros erros. Muitos não têm uma maturação psicológica para isso”, discute Damiani, que ainda aponta como um problema sério a falta de um calendário amplo nos juniores e que também dê mais vivência atletas em partidas de primeiro nível.

A visão do futuro

Diante de tantos detalhes, dá para perceber que a carência de centroavantes é, em certa medida, contornável. O próprio Ney Franco admitiu uma proposta que desenvolveria mais as especificidades dos jogadores na base brasileira: “Tentei fazer um trabalho quando estava na seleção, que não consegui desenvolver completamente por causa do curto período em que fiquei lá. Queria desenvolver com os clubes que mais forneciam jogadores uma colaboração na parte tática. Padronizar os sistemas e estudar as características específicas para cada posição, o perfil atlético. Um modelo de jogo que ajudasse a formar esses garotos com características importantes para os próprios clubes e para as seleções de base”.

A mudança geral na visão das categorias de base que, mesmo sem contar com uma força centralizadora, já se encaminhava.  E que deverá ter suas consequências cada vez mais visíveis nos elencos principais em breve. “O potencial técnico acaba prevalecendo muito mais na escolha dos jogadores, a velocidade na transição. Há uma mudança de postura, principalmente nas escolas que antes priorizavam apenas a força na busca desse atacante. Hoje todos querem mais qualidade. E isso se refletirá cada vez mais em cima”, prevê Bruno Costa.