Estive em um jogo lado B da Champions. E vi Jonathan Balotelli decidir

Por Carlos Ghiraldelli

Cheguei a Skopje, capital da Macedônia, no último sábado. Como sempre, entro na internet pra ver se tem algum jogo de futebol possível de assistir durante minha estada. Em julho, época de entressafra futebolística, quase nunca tem nada, mas qual não foi minha surpresa ao descobrir que, três dias depois, o Vardar, time local, iria receber o Copenhague, pela terceira rodada qualificatória da Champions League?

LEIA MAIS: Jonathan Balotelli vira destaque na Champions e marca belo gol contra o Copenhague

Melhor do que isso foi conversar com o recepcionista do hostel e descobrir que ele era um torcedor fanático do Vardar. O brilho nos olhos dele foi revelador: “Levar um brasileiro para o jogo do meu time da Macedônia? Sim, vamos!”.

Martin Mitevski é, na verdade, mais do que apenas um torcedor do Vardar. Nascido em 1994, ele veio ao mundo logo em seguida ao início da dissolução iugoslava e já é um orgulhoso cidadão macedônio. Nunca viu nenhum time de seu país natal disputar uma fase final de competição europeia, seja entre seleções ou entre clubes.

Isso explica um pouco da excitação com o jogo que aconteceria no dia 25, última terça-feira. Não que a cidade respirasse o confronto com os dinamarqueses, claramente favoritos. Na verdade, o esporte de Skopje é o handebol – o time masculino do Vardar acabou de se sagrar campeão europeu de clubes pela primeira vez. Mas a parcela da população que acompanha a equipe de futebol estava claramente ansiosa e nervosa com o jogo. Imagine só: passar pelo Copenhague significa se classificar para os play-offs finais da Champions, o que garante pelo menos uma vaga na Liga Europa de  2017/18, feito inédito para um time da Macedônia.

A terça chegou e lá fomos nós para o jogo, que aconteceria na Arena Filip II, que também será palco da final da Supercopa Europeia entre Real Madrid e Manchester United, em pouco mais de uma semana. Mal sabia eu que um brasileiro seria a estrela da noite.

A atmosfera

Pré-jogo é pré-jogo em qualquer lugar: cantoria em torno do estádio (que aliás fica localizado em uma região belíssima, entre um parque e o rio Vardar), amigos confraternizando, cerveja e petiscos. Martin e Hrista, o dono do hostel, foram nossos anfitriões e não deixaram os brasileiros pagarem nada, nem as cervejas, nem o ingresso, que custa em torno de € 5 (equivalente a R$ 18).

Muitas bandeiras macedônias e muitas camisas do time de handebol – parecido no Brasil com os jogos de vôlei ou basquete, quando os torcedores vão aos ginásios com as camisas do time de futebol.

Na entrada, uma aglomeração absolutamente normal para quem está acostumado aos estádios brasileiros. Mas Martin me pedia desculpas: “Normalmente não é tão cheio assim, desculpe a bagunça”. Os macedônios são muito simpáticos.

Depois de meros 15 minutos de fila, meu amigo macedônio se espanta quando digo para ele que já esperei muito mais para entrar em um jogo no estádio Martins Pereira, em São José dos Campos (São Paulo), em um confronto que certamente tinha menos de duas mil pessoas presentes.   Já dentro do estádio, eu que me espanto: apenas metade do estádio recebe o público, já que entre 15 e 20 mil pessoas acompanham o Vardar.

No jogo classificatório anterior, contra o sueco Malmö, a equipe da casa foi obrigada a jogar a 200 quilômetros de distância de Skopje. Por isso, faixas com os dizeres “Uefa máfia” se espalhavam pelo estádio, mas eram rapidamente contidas pelos fiscais.

A torcida organizada do Vardar, que não por acaso fica à esquerda no estádio, é chamada de Komiti (comitê), em homenagem a um grupo com o mesmo nome que se organizou contra os otomanos, em tempos passados. E são daquelas torcidas que estamos acostumados a ver: movidos a cerveja, cantam e pulam durante os 90 minutos. Sensacional.

O jogo

Era notável a tensão dos torcedores do Vardar. O Copenhague (ainda) é o favorito para a vaga. Mas eles acreditavam, claro, no novo bicho-papão macedônio: o Vardar ganhou cinco vezes o Campeonato Macedônio nos últimos seis anos. Graças a um mecenas russo (Sergey Samsonenko) que comanda o clube e contrata estrelas como os brasileiros Jonathan Balotelli (atacante, guarde esse nome) e o meia Juan Felipe.

Os dois são dos jogadores mais festejados pela torcida, ao lado de dois macedônios: o jovem volante Spirovski, que carimba todas as ações do time, e o experiente Grncharov, zagueiro rebatedor e capitão.

Dois torcedores macedônios que me descobriram brasileiro nas arquibancadas me encheram de perguntas sobre Jonathan Balotelli. Quantos anos tem? Onde jogava? O que você acha dele? Eu, claro, não tinha a menor ideia do que responder.  Até que, meio sem graça, emendei um “ele não é tão famoso no Brasil”. Infelizmente, não consigo reproduzir a cara de espanto da dupla. Martin interveio: “o Brasil tem muitos jogadores bons, o Balotelli é só mais um”.

Eu sorri e concordei, mesmo achando que ele não era mais um dos bons valores brasileiros. Mesmo que seja apenas nesse jogo, me enganei. Ao lado de Spirovski, o atacante brasileiro foi o melhor em campo. Centroavante forte, que faz um excelente pivô, e habilidoso, Jonathan Balotelli fez uma ótima partida. Criou e perdeu uma boa oportunidade no início do segundo tempo e marcou um belíssimo gol, que fez a torcida explodir. Em seguida, fez uma excelente jogada pela ponta direita (com direito a caneta no zagueiro adversário) e só rolou para o meia montenegrino Kojasevic matar o jogo. Mas ele perdeu o que seria o segundo gol.

O sentimento

No fim do jogo, com Jonathan Balotelli sendo ovacionado pela torcida, a sensação dos apaixonados pelo Vardar era de “fizemos o que tínhamos que fazer”. Para eles, passar pelo Copenhague é um sonho. Que está perto de se tornar realidade, mas ainda é só um sonho. Pelo que senti nas conversas, os torcedores do Vardar querem passar para a outra fase, mas preferem jogar a Liga Europa  do que a Champions. “Na Liga Europa, temos chances de fazer alguma coisa. Na Champions, é impossível”.

O jogo de volta é no próximo dia 2 de agosto, na Dinamarca. E pelo que vi no primeiro jogo, o Vardar tem chances reais de classificar e fazer história. Não posso negar que estou torcendo por isso. Voltarei para o Brasil um pouco torcedor do Vardar. Cheio de ótimas recordações e com três camisas do time na bagagem.