O Real Madrid e o sonho que raríssimos se permitiram: ser tricampeão da Champions

Zidane: bicampeão europeu (Foto: Getty Images)

*Por Leandro Stein

Quando o Real Madrid conquistou a Liga dos Campeões na última temporada, não apenas reafirmou a sua força na Europa. Os merengues também quebraram uma marca que durava quase três décadas. Desde o lendário Milan de Arrigo Sacchi, a Champions não tinha um bicampeão. Não acontecia desde os tempos em que o torneio era disputado apenas em mata-matas. E se o time de Zinedine Zidane já alcançou um patamar histórico, limitado apenas a equipes memoráveis, ele tem a chance de cruzar uma fronteira ainda mais restrita. De se juntar ao nível de três esquadrões que figuram na maioria das listas dos melhores de todos os tempos. De ser tricampeão europeu.

Apenas três times conseguiram emendar três títulos consecutivos na antiga Copa dos Campeões. O próprio Real Madrid de Di Stéfano e tantas outras feras, que só pararia em seu pentacampeonato nos anos 1950; o Ajax do gênio Johan Cruyff, imparável no início dos anos 1970; e o Bayern de Munique estrelado por Franz Beckenbauer, Gerd Müller e Sepp Maier, digno herdeiro dos Godenzonen no trono. Depois disso, ninguém mais conseguiria a façanha. Os merengues têm o direito de ambicioná-la, com um time que não começou tão bem a temporada, mas já demonstrou seu espírito copeiro em jogos grandes várias vezes ao longo dos últimos meses.

Todos os tricampeões anteriores, porém, enfrentaram turbulências ao longo do percurso. Levando em conta apenas as três primeiras taças do penta nos anos 1950, o Real Madrid chegou a trocar de técnico logo após o segundo ano, diante dos entraves contratuais para renovar o vínculo de José Villalonga. Além disso, a renovação de forças foi contínua, com Ferenc Puskás protagonizando o ataque apenas a partir do tetra. No Ajax, Rinus Michels já tinha deixado Amsterdã antes mesmo do segundo título, rumando ao Barcelona. Foi Stefan Kovacs quem manteve a senda de vitórias aos alvirrubros, auxiliado pela liderança de Cruyff em campo. Já o Bayern de Munique demitiu Udo Lattek em meados de 1975, por uma série de resultados ruins. Deixou seu legado para Dettmar Cramer completar a sequência, mas sofrendo com a distância para o Borussia Mönchengladbach no cenário doméstico.

Esses antecedentes não querem dizer que Zizou precisa deixar o cargo para que o atual time merengue complete sua façanha, longe disso. Mas simboliza que nem os maiores esquadrões estão imunes às crises. Tudo bem que o formato da Champions exigia menos regularidade na época. Mas a arrancada necessária nos mata-matas não muda. Quase todo grande time precisa se revolucionar internamente para manter a hegemonia por tanto tempo. Este talvez seja o segredo que marque verdadeiramente a longevidade, ainda que um olhar mais geral nem sempre perceba tantas nuances e percalços ao longo do caminho.

Em contrapartida, há os bicampeões que não completaram sua rota rumo ao tri. “Amaldiçoado” por Béla Guttmann, o Benfica sucumbiu na final contra o Milan em 1963, tomando a virada no segundo tempo. A Internazionale de Helenio Herrera continuou forte, mas não resistiu ao Real Madrid nas semifinais de 1966 e receberia a pá de cal um ano depois contra o Celtic na decisão de 1967. O Liverpool de Bob Paisley parou logo na primeira fase de 1978/79 contra o Nottingham Forest de Brian Clough. Que, por sua vez, seria superado pelo CSKA Sofia tão cedo quanto em 1980/81. Por fim, o Milan só se despediu nas quartas de final de 1990/91 quando dois refletores no Estádio Vélodrome se apagaram e, precisando de um gol para forçar a prorrogação contra o Olympique de Marseille, o time se recusou a voltar a campo para disputar os instantes finais dos acréscimos.

Há muito do imponderável em qualquer campanha de sucesso. Uma noite mais inspirada de um jogador específico, um lance fortuito, a sorte no chaveamento durante certo momento de baixa. O próprio Real Madrid já passou por isso no atual bicampeonato. Porém, não se nega a competência. E os merengues também possuem virtudes de sobra para chegar tão longe. É um elenco individualmente brilhante, com um coletivo que se encaixou perfeitamente na hora de jogar seu futebol vertical e bem trabalhado. Possui um craque extremamente decisivo na frente, embora o grande diferencial da última temporada tenha sido o equilíbrio encontrado em seu meio-campo, tão talentoso quanto abnegado. A bola redonda jogada por Casemiro, Kroos, Modric e Isco preponderou.

Neste momento, existem certos entraves para o Real Madrid superar. As atuações vacilantes de jogadores importantes, mais especificamente Karim Benzema e Gareth Bale, cobram uma resposta imediata. Marco Asensio se coloca como uma excelente alternativa, mas os medalhões também são necessários, até porque o elenco madridista não possui tantas opções assim para a linha de frente. Zidane depende da afirmação de outros garotos que ganham créditos. Da mesma forma que alguns nomes mais rodados precisam render em mais de uma função, como já se viu em algumas partidas ao longo dos últimos meses. Isco talvez seja o melhor exemplo disso, pela multifuncionalidade em sua reinvenção no Bernabéu.

Antes de almejar diretamente na Orelhuda, o Real Madrid tem um longo caminho a percorrer. E por mais que os merengues não costumem encontrar dificuldades para se impor nas fases inicias da competição, o Grupo H oferece certa dose de desafio, com a presença de Borussia Dortmund e Tottenham, além do Apoel Nicósia. Serão bons testes para os bicampeões europeus se prepararem ao que realmente vale, os mata-matas. De qualquer forma, parece natural pensar ao menos um pouquinho no tricampeonato. É uma possibilidade que apenas outras oito equipes no passado tiveram chances concretas de vislumbrar. Os madridistas podem se permitir um pouquinho deste sonho, mas sem perder a realidade no horizonte. O Real Madrid de Di Stéfano, o Ajax de Cruyff, o Bayern de Beckenbauer e… o Real Madrid de Cristiano Ronaldo?