Após 26 anos, o mapa é redescoberto: A história dos clubes da Alemanha Oriental nas copas europeias

* Por Leandro Stein

Ao lado do Qarabag, o RB Leipzig é um dos clubes que participam pela primeira vez da fase de grupos da Liga dos Campeões. A presença dos Touros Vermelhos significa não apenas um marco no projeto esportivo da Red Bull, que finalmente ganha um representante na etapa principal do torneio continental, após os intermináveis fracassos da matriz de Salzburg. Dá para dizer também que os novatos reabrem uma fronteira na Champions, inexplorada há mais de duas décadas. Pela primeira vez desde 1990/91, uma cidade da antiga Alemanha Oriental terá uma equipe de seu território nas copas europeias. E ainda que o Leipzig simbolize um futebol de modelo diametralmente oposto ao que se vivia no extinto país comunista, a importância deste evento ao esporte local é indiscutível. Resgata a forte história no futebol que os alemães-orientais construíram além do muro.

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As glórias continentais dos clubes da Alemanha Oriental não foram desfrutadas na Copa dos Campeões. A especialidade do país era mesmo a Recopa Europeia, na qual protagonizaram suas campanhas mais importantes. Em 1973/74, um ano especialmente simbólico para os germânicos dentro de campo, o Magdeburgo levou a taça para casa. Desbancou o Milan de Gianni Rivera na decisão, graças à vitória por 2 a 0 na final disputada em Roterdã. Semanas depois, os alviazuis seriam uma das bases da seleção que fez boa campanha na Copa do Mundo de 1974. Além disso, Carl Zeiss Jena e Lokomotive Leipzig alcançaram a final na década de 1980, mas sem o mesmo sucesso.

Abaixo, relembramos as participações da Alemanha Oriental nas competições continentais, divididas em períodos históricos. Destacamos as melhores campanhas, assim como os clubes que concentraram o protagonismo do país ao longo de três décadas e meia de aparições nas copas europeias.

Os primórdios: de 1957 a 1965

Zentralbild-Wendorf Wen-Wz 2.10.1959 ASK-Vorwärts siegte mit 2:1 Toren im Europa-Fussball-Pokalspiel gegen die Wolyerhampten Wanderers am 30.9.1959 im Berliner Walter-Ulbricht-Stadion. UBz. ASK-Vorwärts-Mannschaft vor dem Spiel, v.l.n.r. W. wirth, Torwart Spicknagel, Kiupel, Reichelt, Riese, Kalinke, Nöldner, Meyer, Köhle, Krampe und Unger.

A Oberliga da Alemanha Oriental começou a enviar seus representantes aos torneios continentais a partir de 1957/58. Neste momento, o futebol local passava por uma série de transformações. O esporte tinha se estabelecido na região desde a virada do século e os principais centros urbanos eram fundamentais à estrutura nacional do futebol alemão na primeira metade do Século XX. Não à toa, a federação foi fundada em Leipzig, enquanto clubes como o Dresdner e o VfB Leipzig brigavam pelo título do Campeonato Alemão. Com a cisão ocorrida após a Segunda Guerra Mundial, a administração soviética após a rendição dos nazistas na porção leste do território e o estabelecimento da chamada República Democrática da Alemanha em 1949, o esporte tomaria suas novas bases.

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Obviamente, o modelo soviético seria o norte do futebol na Alemanha Oriental a partir de então. Boa parte dos antigos clubes seriam desmantelados e ligados à administração estatal. Inicialmente, o projeto era amplo. As novas associações esportivas geriam equipes de diferentes modalidades, ligadas principalmente às indústrias nacionais. Contudo, a conquista da Alemanha Ocidental na Copa do Mundo de 1954 fez os orientais darem nova atenção ao futebol. Assim como já ocorria na União Soviética e em outros regimes comunistas, os times passaram a ser fomentados pelos organismos estatais. Além disso, alguns dos melhores times daquela época passaram a ser realocados para cidades maiores, especialmente para reforçar seus laços com o poder. Obviamente, essa dança das cadeiras também encontrava oposição, com torcedores, jogadores e dirigentes rechaçando as transferências. A reação freou as politicagens e gerou uma legislação específica a partir de 1963, que permitia mudanças apenas “consensuais” para outros municípios.

E foi nesta realidade movediça que a Alemanha Oriental se inseriu nas copas europeias. A história foi inaugurada pelo Wismut Karl-Marx-Stadt, uma das principais potências da época. O clube ligado à mineração de urânio, inclusive, foi um dos alvos dessas transferências de cidade. Porém, a mudança nunca aconteceu de maneira completa, graças à revolta dos trabalhadores das minas de Aue, onde ficava a sua sede. Apesar dos problemas internos, o atual Erzgebirge Aue fez papéis dignos na Champions. Foram três participações, entre 1957/58 e 1960/61. Chegaram a alcançar as quartas de final uma vez, em 1958/59, após eliminarem Petrolul Ploiesti e IFK Gotemburgo, caindo apenas para o Young Boys.

Além do Wismut, a outra força da Oberliga naquele momento era o Vorwärts Berlim, ligado ao exército, que havia se transferido de Leipzig à capital antes de começar a frequentar o alto do pódio. A primeira de suas oito aparições continentais (seis delas na Champions) aconteceu na Copa dos Campeões 1959/60. A equipe teria uma parada duríssima contra o Wolverhampton de Stan Cullis, um dos times mais incensados da Inglaterra naquelas décadas. Diante de 65 mil torcedores no Stadion der Weltjugend, chegaram a bater os visitantes por 2 a 1. Entretanto, a vitória dos Lobos por 2 a 0 no Estádio Molineux selou a eliminação dos alemães-orientais logo naquela etapa inicial.

A melhor campanha da Alemanha Oriental nas copas europeias durante aqueles primeiros anos aconteceu na Recopa Europeia. Um dos clubes mais antigos do país, o Motor Jena havia sido fundado em 1903, por funcionários da Carl Zeiss, indústria óptica de excelência internacional. A equipe passou por diversas mudanças de nome a partir da Segunda Guerra Mundial, mas mantinha a sua relevância. E, campeã da copa nacional em 1960, não decepcionou em sua estreia internacional, em uma trajetória que é lembrada também pelas tensões da Guerra Fria. Afinal, o Muro de Berlim tinha começado a ser erguido poucas semanas, gerando uma série de sanções aos alemães-orientais.

Por causa do embargo alinhado pela OTAN, os cidadãos da Alemanha Oriental não podiam entrar na maioria dos países capitalistas da Europa, com os vistos negados. E a Uefa, sem se meter na política, afirmava que os clubes que não encontrassem uma solução corriam o risco de WO. Assim, o Motor Jena eliminou Swansea, Dudelange e Leixões sem disputar uma partida sequer na casa de seus adversários. Os galeses atuaram na Áustria, um dos raros países neutros em relação às sanções, enquanto luxemburgueses e portugueses jogaram em outras cidades da própria Alemanha Oriental. Entretanto, não foi a barreira diplomática que segurou o Atlético de Madrid nas semifinais. O histórico time colchonero ganhou em Jena e goleou por 4 a 0 em Malmö, escolhida para o jogo de volta também pela neutralidade sueca. Acabaram com a taça nas mãos, vencendo a Fiorentina na final.

Naquela temporada, Malmö ainda recebeu a queda do Vörwarts Berlim nas oitavas de final da Champions. Os alemães-orientais eliminaram o norte-irlandês Linfield na primeira fase justamente por uma falta de acordo sobre o jogo de volta, depois que o governo britânico impediu a entrada dos visitantes em Belfast. Já na etapa seguinte da competição, o Rangers comprovou a sua força ao construir o resultado na Suécia. A partir de 1962/63, os representantes da Alemanha Oriental se cruzaram apenas com clubes de outros países neutros ou da Cortina de Ferro nas competições continentais, até que o embargo à emissão de vistos caísse em 1965/66.

A afirmação: de 1966 a 1973

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Além do fim das sanções, outro ponto de virada acontece ao futebol da Alemanha Oriental a partir de 1965/66. Sem mais as mudanças constantes de cidade, os principais clubes do país já começavam a estabelecer na Oberliga. Dynamo Berlim, Dynamo Dresden, Magdeburgo, Carl Zeiss Jena e Lokomotive Leipzig cada vez mais se colocavam como os “cinco grandes” no cenário nacional. E uma mudança nas diretrizes esportivas naquela temporada os beneficiou fortemente. O regime criou uma elite de 11 equipes, que poderia recrutar jovens atletas de qualquer parte do país. As transferências sem limites criavam um status petrificado de potências e se refletiria diretamente nos torneios continentais. Nesta mesma época, despontou a geração mais talentosa do futebol alemão-oriental.

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Consequentemente, a maior parte destes clubes relevantes da Alemanha Oriental começou a pipocar nas competições continentais a partir da metade final da década de 1960. E as grandes campanhas se tornaram mais frequentes. O primeiro sinal disso veio já em 1965/66, com o Magdeburgo. Os alviazuis chegaram a enfiar 8 a 1 no Sion, pelas oitavas de final da Taça das Cidades com Feiras – a atual Liga Europa. Na fase seguinte, deram trabalho ao West Ham, base da seleção inglesa e futuro dono da taça. O time estrelado por Bobby Moore, Martin Peters e Geoff Hurst ganhou por um magro 1 a 0 no Upton Park e teve que buscar o empate por 1 a 1 no Estádio Ernst Grube, antes de seguir seu caminho rumo ao pódio. Já no ano seguinte, seria a vez do Lokomotive Leipzig eliminar o Benfica de Eusébio, antes de ficar nas quartas de final da mesma competição, batido pelo Kilmarnock.

Forças transitórias no período, os tradicionais Chemie Leipzig e Hansa Rostock tiveram aparições efêmeras nas competições continentais secundárias naquele período, mas também fizeram bom papel. Ligado à indústria química, o Chemie eliminou o Legia Varsóvia na Recopa Europeia 1966/67, antes de vender caro a vaga nas quartas de final para o Standard Liège. Já o Hansa, que tinha um lobby forte na política e na indústria de alimentos, se destacaria primeiro na Taça das Cidades com Feiras de 1968/69, ao derrubar o Nice e ficar no quase contra a Fiorentina. Já na temporada seguinte, chegou a derrotar a Internazionale, mas foram eliminados pelos nerazzurri no reencontro em Milão.

O Vörwarts Berlim era outro que seguia com notoriedade. Em 1969/70, colocaram pela primeira vez um time da Alemanha Oriental entre os oito melhores da Champions. Começaram batendo o Panathinaikos, que viria a ser vice-campeão continental na temporada seguinte. Depois, passaram pelo Estrela Vermelha, graças aos gols marcados fora de casa. Pararam apenas nas quartas de final, diante do campeão Feyenoord. Ainda assim, os alemães-orientais impuseram a derrota aos holandeses na visita a Berlim, com o triunfo por 1 a 0 garantido pelo artilheiro Jürgen Piepenburg. Autor de 11 gols em 22 partidas no total, o atacante é o maior artilheiro de seu país na história da Champions. E na temporada seguinte, classificado à Recopa Europeia, o Vorwärts seria quadrifinalista outra vez. Deixou Bologna e Benfica pelo caminho, até ser batido pelo PSV.

De qualquer maneira, as principais referências do futebol da Alemanha Oriental se consolidavam entre Carl Zeiss Jena, Dynamo Berlim, Dynamo Dresden, Lokomotive Leipzig e Magdeburgo. Juntos, os cinco clubes dividem entre si 87 das 139 participações continentais da Oberliga. E sucessivamente começaram a fazer grandes partidas contra outros clubes tradicionais da Europa. Se o Vorwärts Berlim e Hansa Rostock já viveram campanhas históricas em 1969/70, não estiveram sozinhos. Naquela mesma temporada, o Carl Zeiss Jena alcançou as quartas de final da Copa das Cidades com Feiras, eliminando o Cagliari de Gigi Riva e caindo apenas para o Ajax de Johan Cruyff. Apesar da vitória por 3 a 1 em Jena, o esquadrão de Rinus Michels avançaria graças à goleada por 5 a 1 em Amsterdã.

Por fim, as três temporadas seguintes deixaram bem claro que era possível esperar algo maior da Alemanha Oriental. Em 1970/71, o Carl Zeiss Jena tirou o Sporting da Champions, eliminado pelo Estrela Vermelha nas quartas de final, enquanto Dynamo Dresden e Magdeburgo dificultaram a vida de Ajax e Juventus nas edições posteriores. Clube bancado (e beneficiado) pelo Ministério para a Segurança do Estado, a temível Stasi, responsável polícia política alemã-oriental, o Dynamo Berlim foi até as semifinais da Recopa em 1971/72. Deu adeus à competição nos pênaltis, em “clássico da Cortina de Ferro” contra o Dynamo Moscou. Já na Copa da Uefa de 1972/73, o Dynamo Dresden chegou às quartas de final e só cairia ante o Liverpool de Bill Shankly.

O grande ano: 1974

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Em todas as frentes possíveis, o futebol da Alemanha Oriental viveu momentos históricos durante a temporada de 1973/74. E não apenas por conta da vitória sobre a Alemanha Ocidental na Copa do Mundo de 1974 – a despeito de todas as suspeitas de facilitação que o jogo possui. A equipe nacional chegou tão forte ao Mundial também porque os clubes atravessavam seu esplendor, o que se refletiu nas competições continentais.

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Na Copa dos Campeões, o Dynamo Dresden continuava dando sinais de sua evolução sob as ordens de Walter Fritzsch, técnico histórico do clube. E isso se tornou irrefutável logo nos 16-avos de final, quando os germânicos eliminaram a Juventus. O triunfo por 2 a 0 em Dresden foi decisivo, com um dos gols marcados pelo ídolo  Hans-Jürgen Kreische. Já em Turim, o troco dos bianconeri acabou sendo insuficiente. O placar de 3 a 2 beneficiava os orientais pelos gols fora. Rainer Sachse fez história, ao descontar aos 30 do segundo tempo. Já nas oitavas, o Dynamo faria frente ao lendário Bayern. Durante a ida em Munique, chegou a terminar o primeiro tempo em vantagem, apesar de ceder a virada por 4 a 3. Acabou eliminado pelo empate por 3 a 3 no Rudolf-Harbig-Stadion, em noite inspirada do ataque formado por Uli Hoeness e Gerd Müller.

Na Copa da Uefa, mais um pouco de louros à Alemanha Oriental. Se o Carl Zeiss Jena não impressionou, ficando nos 16-avos de final contra o Ruch Chorzów, o Lokomotive Leipzig compensou, ao sucumbir apenas nas semifinais. E os ferroviários merecem o digno reconhecimento, ao deixarem pelo caminho Torino, Wolverhampton, Fortuna Düsseldorf e o Ipswich de Bobby Robson. Parariam no Tottenham de Bill Nicholson, que acabou com o vice-campeonato, derrotado pelo Feyenoord na decisão.

O torneio que reservou a inédita taça continental foi a Recopa Europeia. O Magdeburgo vinha sendo preparado desde 1966 por Heinz Krügel, antigo técnico da seleção. E se transformou em uma bandeira da Alemanha Oriental fase após fase naquela competição continental. NAC Breda, Baník Ostrava e Beroe Stara Zagora foram as primeiras vítimas. Nas semifinais, bateram o Sporting. Mas nada se compara ao que aconteceu em Roterdã, naquele 8 de maio de 1974.

O Milan era um dos maiores clubes do continente, por mais que vivesse um período de transição. Dirigido por Giovanni Trapattoni, contava com Gianni Rivera e Karl-Heinz Schnellinger entre suas estrelas. Mas não teve forças para se impor contra os alviazuis. O Magdeburgo abriu o placar no De Kuip aos 42 do segundo tempo, cortesia de Enrico Lanzi, com um gol contra. Já aos 29 do segundo tempo, Wolfgang Seguin sacramentou a vitória por 2 a 0. Quatro jogadores do clube foram à Copa de 1974, incluindo Jürgen Sparwasser, autor do gol da vitória sobre a Alemanha Ocidental.

A interferência da Stasi: de 1975 a 1979

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Havia competência esportiva da Alemanha Oriental pelos resultados obtidos por seus clubes. Porém, a interferência do regime era clara. Desde 1969, o futebol estava inserido em um programa especial da ditadura, que permitia o pagamento de “bonificações” aos jogadores – uma espécie de amadorismo marrom, que garantia privilégios aos futebolistas em troca de bons desempenhos. Além disso, o tratamento diferenciado ao lado da natação, do atletismo e do halterofilismo também abria possibilidades no programa estatal de doping, que permitiu ótimos resultados olímpicos ao país. E isso sem contar os casos de intimidação e espionagem relatados na época.

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Todavia, também existia resistência ao sistema. Um bom exemplo disso é o próprio Heinz Krügel, mal visto pelo regime por pregar a reconciliação entre as duas Alemanhas naquele momento histórico. Em 1974/75, o Magdeburgo esteve muito próximo de eliminar o Bayern da Copa dos Campeões. Chegou a abrir dois gols de vantagem em Munique, apesar de tomar a virada por 3 a 2 no segundo tempo. E ia jogando sua vida em casa, quando a Stasi tentou favorecer os alviazuis. No intervalo da partida no Ernst-Grube Stadion, membros da polícia secreta tentaram passar ao técnico do Magdeburgo as instruções que Udo Lattek havia dado aos bávaros. Então, Krügel se recusou a receber as informações, fiel à sua ética. O Bayern avançou com a vitória por 2 a 1 e o treinador acabaria destituído do cargo dois anos depois, sob a alegação de que “ele não estava desenvolvendo jogadores como deveria nas estruturas estatais”.

Em 1976, o gargalo do governo em relação aos “clubes de elite” também aumentou. Apenas seis sustentavam este status: Dynamo Berlim, Dynamo Dresden, Magdeburgo, Carl Zeiss Jena, Lokomotive Leipzig e Vorwärts Frankfurt/Oder – este, transferido da capital para o interior em 1971, aumentando a representatividade do Dynamo Berlim. E um tratado firmado pelas duas Alemanhas neste mesmo período, estreitando as relações esportivas entre os dois territórios, aumentou a paranoia da Stasi em relação ao futebol. A partir de então, os clubes passaram a ser costumeiramente espionados. Técnicos, jogadores e árbitros se tornaram informantes extra-oficiais da polícia secreta. E o controle também era grande nas arquibancadas, para tentar evitar uma “ocidentalização” e possíveis movimentos contra o governo.

Até o final da década, o Dynamo Dresden foi o principal representante da Alemanha Oriental na Champions, mas sem o impacto de outras ocasiões. Chegou a vencer o Liverpool de Bob Paisley em 1977, mas só depois da goleada dos Reds por 5 a 1 no jogo de ida, e alcançou as quartas de final em 1978/79, superado pelo Austria Viena. Na Recopa Europeia, o destaque isolado foi o Sachsenring Zwickau, semifinalista em 1975/76. Protagonizado pelo lendário goleiro Jürgen Croy, a equipe eliminou Panathinaikos, Fiorentina e Celtic, até a derrocada contra o Anderlecht. Por fim, na Copa da Uefa os melhores desempenhos não passariam das quartas de final, com menção honrosa ao Magdeburgo, que enfiou 7 a 3 sobre o Schalke 04 no placar agregado dos 16-avos de final de 1977/78, antes de ser brecado pelo PSV.

Ditadura de um time, sucesso dos outros: de 1980 a 1989

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Se a Stasi tinha um mínimo de pudores ao manter uma elite no futebol da Alemanha Oriental, ele se perdeu completamente a partir de 1978/79. Naquela temporada, pela primeira vez, o Dynamo Berlim conquistava a Oberliga. Seria decacampeão de maneira consecutiva, na maior sequência de títulos da história do país. A hegemonia, contudo, nasceu de maneira um tanto quanto suja. Fanático por futebol e presidente do Dynamo, Erich Mielke também era o Ministro para Segurança do Estado desde 1957 – em outras palavras, o chefe da Stasi. Naquele momento, não existiam mais limites para beneficiar o clube com arbitragens convenientes ou para recrutar os melhores jogadores de outras equipes.

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A principal estratégia de Mielke para manter o Dynamo no topo era simples: ele dava privilégios aos árbitros que beneficiassem seu clube, garantindo as suas indicações para os jogos da Uefa. O problema é que isso não facilitava o caminho da equipe na Champions. Nas dez participações consecutivas, os berlinenses não passaram das quartas de final. A primeira vez que se colocaram entre os oito melhores foi em 1979/80, quando até bateram o Nottingham Forest no City Ground por 1 a 0, mas terminaram engolidos pela equipe de Brian Clough em casa, diante de centenas de oficiais da Stasi nas arquibancadas, com a derrota por 3 a 1. Já em 1983/84, o algoz nas quartas de final foi a Roma de Falcão, construindo o resultado no Estádio Olímpico. O Dynamo ainda teve outros resultados interessantes até 1988/89. Eliminou Partizan e Aberdeen, além de vencer Aston Villa e Werder Bremen. De qualquer forma, parecia pouco para o domínio doméstico.

E se apenas as “competições menores” sobravam ao restante dos clubes da Alemanha Oriental, eles não decepcionavam. A Recopa permanecia como o principal terreno, como ficou claro em 1980/81, quando o Carl Zeiss Jena alcançou a final. A campanha começou de maneira fantástica, revertendo a derrota por 3 a 0 para a Roma na Itália com a goleada por 4 a 0 em Jena. Herói da noite, Andreas Bielau fez os dois últimos gols, carimbando a classificação aos 42 do segundo tempo. Nas fases seguintes, o Carl Zeiss faria mais ao deixar pelo caminho Benfica, Newport County e Valencia. Já na decisão, disputada em Düsseldorf, não seriam páreos ao Dinamo Tbilisi, base da seleção soviética. De virada, os georgianos celebraram o triunfo por 2 a 1, o suficiente para a taça.

Quadrifinalista em 1981/82, chegando a derrotar o Barcelona no Camp Nou durante o confronto em que acabou eliminado, o Lokomotive Leipzig reavivou o sonho na Recopa 1986/87. Glentoran, Rapid Viena, Sion e Bordeaux (este, com um time cheio de estrelas, que atropelaria o Dynamo Berlim na Champions seguinte) ficaram para trás até a final contra o Ajax. Mas os auriazuis estrelados por Olaf Marschall não conseguiram competir com o belo time treinado por Johan Cruyff. Marco van Basten, em seus últimos atos antes de partir ao Milan, determinou a conquista dos Godenzonen marcando o gol da vitória por 1 a 0 no Estádio Olímpico de Atenas.

Por fim, na Copa da Uefa, exceção feita a uma ou outra classificação de maior peso, a única campanha de real destaque até 1989 foi a do Dynamo Dresden justamente na última temporada antes da queda do Muro de Berlim. Aberdeen e Waregem foram os primeiros derrotados, até a imposição sobre a Roma com duas vitórias por 2 a 0. Nas quartas de final, o Victoria Bucareste não ofereceu grande resistência. Já nas semifinais, melhor para o Stuttgart de Jürgen Klinsmann. Destaques daquele time aurinegro, Matthias Sammer (transferindo-se inicialmente aos próprios suábios) e Ulf Kirsten ainda fariam história do lado ocidental na Alemanha reunificada.

A queda do Muro: de 1990 a 1992

Bildnummer: 00973484 Datum: 03.06.1989 Copyright: imago/Dehlis Die Dresdner Meisterelf mit einem Löschfahrzeug auf der Ehrenrunde: Matthias Döschner (vorn) und Ulf Kirsten (li.) mit einem Feuerwehrhelm auf der Rettungsleiter des Wagens; Mathias, quer, Jubel, jubeln, Siegesjubel, Schlussjubel, Schlußjubel, Feuerwehr-Auto, Wagen, Autos, Fan, Fans, Fußballfan, Fußballfans, Zuschauer, Publikum, Feuerwehrauto, Meisterfeier DDR-Oberliga-Saison 1988/1989, Dynamo Dresden, Meister, Meisterschaft, Vdia Dresden Freude, Fußball Herren Mannschaft DDR Totale optimistisch Randmotiv Personen Objekte Kurios

Quando o Muro de Berlim caiu, em novembro de 1989, o futebol da Alemanha Oriental já dava sinais de sua transformação. O Dynamo Berlim perdeu a sua hegemonia, em meio da pressão que afetava a Stasi e dos protestos das outras torcidas contra o clube da capital. Sem nunca realmente atrair o público e sem mais a ajuda das arbitragens, os berlinenses sucumbiram ao final da década. Em junho de 1989, o Dynamo Dresden encerrava a série de títulos com a sua ótima geração de pratas da casa, que já havia honrado o nome do país na Copa da Uefa.

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O ponto é que o fim do regime e o início da reunificação alemã culminou não apenas na derrocada do Dynamo Berlim, mas também abriu as portas para que os principais jogadores da Oberliga saíssem para a Bundesliga. Assim que a federação alemã-oriental regularizou os contratos de seus filiados, o assédio sobre as estrelas foi incontrolável. Quando a seleção da RDA viajou a Viena para enfrentar a Áustria pelas Eliminatórias da Copa de 1990, uma semana depois da queda do Muro, o número de representantes dos clubes alemães era enorme. Todos queriam assegurar as suas pechinchas. E o primeiro a atravessar a fronteira foi Andreas Thom, artilheiro do Dynamo Berlim, que se transferiu ao Bayer Leverkusen em janeiro de 1990.

O fluxo de jogadores alterou o equilíbrio de forças na Bundesliga. O Dynamo Dresden ainda segurou seus protagonistas por mais um ano, conquistando o bicampeonato nacional, mas foi eliminado logo na primeira fase da Copa dos Campeões 1989/90, pelo AEK Atenas. Já na edição seguinte da Champions, mesmo enfraquecido, o time teve um desempenho melhor. Derrotou Union Luxembourg e Malmö, até pegar o Estrela Vermelha nas quartas de final. Não teve chances contra o timaço iugoslavo, que ganhou por 3 a 0 em Belgrado e repetia a dose por 2 a 1 em Dresden, até que a partida precisou ser cancelada por uma chuva de objetos que vinha das arquibancadas. Os alvirrubros se sagrariam campeões.

Na Copa da Uefa e na Recopa, os remanescentes da Alemanha Oriental não fizeram muito melhor. O mais interessante é que, com a nova realidade da Oberliga, novos times fizeram suas estreias nos torneios continentais. Eisenhuttenstadt,Hallescher, PSV Schwerin e Rot-Weiss Erfurt ganharam suas primeiras oportunidades, enquanto Chemnitzer e FC Karl-Marx Stadt ressurgiram após um hiato de décadas. A melhor campanha foi do Karl-Marx Stadt, superado apenas pela Juventus nas oitavas de final da Copa da Uefa 1989/90, após eliminar Boavista e Sion. Nenhum outro time conseguiu ir além disso.

Já o canto do cisne ficou por conta do Hansa Rostock, último campeão da Oberliga antes da unificação com a Bundesliga. Os hanseáticos já faziam campanha surpreendente no campeonato nacional, liderando a competição até a sétima rodada. E apesar da queda na tabela em meados de setembro, mantiveram a honra no duro sorteio que a Copa dos Campeões 1991/92 proporcionou. O Dream Team do Barcelona não tomou conhecimento dos alemães no Camp Nou, ganhando por 3 a 0. Já no reencontro em Rostock, o Hansa carimbou a faixa dos futuros campeões com o triunfo por 1 a 0, gol de Michael Spies. Seria uma das muitas histórias a contar, em uma temporada na qual acabaram rebaixados, mas tirando o título das mãos do Eintracht Frankfurt na rodada final.

A partir de 1992/93, com a extinção da Oberliga, a Alemanha Oriental não teria mais representantes na Liga dos Campeões. Considerando a disparidade econômica e as dificuldades dos clubes de se enquadrarem no novo modelo de mercado, sem mais o apadrinhamento do regime, a mera presença na primeira divisão já representava um enorme feito. No máximo, figurariam na insignificante Copa Intertoto, torneio tampão criado pela Uefa para preencher as lacunas da loteria esportiva e que seria extinto em 2008. O ressurgimento, de fato, dos alemães-orientais no cenário continental se daria com o RB Leipzig. Um clube que ajuda a revitalizar um cenário antes limitado às divisões inferiores, ainda que muita gente torça o nariz para aquilo que ele representa. É ver se times como Union Berlim, Dynamo Dresden e Erzgebirge Aue, os atuais representantes do antigo país na segundona, conseguirão um dia subir de patamar para permitirem-se sonhar.