Excêntrico quando jogador, Eric Cantona levou sua personalidade polêmica consigo após sua aposentadoria. O francês não hesitava em campo, e hoje, como figura pública, também não tem papas na língua ou se encaixa em comportamentos pré-moldados e discursos pasteurizados para comentar futebol. Em entrevista ao jornal Le Parisien, o ídolo do Manchester United, de maneira simples e objetiva, atacou brilhantemente Michel Platini, a Fifa e o processo de escolha de sedes para as Copas do Mundo.

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Diversas figuras envolvidas com a realização do Mundial no Brasil neste ano têm feito publicamente pedidos para que a população do país-sede não atrapalhe a competição com protestos nas ruas. Um deles foi o presidente da Uefa, Platini, alvo principal de Cantona na entrevista ao periódico. “O Platini espera que a Copa do Mundo corra bem, mas as pessoas precisam ser ouvidas e, graças à Copa do Mundo, serão ouvidas. Aquilo pelo que elas estão pedindo está se espalhando pelo mundo há vários meses por causa desse evento, e isso é positivo. É claro que eles vão tirar vantagem da Copa do Mundo e não vão esperar que ela acabe (para poder protestarem), como o Platini pede. Isso não faria sentido”, comentou o ex-jogador.

Cantona seguiu o ataque a Platini ao falar sobre as escolhas de sedes para o Mundial. Hoje, a Copa no Catar, em 2022, é a que tem recebido as críticas mais duras, pelo fato de mais de 1200 trabalhadores já terem morrido nas obras para o evento. O francês criticou a escolha, mas lembrou de outros eventos em países com problemas culturais e políticos também relevantes.

“Algumas pessoas criticam a Copa do Mundo no Catar, outras, a Copa do Mundo no Brasil. Foi também o Platini quem deu a Euro Sub-21 para Israel, o que é tão desrespeitoso em termos de direitos humanos como dar a Copa do Mundo para o Catar, considerando a política de Israel. Ele também deu a Eurocopa à Ucrânia, que não é um exemplo de democracia”, disse Cantona, que completou apontando a principal motivação da Fifa na escolha dos palcos para seus torneios: “São países emergentes, que têm muito dinheiro, e a Copa do Mundo precisa disso. Ela é organizada em países que têm os recursos. Amanhã, será na China.”

Cantona complementou sua desaprovação à Copa no Catar com uma constatação simples e inegável: o futebol não tem importância alguma por lá. “Que a Copa aconteça em países onde é importante se desenvolver o futebol, é uma coisa boa. Mas no Catar não há absolutamente nada para se desenvolver, nenhum potencial. É um país pequeno em termos de população. As pessoas de lá não estão nem um pouco interessadas neste esporte e nunca estarão”, decretou o francês.

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Para encerrar a entrevista, Cantona usou o sarcasmo em sua melhor forma, “torcendo” pela eleição de Platini como presidente da Fifa e encerrando a declaração com uma expressão genial que merece viralizar, tamanha a perfeição com que resume a ideia do ex-jogador sobre o conterrâneo como mandatário do órgão máximo do futebol:

“O Platini foi um grande jogador e é um grande homem do futebol, mas hoje ele é um político como qualquer outro. Por outro lado, já que são todos políticos, seria bom que um ex-jogador fosse eleito o presidente da Fifa. Quando você tem que escolher entre praga e cólera, é melhor pegá-las de um médico.”