Napoli, Roma e o desafio de colocar um “outro italiano” nas quartas da Champions após uma década

Inquestionavelmente, o “trio de ferro italiano” está entre os gigantes da Liga dos Campeões. Milan, Internazionale e Juventus conquistaram 12 vezes a taça continental, o mesmo tanto que todos os clubes ingleses juntos. São 25 finais disputadas, mais do que Real Madrid e Barcelona combinados. Porém, a relevância da Serie A na Champions não vai muito além disso. Por mais que o Calcio tenha vivido uma era gloriosa entre as décadas de 1980 e 1990, o sucesso de seus demais timaços acabou limitado à Recopa e (principalmente) à Copa da Uefa, em tempos nos quais cada país só tinha direito a um representante (no máximo dois, no caso do vigente dono do troféu) na Copa dos Campeões. Apenas outros três clubes alcançaram a final da Champions, e sem erguer a Orelhuda: Fiorentina (1957), Roma (1984) e Sampdoria (1992). E o pior é que a Itália não tem nenhum outro semifinalista além destes. Responsabilidade de honrar o resto do país, que desta vez recai sobre Napoli e Roma.

Os italianos teriam motivos para se animar nesta temporada da Champions. Primeiro, pelo bom nível técnico apresentado pelos clubes na Serie A. Depois, pela reaparição do terceiro representante do Calcio na fase de grupos, o que não acontecia desde 2013/14, diante dos recorrentes vexames nos playoffs qualificatórios. Além do mais, tanto Napoli quanto Roma vêm se apresentando bem nos últimos meses. Os napolitanos acabaram não ofereceram tanta resistência ao Real Madrid nas oitavas de final da última temporada, mas exibem um futebol dos mais deslumbrantes do continente, com o jogo voraz orquestrado por Maurizio Sarri. A Roma, por sua vez, não empolgou muito na Liga Europa. De qualquer forma, fez um papel bastante digno no Italiano, também jogando de maneira ofensiva. Esperanças de que o sol brilhasse na Liga dos Campeões mais ao sul de Turim.

O problema veio no chaveamento. O Napoli ainda é favorito para a classificação. Depois de demolir o Nice e encerrar o trauma nos playoffs, os celestes pegarão Manchester City, Shakhtar Donetsk e Feyenoord. Deram certa dose de azar, ao se cruzarem com adversários relativamente duros dos potes 2 e 4, mas se safaram diante dos campeões ucranianos, um dos cabeças de chave mais fracos. A Roma, por sua vez, viu seu destino ficar opaco no sorriso amarelo de Francesco Totti ao revelar as bolinhas durante o sorteio. Não bastasse o Chelsea, o Atlético de Madrid também veio no pacote, além do Qarabag. Os giallorossi terão que jogar o fino para conseguir superar a desconfiança e conseguir se meter entre os dois primeiros.

E as perspectivas históricas do “resto da Itália” na Champions não são boas. Se para a Juventus parar nas quartas de final pode representar uma grande decepção, para os outros já seria um feito inédito há uma década. Desde que a Copa dos Campeões se transformou em Liga dos Campeões, em 1992/93, apenas três vezes os “demais italianos” foram quadrifinalistas: a Lazio em 1999/00, caindo para o Valencia; e a Roma, em duas oportunidades consecutivas, 2006/07 e 2007/08. Em ambas o Manchester United se tornou o algoz dos giallorossi. E aquela goleada por 7 a 1 em Old Trafford, com show de Cristiano Ronaldo, certamente traz uma lembrança muito mais dolorosa aos torcedores do que seria uma possível eliminação contra o Lyon na etapa anterior. Napoli, Fiorentina, Parma e Udinese, que também apareceram no torneio ao longo destes 25 anos, sequer alcançaram tal patamar.

Desde 2008/09, são nove aparições de italianos além do trio de ferro a partir da fase de grupos. A Roma teve quatro chances, caindo em três delas nas oitavas de final – quase sempre com requintes de crueldade. O Napoli tentou três vezes, caindo em duas oitavas para os futuros campeões, Chelsea (2012) e Real Madrid (2017). E a Fiorentina ainda buscou manter a honra duas vezes, mas esbarrou no Bayern nas oitavas de final de 2010. De resto, são anos de pouca representatividade além da Juventus-Inter-Milan, e isso com a ressalva da queda de desempenho dos milaneses, que sequer figuram na Champions desde 2013/14.

Vale dizer ainda que, mesmo na “era Copa dos Campeões”, as aparições dos italianos lado B nas quartas de final eram bastante esporádicas. Além das campanhas supracitadas de Fiorentina, Roma e Sampdoria, que renderam o vice-campeonato, apenas a Viola em 1969/70 conseguiu se colocar entre os oito melhores da Champions. Naquela ocasião, o time estrelado por Amarildo conseguiu superar o Dynamo Kiev, mas não passou pelo Celtic de Jock Stein. No mais, nem Napoli de Maradona, Verona de Elkjaer, Lazio de Chinaglia, Cagliari de Riva, Bologna de Haller ou Torino de Graziani tiveram sucesso maior. Os napolitanos, inclusive, sucumbiram duas vezes: para o Real Madrid, num “azareio” danado logo na primeira fase de 1987/88, e para o Spartak de Moscou, nas oitavas de 1990/91. Em tempos nos quais os clubes costumavam disputar dois duelos serem quadrifinalistas, não era pedir demais.

Agora, Napoli e Roma também precisam contar, além da competência, também com um bocado de sorte. Se jogarem o fino nos confrontos diretos com o Manchester City, os celestes podem até sonhar com a primeira colocação de seu grupo, o que potencialmente facilitaria o caminho das pedras rumo às quartas de final. Já a Roma certamente se dará por contente se descolar o segundo lugar, desbancando Chelsea ou Atlético de Madrid. Aí é torcer muito para Totti não dar de novo as más notícias no sorteio das oitavas. A necessidade de elevar o moral (e o próprio coeficiente) é um tanto quanto urgente.