A outra glória europeia de Buffon, a Copa da Uefa de 1999, e os seus milagres na Champions

Por Leandro Stein

Quando Gianluigi Buffon surgiu como um fenômeno no Parma, logo se acostumou a disputar as competições continentais. O talento do jovem arqueiro auxiliava os gialloblù a protagonizarem grandes campanhas na Serie A, em tempos pródigos no Estádio Ennio Tardini. Entretanto, por mais que a lenda tenha acumulado suas primeiras aparições pela Liga dos Campeões naqueles tempos, os melhores momentos vieram mesmo no lado b das copas europeias. Ao longo da década de 1990, o clube foi uma potência na Copa da Uefa. Conquistou o seu primeiro título em 1995, meses antes de Gigi despontar entre os profissionais, e ergueu a taça novamente em 1999, já com o camisa 1 entre os seus protagonistas. O sonho que, desde então, surge como obsessão de um feito maior.

VEJA TAMBÉM: Vai, Buffon, vai buscar seu sonho: vai buscar a taça que você merece e te precisa

A estreia de Buffon além das fronteiras não foi das mais felizes. Em setembro de 1996, o Parma caiu logo na fase inicial da Copa da Uefa, eliminado pelo Vitória de Guimarães. Contudo, a sequência daquela temporada seria redentora. Os gialloblù fariam enorme campanha na Serie A e por pouco não alcançariam o Scudetto, terminando a liga somente dois pontos atrás da Juventus. Como consolação, o clube teria o gosto de fazer sua estreia da Champions em 1997/98. Após eliminar o Widzew Lodz na preliminar, caiu na fase de grupos. Em tempos nos quais apenas os líderes das chaves tinham vaga garantida nos mata-matas, os italianos não conseguiram ficar entre os melhores segundos colocados. Terminaram a caminhada atrás do então campeão Borussia Dortmund, mas à frente de Sparta Praga e Galatasaray.

buff

Sem repetir o desempenho anterior na Serie A, a sexta colocação valeu ao menos o retorno à Copa da Uefa. Aquele que seria mais um orgulho na sala de troféus do Parma. Grande jornada, para premiar o esquadrão comandado por Alberto Malesani. Buffon era o grande goleiro que iniciava a escalação do grande time. À sua frente, na linha de zaga, havia talento de sobra com a trinca normalmente formada por Lilian Thuram, Roberto Sensini e Fabio Cannavaro. Juan Sebastián Verón, Dino Baggio e Alain Boghossian cadenciavam o jogo pelo meio, enquanto Diego Fuser e Antonio Bennarivo costumavam cair pelas alas. Na armação, ainda havia Stefano Fiore. E o que não faltava no ataque eram opções para decidir as partidas: Hernán Crespo, Enrico Chiesa, Faustino Asprilla e Abel Balbo. Natural que recebessem a pecha de favoritos no torneio continental, embora a disputa fosse duríssima.

VEJA TAMBÉM: A gente precisa se dar conta do tamanho da sorte que é poder dizer: “Eu vi Buffon jogar”

Tanto era que o Parma estreou com derrota. Jogo difícil contra o Fenerbahçe em Istambul, com triunfo dos turcos (treinados por Joachim Löw) por 1 a 0, gol de Viorel Moldovan. Todavia, os gialloblù demonstraram sua fome pela taça no reencontro, virando o confronto com a vitória por 3 a 1. O gol da classificação, de Boghossian, só veio aos 28 do segundo tempo. Na segunda fase, um pouco mais de tranquilidade contra o Wisla Cracóvia, com uma vitória e um empate. E o nível de dificuldade voltaria a aumentar nos 16-avos de final. O Rangers vinha de uma recente série de nove títulos consecutivos na Escócia. Treinado por Dick Advocaat, contava com um elenco cheio de jogadores de seleção, apesar de terem vendido Paul Gascoigne meses antes. Antti Niemi, Colin Hendry, Arthur Numan, Giovanni van Bronckhorst, Barry Ferguson, Lorenzo Amoruso e Andrey Kanchelskis estavam entre as opções. Não foram páreos aos italianos: Balbo garantiu o empate por 1 a 1 no Ibrox, antes da virada por 3 a 1 no Ennio Tardini.

Outro susto grande ao Parma veio nas quartas de final, diante do Bordeaux, treinado por Elie Baup. No jogo de ida, os girondinos fizeram 2 a 1 no Estádio Chaban-Delmas, tentos de Sylvain Wiltord e Johan Micoud. Até que a fúria gialloblù se desencadeasse no Ennio Tardini, com uma irrepreensível goleada por 6 a 0. Crespo e Chiesa já encaminharam a classificação no primeiro tempo. Na volta do intervalo, o massacre tomou forma com mais dois gols dos atacantes, além de um de Balbo e de outro de Verón. Naquele momento, ninguém ousava questionar o potencial dos italianos. Algo que se confirmou nas semifinais, com duas vitórias sobre o Atlético de Madrid. Trabalho feito desde o Vicente Calderón, com Chiesa brilhando nos 3 a 1 sobre o time de Radomir Antic. Já na volta, festa completa com os 2 a 1 na Emilia-Romagna. Entre os derrotados, jogadores da estirpe de José Francisco Molina, José Antonio Chamot, Juan Carlos Aguilera, Vladimir Jugovic, Juan Carlos Valerón, José Mari e Juninho Paulista.

Já na decisão, marcada para o Estádio Luzhniki, o adversário do Parma era menos temível que muitos dos derrotados anteriores. Afinal, o Olympique de Marseille vinha desfalcadíssimo para o jogo mais importante. Por conta de uma briga na semifinal contra o Bologna, vários dos protagonistas acabaram suspensos: Fabrizio Ravanelli, William Gallas e Christophe Dugarry estavam no bolo. Dentre os jogadores mais emblemáticos, sobraram o capitão Laurent Blanc e o meia Robert Pirès, atuando no ataque em Moscou. Pouco para amedrontar os gialloblù.

Sem conseguir sair ao ataque, o Olympique sofreu com a atuação inspiradíssima de Hernán Crespo. O centroavante participou diretamente de dois gols no triunfo por 3 a 0. No primeiro, aproveitando erro crasso do marcador, deu um belíssimo toque por cobertura, para superar o goleiro Stéphane Porato aos 26 minutos. Antes do intervalo, Paolo Vanoli aumentou a conta, completando cruzamento de Diego Fuser. Já o terceiro viria com a classe de Crespo, dando um corta-luz para seu parceiro Enrico Chiesa encher o pé. A Copa da Uefa voltava para o Estádio Ennio Tardini.

Diante das circunstâncias, Buffon teve uma atuação apenas protocolar em Moscou. No máximo, o Olympique arriscava chutes de longe, facilmente controlados pelo arqueiro sempre bem posicionado. Gigi mal sujou o uniforme, sem fazer uma defesa difícil sequer. De qualquer forma, a importância do jovem de 21 anos ao longo da campanha é inegável. A segurança no excelente sistema defensivo começava com o goleiro, numa equipe na qual os zagueiros costumavam sair bastante para o jogo. Justamente um dos diferenciais daquele timaço tão completo, que conquistou o devido reconhecimento.

VEJA TAMBÉM: Dois abraços, um tapa: Os segundos monumentais entre dois monumentos, Buffon e Iniesta

Pelo Parma, Buffon ainda disputaria as preliminares da Champions em 1999/00, eliminado justamente pelo Rangers, e outras duas edições da Copa da Uefa. Repescados para a competição secundária naquela mesma temporada, os gialloblù cairiam nos 16-avos de final para o PSV. A queda veio apenas nos gols tomados fora de casa. Já em 2000/01, o insucesso se repetiria na mesma fase diante do Werder Bremen. Cabe ressaltar, todavia, que os italianos perderam diversos destaques no período, e os substitutos não conseguiram proporcionar o mesmo impacto. O próprio Gigi se despediria do Estádio Ennio Tardini em 2001, contratado pela Juventus na maior transação já feita por um goleiro – e que permanece assim até hoje, em dinheiro inegavelmente bem investido.

Em Turim, o Superman até disputou a Liga Europa em duas oportunidades, caindo nas semifinais em 2013/14, diante do Benfica. Todavia, seu objeto de desejo é mesmo a Liga dos Campeões. E se torna emblemático que duas das maiores defesas de um goleiro de tantos milagres tenham acontecido justamente nas decisões que perdeu, em Manchester e em Berlim. Em 2003, diante de Pippo Inzaghi, pegou uma cabeçada à queima-roupa que considera a segunda melhor intervenção da carreira, atrás apenas da lendária contra Zidane na final da Copa de 2006. Prorrogou a vida da Juventus, mas sucumbiu nos pênaltis contra o Milan de Dida. Já em 2015, no mesmo Estádio Olímpico onde se consagrou no Mundial, o veterano se esticou para espalmar uma pedrada de Daniel Alves. Nada que evitasse o sucesso do Barcelona.

Ao longo da atual campanha na Champions, aliás, Buffon não se cansou de colecionar defesas impossíveis. Os lances de pura agilidade barraram de maneira inacreditável o desvio de Nabil Fekir, o chute colocado de Andrés Iniesta, a cabeçada de Valère Germain. Mantiveram a zaga da Juve com números impressionantes, especialmente nos mata-matas. E colocaram Gigi como grande líder em mais uma decisão. Quem sabe, para operar mais uma intervenção histórica. A definitiva, que não será eclipsada pela frustração das derrotas.