Com Kane letal, o Tottenham devorou o Dortmund, mas os aurinegros têm seus motivos para chiar

A participação do Tottenham na última edição da Liga dos Campeões deixou algumas desconfianças sobre o time de Mauricio Pochettino – e com razão. Embora fosse um grupo equilibrado, dava para se sair muito melhor e descolar a classificação às oitavas de final. Assim, a cobrança sobre os Spurs aumenta para 2017/18, desta vez em uma chave com dois rivais bem mais pesados. E a resposta veio logo de cara, com a expressiva vitória sobre o Borussia Dortmund nesta quarta. Há motivos para se questionar o resultado, especialmente sobre duas decisões da arbitragem que prejudicaram os alemães – e com um gol de Aubameyang indiscutivelmente mal anulado. Contudo, diante daquilo que foi validado, o Tottenham teve uma postura bem mais contundente. Sem perdoar os erros e contando com uma noite infernal de Harry Kane e Heung-Min Son, venceu por 3 a 1 em Wembley. Atuação tão boa que até o estádio, motivo de reclamações por sua frieza, se incendiou com a empolgação da torcida.

Pochettino escalou um Tottenham resguardado, com três homens no miolo de zaga, além de Heung-Min Son e Cristian Eriksen recompondo a partir das pontas. O desenho tático no 5-4-1 mantinha a solidez defensiva, mas potencializava as saídas para os contra-ataques. Enquanto isso, Peter Bosz precisou lidar com seus desfalques, sem abrir mão de seus conceitos. O 4-3-3 chamava atenção principalmente pelo trio de ataque, com Andriy Yarmolenko fazendo a sua primeira partida como titular, na ponta direita, ao lado de Christian Pulisic e Pierre-Emerick Aubameyang.

E o início do jogo, incessante, começou com um gol de Son logo aos quatro minutos. Contra-ataque perfeito do Tottenham, com Harry Kane aproveitando a avenida pela ponta esquerda para lançar o sul-coreano. O camisa 7 pedalou para cima de Sokratis Papastathopoulos e, mesmo sem ângulo, soltou a bomba. Sem fechar direito o canto da trave, Roman Bürki não evitou. Em desvantagem, o Borussia Dortmund tomava a iniciativa. Logo se posicionou no campo de ataque e pressionou as linhas de marcação dos Spurs. O empate não demoraria a sair, aos 11, graças ao brilhantismo de Yarmolenko.

O primeiro gol do camisa 9 por seu novo clube será lembrado por muito tempo. Yarmolenko demonstrou uma categoria imensa, ao tabelar com Shinji Kagawa e arriscar o chute de fora da área, tirando o peso da bola. O arremate veio sem tanta força, mas muitíssimo bem colocado, caindo no ângulo, sem qualquer chance de defesa para Hugo Lloris. Para desgosto de sua torcida, o Dortmund mal pôde comemorar.

Aos 14, Harry Kane retomou a vantagem. O lance foi bem parecido com o do primeiro gol. Após lançamento de Jan Vertonghen, o artilheiro partiu em velocidade no contragolpe. Deixou dois aurinegros pelo caminho, em lances nos quais os adversários pediram falta. E, ao invadir a área, novamente mirou o chute rente a trave, contando com a complacência de Bürki. Foram 15 minutos de tirar o fôlego em Wembley.

A partir de então, a intensidade do jogo continuou alta, mas sem tantas oportunidades de gol. A bola era toda do Borussia Dortmund, que chegou a ter 75% de posse nos 30 minutos finais do primeiro tempo e trabalhava bem em seu meio-campo, mas nem sempre encontrava os espaços necessários para ameaçar o Tottenham. Pulisic era a principal arma dos aurinegros neste momento. Primeiro, teve um cruzamento salvo por Vertonghen na pequena área. Depois, em contragolpe dos alemães, ficou a centímetros de completar da melhor maneira o passe de Auba. Por fim, já nos minutos finais da etapa inicial, balançou as redes. Entretanto, o tento acabou corretamente anulado por interferência de Aubameyang, impedido.

O Tottenham acordou no início do segundo tempo. A posse de bola ainda era do Dortmund, mas os Spurs movimentavam-se bem pelos lados, especialmente com Son e Eriksen. Criaram algumas oportunidades, sem finalizar da melhor maneira. Já aos 11 minutos, no primeiro chute do Dortmund no segundo tempo, aconteceu o lance capital do jogo. Após cruzamento da direita, Aubameyang pegou de primeira e venceu Lloris, naquele que seria o novo empate do Dortmund. O assistente, no entanto, assinalou o impedimento – erroneamente. Embora outros jogadores aurinegros estivessem em posição irregular, a situação do artilheiro era legal. Foi um enorme banho de água fria aos alemães.

Cinco minutos depois, o Tottenham sacramentou a sua vitória. Bola muito bem trabalhada pelo ataque, em que a defesa do Dortmund também cochilou. Eriksen passou para Kane, livre de marcação. O artilheiro chutou cruzado e a bola ainda deu um leve desvio em Piszczek antes de entrar. O Dortmund não reagiria. Peter Bosz realizou suas três alterações, mas não modificou o espírito da equipe. Na melhor chance, Aubameyang parou em defesaça de Lloris. Ainda assim, os Spurs ameaçavam bem mais e estiveram próximos do quarto. Bürki espalmou a tentativa de Ben Davies, enquanto Kane bateu para fora quando estava no mano a mano. Ao final, Pochettino aproveitou para tirar Son e Kane, ovacionados pela torcida. Já nos acréscimos, Vertonghen recebeu o segundo amarelo e foi expulso, ao deixar o braço no rosto de Mario Götze.

Decisões contestáveis da arbitragem à parte, o Dortmund fez uma partida razoável com a bola. A postura ofensiva agradou durante 60 minutos, embora faltasse um pouco mais de criatividade para gerar ocasiões claras. Só que a sequência entre o gol anulado e o terceiro tento dos ingleses fez os aurinegros se perderem. De qualquer forma, seria difícil imaginar uma vitória, diante de atuação tão desastrosa da defesa – especialmente de Piszczek. Os desfalques atrapalham e quem esteve em campo não ofereceu o mínio de resistência ao letal contra-ataque dos Spurs. Peter Bosz terá que trabalhar muito para solucionar uma carência que vem de anos.

O Tottenham, por sua vez, sai satisfeito. Polêmicas à parte, foi melhor durante a maior parte do tempo. Modificou um bocado o seu estilo, ao precisar jogar bastante sem a bola, mas se defendeu bem, especialmente pela liderança de Vertonghen e Alderweireld. Os laterais, motivos de desconfiança, não comprometeram. E as três principais referências do ataque escancararam as suas virtudes. Pode não ter sido a atuação mais inspirada, mas a verticalidade e a precisão construíram uma vitória já fundamental na briga por uma das vagas do Grupo H, que ainda tem o Real Madrid pela frente.