Vai, Buffon, vai buscar seu sonho: vai buscar a taça que você merece e te precisa

“Sonhar serve para mirar alto, para pensar grande, para se melhorar. Mas viver um sonho não basta. Chegar à final não basta. Participar não basta. Seremos recordados por nossas ações. Por nossa capacidade de transformar o impossível em realidade”.

Gianluigi Buffon

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Por Leandro Stein

A gana era visível a todo instante. O sonho, tão bem traduzido em palavras por Buffon, mas também explícito em cada uma de suas ações durante a vitória sobre o Monaco em Turim. No abraço caloroso em Chiellini pela bola salva na pequena área e no beijo em Daniel Alves, correndo até o meio de campo, para agradecer o segundo gol. No impulso que proporcionou o contra-ataque fatal do primeiro tento e na concentração para mais uma de suas incontáveis defesaças. Sobretudo, na vibração ao apito final. A cena que se repete, de braços abertos e punhos fechados, de tapas no peito, de urros de alegria. Do Buffon incansável e intenso. Do Buffon sonhador, que persegue a Champions. E a merece.

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O ritual ao término da semifinal ressalta bastante o caráter do goleiro. Abraçou os companheiros, um a um, para celebrar o suor que se derrama no dia a dia, e mais nos jogos. Cavalheiro que é, consolou também os adversários, em especial Kylian Mbappé, a quem parece ter adotado como aprendiz de ídolo. E, justamente por ser ídolo imensurável, dedicou bons minutos aos torcedores. Misturou-se a eles, mostrou mais uma vez que é um deles. Foi o último a deixar o campo, enquanto entrava em comunhão com a massa bianconera. Pela última vez nesta Champions, antes da viagem a Cardiff.

Mais que seu senso de posicionamento, seu tempo de reação ou seu poder de decisão, a principal virtude de Buffon é outra. Não se resume às suas habilidades como goleiro, embora estas sejam imensas. O diferencial do camisa 1 está em sua paixão, o fator que eleva o nível de excelência de um profissional já excepcional. Que há anos se coloca entre os melhores da história. Que faz tudo o que faz por mais de duas décadas. E esse Buffon apaixonado se exacerba naquilo que falta para completar seu sonho. Naquilo que pode deixar uma trajetória brilhante ainda mais completa.

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Esta paixão transformou Buffon em menino pendurado ao travessão durante a Eurocopa, de tantas atuações monstruosas, apesar da queda nas quartas de final. É esta paixão que se repete e se repete na Liga dos Campeões, seu objetivo escancarado no momento derradeiro da carreira. A paixão que ferveu seu sangue e acelerou seus movimentos para os milagres contra Fekir, Iniesta ou Germain. A paixão que ajudou o “Clark Kent”, de partidas errantes em meados de outubro, virar novamente Superman – um Superman batizado Gianluigi. A paixão que, mais do que um goleiraço, motiva o grande líder da Juventus. O coração do time. O coração que bate mais forte, à medida que se aproxima da taça.

Campeão da Copa da Uefa em 1999, quando ainda era um jovem fenômeno de 21 anos pelo Parma, Buffon terá sua terceira grande chance de conquistar a Champions. De buscar o título que ele tanto merece. De, enfim, proporcionar a cena tão esperada e ausente ao troféu, com as luvas a agarrando pelas orelhas, reluzindo entre as mãos santificadas. Em 2003 e 2015, se esta imagem não se eternizou não foi por culpa do camisa 1. Aliás, ele fez o impossível para tocá-la. A prova disso está evidente nas defesas contra Pippo Inzaghi, em Manchester, e Daniel Alves, em Berlim. Apesar disso, seria preciso um pouco mais do todo para chegar até ela.

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Se você reparar bem na lista de goleiros vencedores da Champions durante os últimos anos, os melhores que passaram pelo futebol europeu estão lá. Quase todos. Há uma lacuna óbvia. Se você olhar a lista de títulos recentes da Juventus, há também um espaço em branco para ser preenchido. Se você ler o currículo de Buffon, já sabe a impressão que terá. E não é apenas para premiar um gênio sob as traves, para completar sua lista de façanhas por clubes. É para coroar o reconhecimento a um cara que se entregou incessantemente por uma camisa durante os últimos 16 anos, que viveu o desabamento de um esquadrão e doou muitíssimos tijolos para reconstruí-lo, que abraçou uma torcida de milhões. Que transpira o futebol em sua máxima paixão e o sonha, como todos nós, apaixonados, sonhamos. O ponto final de uma jornada fantástica – que, na verdade, a gente espera que não seja o ponto final, e que este demore a vir.

Vai, Buffon. Vai buscar o seu sonho. Vai ser recordado por suas ações. Vai transformar o impossível em realidade. E obrigado por nos fazer sonhar juntos.

PS: Peço desculpas aos torcedores de Real Madrid e Atlético de Madrid, dos outros time italianos, de quem mais não for torcer pela Juventus na final da Champions. O ponto aqui não é o clube, mas sim Buffon. E acho muito difícil encontrar alguém que não torça por ele. A licença poética permite.