Mais uma vez, o duelo entre Celtic e Linfield pela Champions foi repleto de hostilidade

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Não se esperava menos animosidade no segundo jogo entre Celtic e Linfield pela Liga dos Campeões. Pouco importava se o confronto já estava praticamente resolvido, com a vitória dos Bhoys por 2 a 0 em Belfast. Muito menos se, desta vez, não houvesse uma data simbólica ao sectarismo entre católicos e protestantes para aumentar o ranço. O primeiro encontro já tinha sido suficiente para deixar o rastro de pólvora até Glasgow, com as provocações e as tensões que aconteceram no Windsor Park. Elas se repetiram em Parkhead nesta quarta, quando os escoceses venceram por 4 a 0 os norte-irlandeses – de torcida protestante, unionista e ligada historicamente ao Rangers. A goleada valeu a classificação à próxima etapa preliminar da Champions, ainda que o futebol tenha ficado em segundo plano.

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Cerca de 1,5 mil torcedores do Linfield seguiram a Glasgow. Ao contrário do que aconteceu em Belfast, quando o Celtic não vendeu ingressos aos seus torcedores e apenas 300 se aventuraram por sua conta e risco nas arquibancadas, o acesso à torcida visitante não foi tão restrito. O que não significa que a organização da partida se descuidou da segurança. Pelo contrário, um alto contingente de policiais acompanhou os norte-irlandeses em seu caminho até Parkhead. Proteção necessária, diante do clima que encontrariam ao longo dos 90 minutos.

A Green Brigade, famoso grupo de ultras do Celtic, deu suas “boas-vindas” com mensagens claras. Ergueu dois bandeirões em referência ao IRA, grupo paramilitar irlandês de papel central na guerra entre republicanos e unionistas. Em um dos bandeirões, a imagem de um soldado. No outro, Brendan Rodgers aparecia dentro de um triângulo vermelho. O que pode parecer banal, porém, fazia uma referência pesada: a imagem representa o chamado South Armagh Sniper, nome dado aos atiradores que participaram de uma campanha contra as forças de segurança britânicas nos anos 1990.

Mas não que a torcida do Linfield fosse apenas vítima. Diversas bandeiras do Reino Unido e mensagens unionistas dominavam o setor visitante. Além disso, os norte-irlandeses entoaram cânticos sectaristas e tentaram romper a barreira de segurança rumo a uma área das arquibancadas dedicada a famílias, ao lado de onde ficaram. Eram respondidos na voz pelos demais.

Apesar do ódio nos dizeres, a atmosfera inflamada em Parkhead impulsionou o futebol. E os torcedores da casa puderam gritar mais alto com a goleada por 4 a 0. Alvo de ataques racistas dos norte-irlandeses às vésperas do primeiro jogo, Scott Sinclair marcou dois gols, inclusive o que abriu o placar, aos quatro minutos. Tom Rogic fez o dele no início do segundo tempo, enquanto Stuart Armstrong fechou a conta nos acréscimos derradeiros. Personagem principal em Belfast, por ser alvo de objetos atirados pela torcida e por provocar amarrando um cachecol na trave, Leigh Griffiths não jogou, lesionado. Ele e os dois clubes foram indiciados pela Uefa, por conta dos incidentes na ida. Não é de se duvidar que a entidade aja de novo pela volta.

A partida,  ao menos até o momento, não trouxe consequências mais sérias às torcidas. Será um episódio historicamente lembrado pela hostilidade, típica dos anos mais intensos dos conflitos na Irlanda, mas que não descambaram a uma violência física. Independentemente do sucesso do Celtic na competição, enfrentando o Rosenborg na terceira etapa preliminar, esta Champions já está marcada para sempre aos Bhoys.