A Copa do Mundo de 2014 está sensacional e os elogios aos jogos, à emoção, ao ambiente e ao espetáculo que vemos são numerosos. Mesmo assim, nenhum dos times parece ter passado confiança de ser um time com cara de campeão. Entre os favoritos que restaram, dúvidas e alguns jogos sem brilho. Ninguém conseguiu convencer, mas isso é algo muito comum quando falamos de Copa do Mundo. Ao menos é isso que nos diz a história.

HISTÓRIA DAS COPAS: O jogo do século ainda está no inconsciente de Alemanha e França

Ninguém gosta de sofrer. Se pudéssemos evitar o sofrimento, assim faríamos. Os times de futebol também. Há até alguns masoquistas do futebol que dizem que gostar de sofrer para ganhar, porque assim é mais prazeroso. O fato é que quem vive futebol sofre, é inevitável. E uma boa Copa do Mundo tem sofrimento. E isso inclui seus vencedores.

Ganhar a Copa do Mundo sem sofrimento é praticamente impossível. Mesmo os grandes times da história passaram por momentos difíceis durante a Copa. É uma questão de caráter: com a fórmula de disputa, os jogos eliminatórios, a paixão e a representação do seu país compõem um torneio que dificilmente terá um time passando por cima de todos os outros para levantar a taça.

Exceção às primeiras Copas do Mundo, antes da Segunda Guerra Mundial, quando a fórmula de disputa era diferente e a própria Copa era outra coisa, e do Brasil de 1970, talvez o maior time da história das Copas, que mesmo em jogos difíceis conseguiu vencer, os demais campeões tiveram algum momento de dificuldade, uma pitada de sofrimento, aquele frio na espinha com o medo da eliminação nas veias. Escolhemos falar sobre como isso aconteceu nas últimas Copas do Mundo, de 1990 a 2010 para mostrar como foi em cada um desses anos o sofrimento do time campeão.

1990: Timaço alemão precisou de um lance controverso para ser campeão
Alemães comemoram o gol de pênalti de Brehme (AP Photo/Carlo Fumagalli, File)

Alemães comemoram o gol de pênalti de Brehme (AP Photo/Carlo Fumagalli, File)

Em 1990, a Alemanha já estreou na Copa do Mundo dando demonstração da sua força. No estádio San Siro, em Milão, venceu a Iugoslávia por 4 a 1. Contra os Emirados Árabes atropelou sem muito esforço por 5 a 1 e contra a Colômbia, que também tinha bom time, ficou no 1 a 1. Nas oitavas, os alemães bateram a fortíssima Holanda, campeã europeia, por 2 a 1, com gol no final, aos 37 minutos do segundo tempo. Nas quartas, vitória por 1 a 0 sobre a Tchecoslováquia, que também era um time forte. Nas semifinais, o maior sofrimento, contra a Inglaterra. O time alemão saiu na frente, mas tomou o gol de empate aos 35 minutos do segundo tempo. Depois da prorrogação, os pênaltis, e a vitória sofrida por 4 a 3.

A final teve um confronto com a Argentina, que era tecnicamente bastante inferior aos alemães, mas mesmo assim complicou bastante o jogo. A vitória por 1 a 0 só veio no final, aos 40 minutos, graças a um pênalti bastante controverso, que Brehme converteu. Mesmo sendo um timaço, que deu pinta de favorito desde o começo, o time sofreu para conseguir a vitória.

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1994: emoções até o final
Maldini marca Romário, o craque do Brasil em 1994 (AP-Photo/BRUNO LUCA)

Maldini marca Romário, o craque do Brasil em 1994 (AP-Photo/BRUNO LUCA)

O Brasil de 1994, que acabou com a seca da Seleção de 24 anos sem título, sofreu também. E sofreu bastante. Depois de passar pela fase de grupos com relativa tranquilidade vencendo Rússia, Camarões e empatando com a Suécia, teve um jogo dificílimo com os Estados Unidos, que naquela época tinha poucas qualidades técnicas e tinha como trunfo apenas jogar em casa. Venceu por 1 a 0, gol de Bebeto, mas não sem sofrer, ter Leonardo expulso de campo e passar no fio da navalha.

Nas quartas de final, outra batalha: o jogo com a Holanda, uma ótima seleção. Depois de abrir 2 a 0, o Brasil sofreu o empate e teve um momento de instabilidade no jogo. Foi só no chute de fora da área de Branco, em uma cobrança de falta, que saiu o gol da vitória, aos 36 minutos. A semifinal, com a Suécia, foi outro sofrimento. O gol de Romário saiu só aos 35 minutos do segundo tempo, de cabeça, no meio da zaga sueca. Um jogo duríssimo que o Brasil passou perto de sofrer o gol de empate.

A final foi ainda mais sofrida. Não só pelo time da Itália, que tinha muitos bons jogadores, incluindo o melhor do mundo do ano anterior, Roberto Baggio, mas porque foi disputada ao meio dia, em Pasadena, na Califórnia. O 0 a 0 se arrastou pelo jogo todo, incluindo a prorrogação, e o tetra só veio nos pênaltis. Sofrido, como se esperava que fosse.

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1998: o gol de ouro salvou a pátria francesa
Blanc comemora o gol contra o Paraguai em 1998  (AP Photo/Thomas Kienzle)

Blanc comemora o gol contra o Paraguai em 1998 (AP Photo/Thomas Kienzle)

A França sediava a Copa e tinha um time muito bom, era sabido, mas não se esperava que aquele time chegasse ao título. O time teve que passar por problemas sérios no mata-mata para chegar à decisão. Teve expulsão de Zidane na goleada sobre a Arábia Saudita e o camisa 10 tinha fama de ser esquentadinho. As oitavas tiveram o Paraguai pela Frente, um time que se defendia muito bem. Não por acaso, o placar ficou 0 a 0 no tempo normal. Na prorrogação, com o Paraguai cansado, Gamarra machucado, a França arrancou um gol de ouro com o zagueiro Blanc. O time avançava em Lens, mas sofrendo demais.

Nas quartas, o adversário francês era a Itália, de tradição. Novamente, placar igualado em 0 a 0 e a decisão só veio nos pênaltis. Novamente, os franceses ficaram com o coração na mão para avançarem à semifinal. E o sofrimento continuaria. A Croácia foi um adversário duro, saiu na frente no primeiro minuto do segundo tempo e deixou a tarefa francesa duríssima. Thuram, que atuava como lateral, empatou o jogo e ele mesmo virou com um golaço aos 25 minutos do segundo tempo. Com o coração na mão, a França chegou à final. E talvez a decisão tenha sido a menos dramática das partidas do mata-mata. A vitória por 3 a 0 sobre o Brasil levou os Bleus ao título. Mas quase caiu para o Paraguai, para a Itália, para a Croácia…

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2002: sete vitórias, mas não sem sofrer
Ronaldo (dir.) comemora a vitória contra a Bélgica de Marc Wilmots (AP Photo/Dusan Vranic)

Ronaldo (dir.) comemora a vitória contra a Bélgica de Marc Wilmots (AP Photo/Dusan Vranic)

O Brasil foi pentacampeão do mundo com sete vitórias em sete jogos. Uma campanha que raramente acontece na história das Copas. Mas se olhando para o resultado parece que o Brasil passeou, basta lembrar um pouco do que aconteceu para vermos que a caminhada brasileira teve altos e baixos.

Logo na estreia, o Brasil precisou suar muito para bater a Turquia, de virada. E isso graças a um pênalti mal marcado pelo árbitro em cima de Luizão. Vieram os jogos com China e Costa Rica, adversários fracos demais para qualquer sofrimento. Mas nas oitavas de final, o Brasil esteve nas mãos da Bélgica de Marc Wilmots, hoje treinador da seleção belga. Foi dele o gol mal anulado pelo árbitro por uma suposta falta, que não existiu. O Brasil marcaria seus gols aos 22 e aos 42 minutos do segundo tempo para avançar.

Nas quartas de final, talvez o jogo mais duro da campanha contra uma Inglaterra forte, que deu trabalho e exigiu do Brasil uma grande atuação. O Brasil virou o jogo depois de uma grande atuação de Ronaldinho, dando passe para o gol de Rivaldo e marcando ele mesmo o segundo em uma cobrança de falta inesperada do meio da rua. Um gol que muitos atribuem à sorte levou o Brasil à semifinal.

Contra a Turquia, na semifinal, um gol de Ronaldo aos quatro minutos do segundo tempo, com um biquinho, colocou o time na final. Na decisão, Ronaldo decidiu em dois gols no segundo tempo, mas o Brasil viu Marcos defender uma bola que ainda bateu na trave no primeiro tempo. Aquele Brasil também sofreu para ganhar o penta.

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2006: o ano que os favoritos ficaram pelo caminho
Totti comemora o gol de pênalti contra a Austrália, nas oitavas de 2006 (AP Photo/Luca Bruno)

Totti comemora o gol de pênalti contra a Austrália, nas oitavas de 2006 (AP Photo/Luca Bruno)

O Brasil era o grande favorito da Copa, mas isso não se confirmou em campo. Ali, na cancha, Alemanha, dona da casa, e Argentina, jogando um bom futebol, se mostravam seleções para vencer. A Espanha arrasou nos seus primeiros jogos, mas ainda era a Espanha que gerava desconfianças nos momentos decisivos. E confirmou esses temores ao ser atropelado por uma França que chegou às oitavas de final na bacia das almas, depois de empatar com a Suíça, com a Coreia do Sul e vencer, no último jogo, Togo. Avançou em segundo lugar e o favoritismo era espanhol. Só que aí a França atropelou com Ribéry e Zidane jogando muita bola e deixando a Roja pelo caminho.

A Itália se classificou até com facilidade, vencendo Gana, empatando com os Estados Unidos e batendo a República Tcheca. Não apresentou um futebol de favorito, nem encantava, mas avançava. Nas oitavas, muito sofrimento contra a Austrália. O time não conseguia se impor e o gol só veio nos acréscimos do segundo tempo. O lateral Fabio Grosso entrou na área e caiu, o árbitro deu um pênalti para lá de duvidoso que Totti bateu e marcou.

As quartas de final tiveram a Itália contra uma Ucrânia que já tinha ido longe demais, e venceu por 3 a 0. Os alemães, donos da casa, sofreram nos pênaltis para eliminar a forte Argentina. O Brasil caía diante da França. E as semifinais tinham um grande favorito: a Alemanha. Só que a Itália nunca saiu de campo derrotada pela Alemanha em Copas e manteve a escrita. Na prorrogação, eliminou a Alemanha por 2 a 0 e foi à final. A França de Zidane eliminou Portugal com um gol de pênalti.

Na final, os franceses foram melhores que os italianos, mas pararam em Buffon e a forte defesa italiana. Nos pênaltis, vitória Azzurra e um título que veio com uma boa dose de sofrimento. Um time que ficou a ponto de ser eliminado pela Austrália, ainda nas oitavas de final. A Austrália, veja bem.

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2010: o campeão “chato”
Iniesta comemora o gol contra a Holanda (AP Photo/Luca Bruno)

Iniesta comemora o gol contra a Holanda (AP Photo/Luca Bruno)

Vamos lembrar como foi em 2010. A Espanha era uma das grandes favoritas ao título, campeã da Eurocopa de 2008. Logo no primeiro jogo, perdeu da Suíça e um ponto de interrogação surgiu. O time venceria os jogos seguintes, contra Honduras e Chile, e se classificaria em primeiro lugar, mas não convencia. Contra Portugal, nas oitavas de final, um jogo duríssimo, resolvido com um gol isolado no segundo tempo. Vale lembrar que a Espanha era vista por muita gente como um estilo de futebol chato, pouco agressivo. E isso que se sentiu em todos os jogos, especialmente nos mata-matas.

Vieram então as quartas de final e o memorável jogo com o Paraguai. Novamente sem convencer, o time ficou prestes a ser eliminado quando os paraguaios tiveram a seu favor um pênalti aos 13 minutos do segundo tempo. Cardozo cobrou e perdeu, parando na defesa de Casillas. A Espanha seguiu sofrendo, mas arrancou um gol aos 38 minutos e venceu por 1 a 0. Foi às semifinais.

Ali enfrentou outro time que estava entre os favoritos. A Alemanha tinha tido altos e baixos na primeira fase, goleando a Austrália, perdendo da Sérvia e vencendo Gana no sufoco, mas tinha passado por Inglaterra e Argentina com relativa superioridade, 4 a 1 e 4 a 0. Chegava com certo favoritismo, mas a Espanha fez o seu melhor jogo na Copa e mostrou o grande time que era. Mesmo assim, não conseguia fazer gols, talvez o maior problema do time. Venceu por 1 a 0, novamente na parte final do jogo, aos 28 minutos do segundo tempo. Foi à final.

A final da Copa de 2010 todo mundo se lembra bem, um jogo amarrado e difícil contra a Holanda. Os holandeses estiveram a ponto de vencer, com dois gols perdidos por Arjen Robben. Os espanhóis venceram graças as um gol de Iniesta já aos 11 minutos do segundo tempo da prorrogação. Dramático, sofrido, e sempre a ponto de perder o jogo.

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2014: o campeão já sofreu

Seja quem for o campeão da Copa do Mundo no Brasil, ele já passou por momentos difíceis. Considerando que a Costa Rica é a maior zebra, todos os outros tiveram momentos complicados. E devem viver outros até o final. Brasil, sofrendo contra o Chile, a Holanda contra o México, a Argentina contra a Suíça, a Alemanha com a Argélia. Só mesmo a Colômbia dá para dizer que não sofreu, porque a Costa Rica teve que passar pelos pênaltis contra a Grécia, em um jogo muito dramático. Podemos ter a certeza que quem levantar a taça terá sofrido muito.