No seu início, precisamente nas 11 primeiras rodadas, o equilíbrio do Campeonato Holandês impressionou bastante – a ponto da Trivela falar sobre ele aqui. De fato, ter apenas dois pontos separando o líder do nono colocado era um cenário bizarro demais, embora a Holanda se caracterize, cada vez mais, por um equilíbrio entre alguns participantes do seu campeonato. Mas também parecia óbvio que aquilo duraria pouco.

Pois bem: às vésperas da 18ª rodada, neste final de semana, a última antes da pausa de inverno, as coisas já parecem bem mais definidas. Afinal, já são treze pontos separando o Vitesse, ocupante do primeiro lugar, do PSV, o nono colocado na tabela. E com metade do campeonato concluída, já é possível dizer com clareza quem disputará o título, quem sonhará com as competições europeias, quem ficará no “limbo” e quem sofrerá com a ameaça de rebaixamento. Parece óbvio? Não no futebol holandês.

E é bom notar que o equilíbrio não acabou. Apenas parece diluído entre os interesses diversos na Eredivisie. Vejamos, por exemplo, a disputa do título. O Vitesse segue liderando, com 36 pontos, ancorado na coesão exemplar da equipe e no bom desempenho do ataque, Lucas Piazon e Havenaar à frente. E enfrentará o Heracles Almelo, adversário que não inspira medo (está na turma que deverá ficar no “limbo”, em 11º lugar).

Só que o Ajax, antes ainda irregular, parece ter encontrado o fio da meada no Campeonato Holandês. Justamente após perder para o Vitesse, os Ajacieden engataram sequência de cinco vitórias. Algumas delas, até contando com a sorte: por exemplo, a vitória na 17ª rodada, contra o Cambuur, no domingo passado, quando a equipe jogou preguiçosamente, levou o empate, mas ainda conseguiu o gol da vitória nos acréscimos do segundo tempo, com Davy Klaassen (o grande destaque do time, nos últimos jogos).

Com 34 pontos, o time de Amsterdã está em compasso de espera: ao mesmo tempo em que continua ganhando (o próximo jogo é contra o Roda JC, em casa), apenas aguarda um tropeço do Vitesse para assumir a liderança e se colocar definitivamente na rota do sonhado tetracampeonato inédito. No entanto, devagar e sempre, também está o Twente: sem muito alarde, a equipe está apenas um ponto abaixo do Ajax. E pode, sim, sonhar em chegar à primeira posição – até porque enfrentará o RKC, sofrendo com a ameaça do rebaixamento.

Depois dos três primeiros colocados, vêm Feyenoord e Heerenveen. Embora ainda sofram com certa irregularidade, estando um pouco mais distantes, mantêm o sonho do título. E de qualquer forma, estão muito bem na disputa por um lugar nos play-offs por competições europeias. Em quarto lugar, com 30 pontos, o Feyenoord livrou-se dos problemas do início da temporada, e vê o crescimento de gente fundamental no time, como Graziano Pellè; na quinta posição, com 26 pontos, o Heerenveen também conta com os gols de Finnbogason para manter a boa campanha.

Porém, abaixo do Heerenveen, já começa o equilíbrio na zona dos play-offs por Liga Europa. Groningen, AZ e Utrecht têm a mesma pontuação (24), seguidos pelo PSV (23). E até o Zwolle, que começou bem mas já não ganha há sete rodadas, pode sonhar com a presença em competições continentais (tem 23 pontos, e está na 10ª posição).

Entre Heracles Almelo, 11º, e NAC Breda, 13º, as perspectivas de ficar no seguro limbo são até boas. Mas convém não se descuidar, já que entre Roda JC (14º) e NEC (18º), os que deverão provavelmente tentar escapar do rebaixamento, há apenas três pontos de diferença – e apenas um ponto separa Roda de NAC Breda.

É claro que tudo depende de subidas vertiginosas (como as que levaram o Ajax aos títulos em 2010/11 e 2011/12). Ou de quedas incríveis (como a do NEC, que de aspirante à Liga Europa quase caiu na temporada passada). Mas o certo é que o equilíbrio do Campeonato Holandês segue. Apenas se diluiu entre os diferentes interesses da tabela, deixando de lado a indefinição total das primeiras rodadas.

Apenas mais uma de amor

A princípio, Guus Hiddink estava aposentado. E a coluna até analisou sua carreira aqui, quando ele anunciou que não mais trabalharia como técnico após a passagem pelo Anzhi, da Rússia. Houve até uma renovação de contrato, em junho – para logo depois, haver um pedido de demissão surpreendente, logo “justificado” pelo fim dos investimentos de Suleyman Kerimov no clube do Daguestão.

Então, pensou-se que o “Mago de Varsseveld” apenas viveria das colunas semanais para o diário “De Telegraaf” e da fama justamente amealhada pelos bons trabalhos feitos na carreira. Até há duas semanas, quando, justamente por uma coluna, Hiddink anunciou que pensaria com carinho na hipótese de treinar a seleção holandesa, caso fosse convidado – bom lembrar, Louis van Gaal já anunciou a saída após a Copa de 2014.

Claro, a imprensa do país voou para procurar a confirmação. E o agente do técnico, Cees van Nieuwenhuizen, ratificou o que foi dito: “Se a federação o chamar para uma conversa, tenho certeza de que ele irá aceitar. Guus pode esperar”. E de repente, não mais que de repente, Ronald Koeman, antes o favorito para ocupar o lugar que Van Gaal deixará, era ultrapassado por quem já esteve lá, entre 1995 e 1998.

Enfim, após sondagens informais, o (ainda) ex-técnico foi conversar com Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional da KNVB. Saiu de lá, pelo menos, com a negociação iniciada. E para alguns, concluída: o próprio “De Telegraaf” onde Guus escreve cravou, no último sábado, que ele logo será anunciado o novo técnico, e permanecerá na seleção até 2016, para tornar-se diretor técnico da federação depois.

Van Oostveen fez questão de emitir nota, na última quarta, alertando que o martelo sobre o nome do novo técnico só será batido quando todos os membros da nova comissão técnica forem definidos. Inclusive, cogitou-se a possibilidade de Ronald Koeman tornar-se auxiliar de Hiddink, reprisando a dupla que comandou a Oranje na Copa de 1998. Koeman recusou, até por já ter uma carreira estabelecida.

De todo modo, fica claro: Guus Hiddink, de fato, estava aposentado. Mas o canto da sereia chamada seleção ainda é forte demais para que um dos grandes técnicos do país em todos os tempos resista a ele.