Zidane: um bicampeão europeu discreto e muito eficiente

Por Bruno Bonsanti

Em novembro, a defesa do Real Madrid estava uma bagunça. Sofreu até contra o fraco Legia Varsóvia, na fase de grupos. Zidane completava 11 meses na sua segunda carreira e, apesar de campeão europeu, ainda havia a dúvida: o quão bom treinador ele é? Estávamos vendo os primeiros passos de um grande profissional da prancheta ou seu maior mérito havia sido estar no lugar certo na hora certa? Não resta mais dúvida (para mim). O francês tem se provado um excelente técnico, discreto e muito eficiente.

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Zidane não faz extravagâncias, nem tem um estilo de jogo característico, uma assinatura como a de José Mourinho, Pep Guardiola ou Jürgen Klopp. Sua melhor qualidade é administrar muito bem um elenco de personalidades complicadas. Taticamente, promove mudanças sutis que produzem grandes resultados. Equilibrou o meio-campo com Casemiro. Depois, com Isco. Sabe armar a equipe de acordo com o adversário, como fez diante do Manchester City, na semifinal do ano passado, e contra o Atlético de Madrid, no primeiro turno do Campeonato Espanhol.

Este sábado trouxe mais um exemplo. O Real Madrid atuou pior que a Juventus no primeiro tempo e foi para o intervalo feliz com o 1 a 1. Identificando que o mapa da mina estava nas jogadas pelas laterais, por onde saíram as jogadas dos quatro gols espanhóis em Cardiff, Zidane deslocou Isco para a esquerda, para auxiliar Marcelo, adiantou as linhas de marcação e abafou o adversário até fazer 3 a 1, aos 19 minutos. A Juventus passou a errar na saída de bola, a recorrer aos chutões, e não conseguiu escapar da armadilha montada pelo técnico rival.

“Jogamos muito bem no primeiro tempo. No segundo, o Real colocou o pé no acelerador e não conseguimos responder”, reconheceu Massimiliano Allegri. “A única crítica que posso fazer (aos seus jogadores) é que, depois do segundo gol, deveríamos ter continuado dentro do jogo mentalmente, para garantir que ainda tivéssemos chances”. Não tiveram: três minutos depois do gol de Casemiro, Cristiano Ronaldo marcou o terceiro, e Asensio fechou a goleada por 4 a 1, nos minutos finais. “No intervalo, disse aos jogadores para continuarem fazendo o que estavam fazendo, colocando mais energia na pressão e nos passes, e fomos espetaculares no segundo tempo, nossos passes e movimentações foram fantásticas”, disse Zidane.

Em 17 meses, Zidane conquistou cinco títulos com o Real Madrid – duas Champions, um Campeonato Espanhol e o Mundial de Clubes, além da Supercopa da Uefa. É muito troféu em pouco tempo, mesmo para o comandante da equipe mais rica do mundo e com tantos craques à disposição. Este não é o primeiro elenco estrelado do Real, mas foi a primeira vez desde a sequência de cinco títulos no fim dos anos cinquenta que o clube é bicampeão europeu, o primeiro da era moderna da competição.

Zidane já havia entrado no seleto grupo de homens que venceram a Champions League como jogador e como técnico. Agora, é o décimo bicampeão seguido, ao lado de José Villalonga (Real Madrid), Luis Carniglia (Real Madrid), Béla Guttmann (Benfica), Helenio Herrera (Internazionale), Stefan Kovacs (Ajax), Dettmar Cramer (Bayern de Munique), Bob Paisley (Liverpool), Brian Clough (Nottingham Forest) e Arrigo Sacchi (Milan). “Estou muito feliz e agradecido pelo clube ter me dado a oportunidade de treinar esses jogadores fantásticos. Estou muito feliz, eu quase tenho vontade de dançar, e devo esse sentimento ao clube. Eu me considero um homem da casa. Este é o clube do meu coração”, encerrou.