A candidatura conjunta de Estados Unidos, Canadá e México para a Copa 2026 tem menos apoio do que o esperado, segundo revelou a ESPN americana nesta quarta-feira. A rival na disputa por sediar o Mundial, a candidatura de Marrocos, parecia não ter muita chance contra os norte-americanos, mas diversos dirigentes disseram à emissora americana que os africanos não só ameaçam os antes favoritos como já teriam votos para vencer a disputa.

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A decisão será no Congresso da Fifa, em junho, quando, pela primeira vez, a votação não será restrita a um Comitê Executivo, como foram as escolhas da Rússia 2018 e do Catar 2022, ambas decididas em dezembro de 2010 e que foi alvo de intensas investigações por suspeita de fraude. Eram apenas 22 membros que decidiam para onde iria a Copa. Em uma medida para mudar a Fifa, a votação foi alterada e todos os países passaram a ter direito a voto, em eleição aberta no Congresso da Fifa, realizado na Rússia dias antes do início da Copa 2018.

Antes favorita, a candidatura da América do Norte para sediar a Copa parecia uma barbada. Depois da Rússia, em 2018, e do Catar, em 2022, a Copa de 2026 tende a ir para outro continente, sem ser Europa ou Ásia. A candidatura dos norte-americanos parecia que concorreria sozinha, mas Marrocos entrou na disputa. E os eventos dos últimos meses mudaram o cenário completamente favorável à candidatura liderada pelos Estados Unidos para um de incerteza que dá a Marrocos mais que uma chance de concorrer, mas também um cenário favorável.

Segundo um dirigente que tem contato com federações de todos os continentes consultado pela ESPN, Marrocos já tem o apoio da maior parte dos países da Ásia e América do Sul, além do próprio continente, a África. Com isso, já teria os 104 votos necessários para ganhar a disputa pela sede do evento. Os quatro países que concorrem como sedes não têm direito a voto.

Outros dirigentes consultados pela ESPN americana questionaram a ideia que Marrocos já tenha votos para vencer a disputa. Para eles, a margem de vitória da candidatura dos três países da América do Norte pode ser mais apertada do que o esperado, mas ainda seria favorita à vitória por ter os votos da Oceania, da maior parte da Europa, de uma parte da Ásia e da América Central.

Qualquer outra candidatura pode ser apresentada até o dia 16 de março, ou seja, o prazo está próximo. Há uma diferença enorme em termos de recursos financeiros e de infraestrutura entre os dois países, mas ninguém nega que a disputa está bem longe de estar decidida. “Nós nunca demos nada como certo neste processo”, afirmou Sunil Gulati, ex-presidente da US Soccer e que chefia a candidatura. “Nós entendemos que esta é uma eleição competitiva e muitas coisas diferentes entram em questão”.

O fator político

Se a diferença em infraestrutura é enorme em favor dos norte-americanos, no fator político a situação se inverte. Há uma enorme suspeita em relação aos Estados Unidos em países da América do Sul no mundo do futebol, depois das investigações conduzidas pelo FBI e Departamento de Justiça dos Estados Unidos desmantelou um enorme esquema de corrupção no continente, levando inclusive alguns dirigentes presos, como José Maria Marin, um dos primeiros julgados e já condenado à prisão. Só que este é um problema localizado e nem de longe é o maior.

O maior problema dos norte-americanos nada tem a ver com futebol. Os membros da candidatura têm encontrado um forte sentimento contra os Estados Unidos principalmente por ações tomadas pelo presidente Donald Trump, segundo diversas fontes consultadas pela ESPN. As ações que são mal vistas pelos dirigentes ao redor do mundo incluem a proibição de viagem feita a países árabes, comentários públicos que perpetuam estereótipos e as referências desrespeitosas com relação a países mais pobres.

Segundo as fontes consultadas pela ESPN, quando a candidatura liderada pelos Estados Unidos faz visitas oficiais em países do exterior, as perguntas que ouvem não têm a ver com estádios ou hotéis, mas sim se os Estados Unidos podem ser considerados um lugar amigável para os estrangeiros. Por isso, a candidatura americana tem reforçado os laços com México e Canadá, mostrando ser uma proposta de união. Dirigentes envolvidos na candidatura acreditam que este é um ponto vital para a disputa.

O próprio Sunil Gulati enfatizou muito a questão da união de países quando foi perguntado sobre a influência negativa do governo Trump na candidatura. “Os governos dos três países, no mais alto nível, têm dado muito apoio da candidatura conjunta e mostrado o desejo de levar a Copa do Mundo para a América do Norte”, afirmou o dirigente americano. “A parceria entre os três países é uma parte extremamente importante da nossa história, especialmente dado que está acontecendo em diversas partes do mundo”.

O processo de votação é um fator fundamental a ser considerado na disputa. Antes, os votos eram fechados e só 22 pessoas votavam. Agora, com todos os países filiados à Fifa votando e com votos abertos, a situação é bem diferente. Os países devem votar em bloco. A África, por exemplo, deve votar inteiramente com Marrocos, já que o voto aberto terá que ser explicado depois aos demais membros e à confederação de futebol do continente. Um africano não vai querer votar contra Marrocos e depois ter que lidar com as consequências dessa escolha com o escrutínio público.

É bom lembrar também que Marrocos têm experiência em candidaturas a sediar a Copa do Mundo. Foram quatro tentativas, todas fracassadas até agora. As duas candidaturas estão em plena campanha a três meses da votação, no dia 13 de junho – véspera da abertura da Copa do Mundo. Representantes do Marrocos estiveram Bratislava, em Congresso da Uefa. Dirigentes norte-americanos também estiveram lá para fazer sua campanha. Os dirigentes devem estar em congresso na Ásia também, nos próximos meses, para seguir fazendo campanha. Ambos devem também continuar a visitar países específicos buscando apoio.

O que se sabe é que o que antes parecia uma barbada e vitória certa para a candidatura dos Estados Unidos se tornou uma disputa que envolve muito mais do que futebol. E esse aspecto pesa contra os americanos. Algo que vale lembrar é que a Copa 2026 será a primeira licitação da Fifa pós-Blatter e pós-Fifagate. Por isso, os olhos do mundo estarão ainda mais atentos com o que vai acontecer.

A Copa 2026 também é muito importante para a nova direção da Fifa mostrar que se preocupa menos com gastos exorbitantes com estádios e acordos absurdos dentro dos países e mais com o futebol e os torcedores. Quebrar o padrão Fifa parece crucial para isso. Se o tão falado caderno de encargos da Fifa for diferente desta vez, podemos abrir uma nova era de Copas do Mundo, com menos gastança e mais preocupação com o que importa: o futebol e os torcedores.