Besiktas segue fazendo história e, pela primeira vez, vai aos mata-matas da Champions

Desde que a Liga dos Campeões começou a contar com uma fase de grupos, apenas cinco vezes os clubes turcos haviam avançado à etapa seguinte do torneio. O Galatasaray foi responsável por quatro delas. Em 2000/01 e 2001/02, passou à segunda fase de grupos, que na época reunia os 16 melhores da competição; e repetiria o feito com nova dobradinha, presente nos mata-matas em 2012/13 e 2013/14. Já a responsabilidade da outra ocasião ficara com o Fenerbahçe, quadrifinalista em 2007/08. Ao Besiktas, restava apenas cobiçar o feito dos maiores rivais. Mas não mais. Nesta terça, as Águias cumpriram o seu ambicionado objetivo: asseguraram a classificação inédita, graças ao empate por 1 a 1 com o Porto. Conseguiram se garantir naquela que claramente era a chave mais equilibrada desta edição da Champions, e como líderes, algo que nem Galatasaray ou Fener haviam alcançado.

O Besiktas já tinha ensaiado o seu feito em 2016/17. Encarou bem um grupo nivelado contra Benfica e Napoli, mas deixou a vaga escapar na última rodada, ao ser goleado pelo Dynamo Kiev. Apesar disso, manteve a sua honra na Liga Europa, chegando às quartas de final (seu melhor desempenho na história das competições europeias) e se despedindo do torneio depois de duas partidas memoráveis contra o Lyon. E os bicampeões turcos indicavam ter gás para mais, investindo em um elenco bastante experiente, cheio de jogadores acostumados com o mais alto nível de pressão. Deu ainda mais liga nesta temporada.

A campanha na primeira metade da fase de grupos foi muito acima da média. O Besiktas manteve os 100% de aproveitamento, derrotando Porto e Monaco fora de casa, além de amassar o RB Leipzig em Istambul. O rendimento caiu um pouco nas últimas duas rodadas, com dois empates. Mas já suficientes para assegurar a presença do time de Senol Günes nas oitavas de final. Nesta terça, os turcos ficaram no 1 a 1 com o Porto na Vodafone Arena. O zagueiro Felipe abriu o placar aos lusitanos aos 29 minutos, enquanto Anderson Talisca deixou tudo igual pouco antes do intervalo, graças a uma jogadaça individual de Cenk Tosun. E as Águias tiveram as melhores chances para virar, com Ryan Babel carimbando o travessão e o goleiro Jorge Sá segurando o resultado aos portistas com um milagre em chute de Ricardo Quaresma.

O sucesso do Besiktas se concentra principalmente nos medalhões do elenco. Adriano, Pepe, Ryan Babel e Quaresma formam a espinha dorsal dos alvinegros. Além disso, Cenk Tosun e Anderson Talisca conquistaram o devido destaque por tudo o que vêm jogando desde a temporada passada, especulados em outras ligas maiores do futebol europeu. Mas não dá para ignorar o que faz Senol Günes, sem dúvidas entre os treinadores mais significativos da Europa Oriental.

Terceiro colocado na Copa do Mundo de 2002, Günes tinha seus principais trabalhos à frente do Trabzonspor – no qual o ex-goleiro possui um status parecido ao de Rogério Ceni, símbolo de uma era vitoriosa e tão idolatrado a ponto de batizar o novo estádio do clube. Seis vezes campeão nacional em seus tempos de jogador, foi quatro vezes vice como técnico e ainda levou duas Copas da Turquia. Todavia, por incrível que pareça, o comandante nunca havia tido uma chance no trio de ferro de Istambul. O Besiktas quebrou a escrita em 2015, ao convidá-lo para o cargo. E desde que o veterano chegou à Vodafone Arena, iniciou um dos períodos mais vitoriosos dos alvinegros, bicampeão turco e rompendo barreiras nas copas europeias.

O histórico geral do Besiktas na Champions, desde o período pré-Liga, valoriza a conquista atual. Nos tempos de Copa dos Campeões, as Águias venceram apenas dois duelos eliminatórios em oito participações, ambos na mesma edição, em 1986/87. Bateram o Dinamo Tirana em campo e superaram o Apoel Nicósia por W.O., depois que os greco-cipriotas se recusaram a enfrentar os turcos por motivações políticas, diante de toda a disputa territorial na ilha. Assim, os alvinegros passaram automaticamente às quartas de final, perdendo para o Dynamo Kiev. Já a partir de 1992/93, foram mais dez fracassos nas preliminares ou na fase de grupos, até darem o passo além nesta temporada.

O sucesso do Besiktas a partir das oitavas de final depende basicamente da sorte. Os turcos já garantiram o primeiro lugar, independentemente do resultado contra o RB Leipzig na última rodada. Têm boas chances de pegar um adversário de mesmo nível nos mata-matas. Mas há outros bicho-papões que estarão no pote dos segundos colocados e poderão complicar a sua vida. De qualquer forma, é um time ao menos que tende a dificultar aos gigantes, botando enorme pressão em Istambul e sabendo se portar longe de seus domínios. A temporada histórica na Champions seguirá em frente por mais alguns jogos. E com o clube vendo o caminho aberto para investir em potenciais reforços de peso (entenda-se: medalhões) em janeiro.