Argentina Ataque 169

[Camisa 9 do Brasil] Não faltam grandes centroavantes, eles apenas não são brasileiros

Há quem diga que o problema da falta de um centroavante da seleção brasileira é algo compartilhado por outras seleções ao redor do mundo. Talvez pela introdução do falso 9 ou pela versatilidade dos atacantes do futebol atual, há a impressão de que não há matadores como antes. Diante dessa argumentação, demos sequência ao tema da semana com um raio-x de como jogam centroavantes de 13 equipes, 11 delas presentes na Copa do Mundo. Tomando como base partidas principalmente das Eliminatórias, foi possível observar a relevância desses atletas para o jogo ofensivo de todas essas seleções e o tipo de contribuição que eles oferecem a seus esquemas.

>>> Tema da semana: A busca pelo camisa 9 da seleção
>>> A seleção tem uma interrogação no ataque, mas também está muito mal acostumada
>>> O que aconteceu com os centroavantes das nossas seleções de base
>>> Como a base ajuda a entender a carência de centroavantes

Apesar de muitos dos esquemas táticos serem parecidos, com o 4-2-3-1 sendo a formação mais utilizada pelos times, os papeis dos camisas 9 podem diferir bastante, dependendo das características destes ou dos companheiros ofensivos. Em algumas seleções como a Costa do Marfim e a Holanda, os atacantes desempenham função mais fixa, servindo como referência de ataque para times montados com dois pontas. Já Suécia e Polônia, duas seleções que não estarão no Mundial, não contam com elencos tão qualificados individualmente, então seus centroavantes, Zlatan Ibrahimovic e Robert Lewandowski, respectivamente, fazem mais que apenas ficarem isolados esperando a bola.

Embora algumas características do centroavante clássico tenham permanecido no futebol atual, como o papel de pivô e de referência em jogadas aéreas, os atletas da posição evoluíram para contribuir mais com as equipes. Em muitas delas, simplesmente ficar posicionado para mandar a bola para a rede não é mais suficiente. As seleções cujos centroavantes se restringem a esse papel escolhem esse caminho por ter qualidade de sobra nas outras posições para se dar a esse luxo. Como não é o caso da maioria, houve a evolução, e talvez por isso haja o equívoco de pensar que faltam centroavantes. Mostramos, caso a caso, quem são eles, como contribuem com suas equipes e como seu potencial é aproveitado pelas seleções.

Croácia
Mandzukic é a referência do ataque croata

Mandzukic é a referência do ataque croata

A Croácia baseia suas jogadas ofensivas principalmente na presença de Mario Mandzukic. Niko Kovac alterna seu esquema tático entre o 4-4-2 e o 4-2-3-1. Em ambos os esquemas, o plano de ataque da Croácia é claro: descidas pelas pontas buscando Mandzukic, seja pelo alto ou não. Pela estatura do centroavante e seu bom posicionamento, a preferência é pelas bolas levantadas, mas nem sempre é assim. Em cobranças de escanteio, o atleta costuma se posicionar pouco atrás de marca de pênalti, de onde tem maior liberdade para se movimentar na área de acordo com a maneira como a bola chega, podendo finalizar de frente para o gol ou buscar a bola de sobra no segundo pau.

Espanha

Para a posição de centroavante, a Espanha tem três principais concorrentes: Álvaro Negredo, Fernando Llorente e Diego Costa. Quando o jogador do Manchester City é o escolhido, sua função para o time é evidentemente a de pivô ou de finalizador de uma jogada em profundidade, nada mais que isso, ficando quase sempre na área. Com Negredo, os espanhóis apostam mais nas jogadas pelas pontas, ora com Pedro, ora com Jesús Navas ou então David Silva, o que aumenta a gama de ações ofensivas do time. Quando o adversário é muito fechado e dificulta a troca de passes excessiva, o centroavante é o cara a ser colocado em campo. “Joga a bola nele e vê no que dá” vira o lema da Roja. Quando Llorente é quem está em campo, sua função é basicamente a mesma: ficar fixado na área, com pouca movimentação. Os dois são escolhas para partidas específicas, adversários específicos. Diego Costa, que está chegando agora, é diferente.

O brasileiro que preferiu defender a seleção que demonstrou maior interesse em seu futebol pode muito bem fazer o que Llorente e Negredo fazem, mas com mais qualidade. Principalmente pela parceria que fez com Radamel Falcao García na temporada passada, o lagartense sabe desempenhar muito bem o papel de criador de jogadas para outros companheiros. Como seu protagonismo aumentou após a saída do colombiano, passou a marcar mais gols e a jogar mais próximo da meta adversária, mas, ainda assim, por vezes, mantém as características de sair da área para atrair a marcação e servir colegas melhor posicionados, seja pelas pontas ou pelo centro.

Holanda
Com companheiros de qualidade nas pontas, Van Persie pouco precisa sair da posição central

Com companheiros de qualidade nas pontas, Van Persie pouco precisa sair da posição central

Pense em um centroavante clássico, bom de cabeça, sempre bem posicionado, que sempre é uma opção de passe final e que finaliza bem com as duas pernas. Agora, imagine tudo isso de maneira mais sofisticada. Este é Robin van Persie na seleção holandesa. Vendo os ataques da Oranje, fica claro que o atacante do Manchester United raramente cai pelas pontas. No 4-3-3 de Louis van Gaal, está sempre na área para concluir uma jogada, mas não se engane pensando que ele é fixo por ali e não se movimenta muito além disso. Apesar de não inverter posição com os pontas, ele se desloca bastante verticalmente, procurando frequentemente o melhor posicionamento para receber a bola. Sempre buscado por Jeremain Lens e Arjen Robben pelo alto, boa parte de seus gols são feitos de cabeça. Sua contribuição com o time também pode ser facilmente notada em seu trabalho como pivô, para que meio-campistas como Wesley Sneijder, Kevin Strootman e Rafael van der Vaart apareçam de frente para o gol para finalizar.

Colômbia

Durante toda a disputa das Eliminatórias, José Pekerman montou a Colômbia em um 4-4-2, por isso é difícil acreditar que a presença ou não de Radamel Falcao García no torneio influencie o argentino a mudar seu esquema. De uma forma ou de outra, é provável que um dos atacantes titulares seja Teófilo Gutiérrez, do River Plate. Com quem ele fará parceria dependerá da recuperação milagrosa ou não de El Tigre, mas o possível substituto do centroavante do Monaco deverá manter mais ou menos as mesmas características do craque colombiano.

Falcao não tem participação tática fundamental nos Cafeteros. Sua contribuição vem justamente de sua qualidade técnica. Ele é tipo de atacante que consegue criar sozinho suas próprias jogadas. Além disso, se posiciona sempre para estar em boas condições de receber um cruzamento pelo alto ou por baixo. No ataque, volta um pouco para a intermediária para ser opção de tabela para Juan Cuadrado ou James Rodríguez. Seu jogo tático não tem muito segredo. Se não se recuperar a tempo, o provável substituto será Jackson Martínez, que precisaria manter o mesmo tipo de jogo já que é altamente improvável que Pekerman vá alterar seu esquema.

Costa do Marfim

Com jogadores ágeis, como Salomon Kalou e Gervinho, abertos pelas pontas e alguém de boa visão e ótimo passe na armação, como Yaya Touré, Didier Drogba é a referência no ataque dos Elefantes. Mesmo com a ascensão e o bom nível mostrados por Wilfried Bony, Drogba, mesmo que veterano, segue sendo o nome do ataque da seleção. Nela, o papel do jogador é basicamente ficar centralizado na área para cruzamentos e passes em profundidade ou então apresentar-se pouco fora dela para municiar as subidas dos pontas. Por sua força e habilidade, o jogador do Galatasaray é frequentemente acionado como pivô para os avanços de Touré, por exemplo, mas também para executar tabelas com Kalou e Gervinho.

Uruguai
Na dupla com Suárez, Cavani é o mais fixo (AP Photo/Matilde Campodonico)

Na dupla com Suárez, Cavani é o mais fixo (AP Photo/Matilde Campodonico)

O grande trunfo do ataque do Uruguai, além de seus grandes talentos individuais, é sua intensa movimentação. Edinson Cavani e Luis Suárez normalmente são a dupla titular, e o jogador do Paris Saint-Germain é o que mais se aproxima da definição de “centroavante”. Apesar de também se mexer para fora da área para, principalmente, fazer cruzamentos curtos ou descer em diagonal com boas condições de finalizar, Cavani é mais fixo que Suárez no time de Óscar Tabárez. O jogador do Liverpool costuma “flutuar” ao redor do camisa 7, que é sempre o cara procurado nas jogadas aéreas. Em cobranças de falta levantadas na área, Cavani costuma se antecipar à zaga para desviar a bola para alguém posicionado no segundo pau, já em escanteios, fica na entrada da pequena área, sendo a maior referência nesse tipo de jogada. Ótimo tanto em cabeceios quanto em criar suas próprias jogadas, desvencilhando-se da marcação, é difícil afirmar em qual das duas alternativas de jogada Cavani é mais perigoso.

Itália

O ataque da seleção italiana ainda é uma incógnita para a Copa do Mundo, e a única certeza absoluta é Mario Balotelli. Giuseppe Rossi sofreu muito com lesões nos últimos anos e, quando parecia que iria embalar de vez pela Fiorentina, contundiu-se novamente, desta vez colocando em risco sua participação no Mundial. Portanto, o jogador analisado da Azzurra será mesmo o atleta do Milan.

Campinho Itália

Balotelli não se encaixa exatamente na definição de centroavante por se movimentar bastante pelo campo. Normalmente escalado como a referência no ataque, o jogador na verdade sai bastante da área, seja para armar para alguém que esteja fazendo parceria com ele no ataque ou então para cair pelas pontas e iniciar jogadas dali. As principais características de centroavante do polêmico atacante é sua presença na área em algumas das jogadas, seu posicionamento em bolas paradas levantadas na área e a função de pivô que exerce, como naquele gol de Emanuele Giaccherini contra o Brasil na Copa das Confederações, é um pouco diferente do usual, saindo mais da área para isso.

França

Tanto Karim Benzema quanto Olivier Giroud podem ser o centroavante da França durante a Copa do Mundo. Dependerá apenas de quem se sobressaia no restante desta temporada e nos amistosos que a França tem até a disputa do Mundial. Benzema era titular de certa forma absoluta, até o começo da temporada, então iniciemos por ele.

Quando atua sozinho como atacante, Benzema tem como companheiros ofensivos, abertos pelas pontas, Franck Ribéry e Jérémy Ménez ou Mathieu Valbuena. Os dois descem bastante em diagonal, principalmente o jogador do Bayern, o que faz o centroavante muitas vezes precisar puxar a marcação para abrir espaço para as investidas do camisa 7, por exemplo. Em geral, Benzema não sai muito da área, mas isso não significa que ele seja frequentemente buscado em jogadas aéreas. As opções da França com o atleta do Real lá na frente são de toque de bola e jogadas trabalhadas até o gol. Em bolas paradas, o atacante costuma se posicionar na segunda trave esperando a sobra dos cruzamentos.

Já com Olivier Giroud, o esquema se mantém, mas a França ganha uma referência em altura lá na frente e um pivô mais forte. É normalmente o homem mais procurado em jogadas de bola parada e sai menos da área que Benzema. Há também uma terceira opção, em que Deschamps pode escalar os dois juntos, como na vitória sobre a Geórgia em março do ano passado. Com essa alternativa, Benzema sai bastante da área, mas não abdica de se posicionar entre os zagueiros para receber a bola. Ainda assim, Giroud é o mais fixo, como é o caso de Cavani e Suárez, só que com menor movimentação.

Argentina

Em uma seleção com tantos talentos individuais ofensivos, o trabalho de Gonzalo Higuaín fica bastante facilitado. Ele basicamente precisa se apresentar para tabelas com os companheiros que vão até o ataque ou então apenas empurrar para as redes as jogadas criadas por Ezequiel Lavezzi, Ángel Di María e Lionel Messi. Quase o tempo todo, Higuaín fica em uma posição central, avançando ou recuando de acordo com a posse da Argentina. Os momentos em que sai da área durante um ataque da Albiceleste são principalmente quando Messi faz alguma tabela com alguém lá da frente. Então, o centroavante abre espaço para a subida do camisa 10.

Campinho Argentina

Um dos poucos cenários em que tudo isso muda é quando o jogador faz dupla com Sergio Agüero. Ainda assim, mantém-se o mais próximo possível do gol, posicionado um pouco à direita e sendo normalmente o último homem de ataque argentino. Agüero movimenta-se bem mais ao redor da intermediária, deixando Higuaín como a maior referência.

Alemanha
Klose e Gomez têm sofrido com problemas físicos, mas são opções (AP Photo/ David Hecker)

Klose e Gomez têm sofrido com problemas físicos, mas são opções (AP Photo/ David Hecker)

Há algum tempo, o time titular da Alemanha tem sido formado sem um centroavante de ofício. Por problemas físicos, Miroslav Klose e Mario Gomez pouco jogaram de 2013 para cá pela Nationalmannschaft, e, portanto, o uso de um dos dois é apenas uma das opções para a Copa, e não algo certo. Ainda assim, vale a pena conferir como funcionam, cada um, na equipe de Joachim Löw. Começando pelo experiente Klose, a principal característica a se destacar do jogador é seu posicionamento. É com isso que o atacante pode mais contribuir com a seleção. Independentemente de como a bola chegue, é muito provável que Klose a alcance e dê um jeito de finalizar perigosamente a gol. Apesar de não ter a mesma estatura de um clássico centroavante, Klose se coloca tão bem na área e tem uma impulsão tão surpreendente que frequentemente marca gols de cabeça pela Alemanha. Em seus melhores anos, Klose era também muito ágil, mas atualmente já não poderá fazer a diferença nesse quesito como costumava fazer. A outra opção de centroavante que Löw pode ter é Mario Gomez. O atacante da Fiorentina é o tipo de jogador que não precisa ficar muito tempo com a bola para fazer sua parte. Por isso, não se afasta muito da área. Seu cabeceio e o bom aproveitamento em finalizações de curta e média distância são suas características principais. Forte fisicamente, é também uma referência para ser pivô de jogadas dos armadores, coisa que Klose não pode oferecer com a mesma qualidade.

Bélgica

Apesar de jovem, Romelu Lukaku provou que tem capacidade para ser protagonista. Pelo Everton, faz ótima temporada, e pela seleção belga, tomou a titularidade de Christian Benteke e marcou os gols decisivos da classificação à Copa do Mundo. Por sua velocidade, Lukaku não fica apenas isolado na área. Apesar de ser, sim, o centroavante da seleção, ele participa ativamente da criação de jogadas, por vezes partindo da intermediária e tocando em profundidade para quem estiver pelas pontas, seja Kevin De Bruyne, Eden Hazard, Kevin Mirallas ou Dries Mertens, os titulares mais frequentes. Lukaku é também alvo de passes de profundidade, quando pode apostar na corrida contra os zagueiros e usar sua força para se sobressair em relação aos adversários. Esse tipo de jogada é um importante trunfo dos belgas, como, por exemplo, no primeiro gol contra a Croácia em outubro do ano passado.

Como era de se esperar por sua estatura e posicionamento, o jovem é também alvo de jogadas aéreas da Bélgica, procurando se posicionar de forma que propicie um cruzamento dos pontas e laterais ou então ficando em volta da marca do pênalti em cobranças de bola parada. Ainda assim, esse tipo de jogada não é a preferência da Bélgica, que aposta mais na velocidade de seus jogadores ofensivos para criar suas chances mais perigosas.

Fora do Mundial, mas bem servidos no ataque
Polônia

Campinho Polônia

No 4-2-3-1 da Polônia, Robert Lewandowski é o cara da definição de jogadas. O jogador do Borussia Dortmund normalmente é o mais avançado da seleção, mas isso não é uma regra. Por sua qualidade, Lewa frequentemente parte de trás para tentar tabelas com seus companheiros e chegar em boas condições para finalizar contra o gol adversário. Em cobranças de bola parada, costuma ficar centralizado, como referência, perto da pequena área, e é a opção mais acionada nesse tipo de jogada. Os poloneses também costumam tentar jogadas aéreas com a bola rolando, buscando o camisa 9, mas não fazem disso uma grande prioridade, afinal o centroavante tem muito mais recursos que apenas seu cabeceio. Em contra-ataques, assim como acontece com Lukaku na Bélgica, Lewandowski é bastante demandado em bolas lançadas em profundidade. Outra característica interessante do jogador no ataque é se posicionar fora da área em algumas jogadas pelas pontas para receber bolas rasteiras, pronto para finalizar ao gol.

Suécia

Se quiser que o trabalho ofensivo da Suécia funcione, Zlatan Ibrahimovic não pode ficar restrito a seu papel de centroavante. A seleção sueca fica devendo tecnicamente, e frequentemente o craque do Paris Saint-Germain precisa sair ele mesmo do ataque e fazer a função de armador para que o time crie jogadas ofensivas. Em cobranças de bola parada, Ibra fica normalmente dentro da pequena área, como uma grande referência para o cobrador, e normalmente leva perigo ao goleiro adversário, como em seu primeiro gol contra Portugal no jogo de volta da repescagem das Eliminatórias.

Ibrahimovic faz como poucos a função de pivô, principalmente por sua altura e elasticidade, alcançando bolas que podem parecer impossíveis e ajeitando-as para os companheiros que vêm de trás. Além da qualidade de seu passe, outro fator que contribui para que Ibra fique mais afastado do gol, cercando a área, é seu forte chute, recurso sempre bem-vindo em uma partida complicada dos suecos. Portanto, com o posicionamento pouco recuado do jogador do PSG, o mais avançado no esquema tático da Suécia é Johan Elmander, para quem Ibra frequentemente está criando chances.