Messi e Neymar: dupla chama a atenção no Barcelona (AP Photo/Manu Fernandez)

[Camisa 9 do Brasil] E quem disse que o Brasil precisa jogar com centroavante? Não foi a gente

A preferência de Luiz Felipe Scolari por um esquema tático que conte com um centroavante é clara. O treinador tradicionalmente insiste em ter em seus times titulares um camisa 9 clássico, alto, trombador, de boa finalização e forte em bolas aéreas. Como atualmente só há Fred com capacidade de desempenhar tais funções com qualidade suficiente para ser titular em uma Copa do Mundo, existe a preocupação sobre como será formado o ataque caso o jogador do Fluminense não esteja em sua melhor forma em junho. Nos últimos meses, diante dos problemas físicos do atacante tricolor, Jô tem sido o substituto. Tudo bem que ele até faça seus gols, mas brasileiro algum se encheria de confiança pelo hexa sabendo que teria o atleticano como titular da Seleção. Portanto, será que a presença de um centroavante é tão essencial para que o Brasil faça uma boa Copa em casa? A variedade de meio-campistas e alguns exemplos de sucesso sem um camisa 9 mostram que não.

Um camisa 9 não é imprescindível para se ter sucesso

Durante seu período como treinador do Barcelona, Pep Guardiola revolucionou o clube catalão ao implementar um estilo de jogo de muito toque de bola e ao promover algumas mudanças especialmente no setor ofensivo. Após anos contando com um 9 de qualidade, Samuel Eto’o, o Barça envolveu o camaronês em uma troca com a Internazionale por Zlatan Ibrahimovic. O sueco, mesmo com toda sua competência inquestionável, não foi bem-sucedido no time.

Se com um dos melhores na posição a coisa não deu certo, Guardiola sabia que precisava fazer algo diferente. A opção foi tirar Lionel Messi da ponta direita, centralizá-lo na posição teoricamente ocupada por Ibra e Eto’o, anteriormente, mas com obrigações diferentes. O argentino não ficava fixo pelo meio. Tinha liberdade para flutuar pelas pontas, buscar a bola no meio do campo e se apresentar na área. Assim popularizou-se o termo “falso 9”, reproduzido parcialmente em outras equipes. A nova atribuição melhorou o futebol de Messi, do Barcelona como um todo, e distanciou ainda mais o argentino de seus concorrentes a melhor do mundo.

A seleção espanhola foi outra equipe que teve sucesso mesmo sem um centroavante. Com a presença de diversos jogadores do Barça entre seus titulares, era natural que Vicente Del Bosque tentasse estender a fórmula de sucesso do clube à Roja. Funcionou. Na Eurocopa de 2012, Cesc Fàbregas foi o falso 9 do time campeão. Ao redor do barcelonista, Andrés Iniesta, David Silva e Xavi não guardavam posição e também tinham liberdade para flutuar pela intermediária e dentro da área adversária, buscando sempre a melhor opção de passe para que alguém chegasse na cara do goleiro adversário em condições de marcar sem dificuldades.

Diferente de Barcelona e Espanha, mas também vitorioso sem um centroavante, o Corinthians campeão da Libertadores de 2012 não tinha uma referência no ataque. Jorge Henrique e Emerson ficavam no setor, mas bastante abertos pelas pontas. Descendo pelos flancos, fortaleciam as jogadas de linha de fundo, além de abrir espaço para as subidas dos meio-campistas, principalmente Paulinho. Com a velocidade dos dois, a equipe ganhava também ótimos atores para o papel de marcação sobre pressão desde a saída de bola dos adversários.

A mais marcante das seleções brasileiras vencedoras em Mundiais também não tinha um centroavante de ofício. Em 1970, Pelé, Tostão, Roberto Rivelino e Jairzinho formavam o setor ofensivo. Dentre eles, Jairzinho era o que normalmente ficava mais tempo avançado, mas mesmo ele não era um atacante no estilo do 9. A equipe tricampeã variava seus esquemas em seus ataques, por vezes com o recuo de Rivelino para o avanço de Pelé e Jairzinho, e em outras com Pelé fazendo a ligação entre meio e ataque, e Tostão e Jairzinho à frente. O fato é que ninguém guardava posição.

A seleção brasileira de 1970 foi a única campeã mundial sem um centroavante (Foto: AP)

A seleção brasileira de 1970 foi a única campeã mundial sem um centroavante (Foto: AP)

Mais recentemente, também na seleção brasileira – com muito menos brilho, é claro -, foi visto um esquema sem atacante fixo e com bastante efetividade. No amistoso contra a limitada Honduras, em novembro do ano passado, Felipão começou o jogo com Jô como centroavante e Neymar e Bernard abertos pelas pontas. Na segunda etapa, mudou completamente o setor ofensivo, tirando o trio para colocar Willian, Hulk e Robinho. O último ficou mais centralizado, mas, assim como Messi no Barça – só que com menos qualidade, claro -, ficou livre para se movimentar por todo o ataque, procurando tabelas com os dois primeiros e possibilitando as subidas de Ramires.

Abundância de meio-campistas cria outras possibilidades

É verdade que o adversário não era exatamente um teste de dificuldade, mas a leveza com que o time se mexeu após as alterações foi bastante positiva. Talvez Robinho não seja o cara para desempenhar esta função, já que não faz boa temporada pelo Milan. No entanto, existem jogadores brasileiros com capacidade de fazer o que o rossonero fez naquele jogo e que vivem boa fase em seus clubes.

Fator importante que corrobora a tese de que a presença de um centroavante não é essencial para o Brasil na disputa da Copa do Mundo, o grande número de opções para o meio de campo cria alternativas para Felipão. Entre os frequentemente convocados, Oscar faz grande temporada pelo Chelsea. Às vezes considerado publicamente como o melhor dos Blues por José Mourinho, o jogador talvez esteja atrás apenas de Eden Hazard no elenco do atual líder da Premier League. Willian chegou ao Stamford Bridge, adaptou-se rapidamente à nova equipe, tornou-se titular e outra opção para o técnico na Seleção. Philippe Coutinho, do Liverpool, tem pleiteado seu espaço no grupo com a boa temporada que faz, embora ainda não tenha recebido sua oportunidade com a amarelinha, e poderia ser outra alternativa para Scolari.

Todos os citados acima poderiam ser alternativas a Robinho no papel desempenhado pelo ex-santista no amistoso com Honduras. Oscar e Willian, cada um, já fizeram trabalho de armação centralizados, com liberdade para cair pelas pontas, o que facilitaria na transição para a posição de falso 9. Além disso, utilizar um dos dois neste papel não significaria perder um homem na armação, já que sempre haveria o outro para ficar responsável por isso. A possibilidade de ter Coutinho também livraria um dos dois para ser esse jogador. Nenhum deles, no entanto, poderia ser tão competente como falso 9 como Neymar. O craque do Barcelona já tem liberdade para sair de sua posição, já que isolá-lo na ponta esquerda, considerando todo seu talento e inventividade, seria um desperdício. Portanto, estaria a um pequeno passo de ser usado na função. Sem falar que, durante a ausência de Messi por lesão, foi utilizado na função, tendo seu ápice na goleada sobre o Celtic pela Liga dos Campeões, quando marcou três gols e deu uma assistência.

“O Neymar é um jogador muito talentoso, de qualidade, que não vai ter dificuldades para jogar em nenhuma das posições de ataque. Mas quando eu trabalhei com ele na seleção, percebi que rendia muito mais pelos lados. Se ele ficar centralizado no ataque, é claro que não vai ser um jogador de área, até pelas características. Vai ser mais parecido com Messi, que busca o jogo, ajuda a armar, tenta o drible.” – Ney Franco

Com ou sem Fred, Felipão precisa de uma alternativa
Luiz Felipe Scolari

E agora, Felipão? Vai insistir com centroavante, mesmo sem o Fred?

Felipão sabe que, até a Copa do Mundo, precisará encontrar uma alternativa funcional para seu esquema com um centroavante. Levando em conta os últimos meses de Fred, que muito sofreu com lesão e pouco entrou em campo pelo Fluminense, a preocupação com a forma física do camisa 9 é legítima e, portanto, a necessidade de formações sem um centroavante também. Ainda que o Brasil tenha tido sucesso com um homem de referência, centralizado no ataque, não podemos ficar reféns disso e utilizar o esquema a qualquer custo. Fred é, hoje, o único competente o bastante para ser titular nesta posição.

Ninguém colocaria a mão no fogo para afirmar que o tricolor estará bem fisicamente em junho, e, por isso, o técnico da Seleção já começou a pensar no final do ano passado em outros esquemas. Boas possibilidades não faltam, e o principal problema é a falta de tempo para fortalecer o time com um novo esquema. Mas como não há outra saída, esse é um complicador com que Felipão terá que lidar.