Old Trafford não estava abarrotado apenas de gente naquele 3 de maio de 1993. O Teatro dos Sonhos se enchia também de euforia. De esperanças, pelo título nacional que o Manchester United não conquistava desde 1967, mas voltava às suas mãos. Se hoje em dia o jejum de cinco temporadas sem a taça da Premier League parece eterno, aqueles eram tempos bem mais modestos aos Red Devils. Clubes de menor expressão haviam conquistado o Campeonato Inglês ao longo daqueles intermináveis 26 anos, dominados justamente pelo rival Liverpool. E quando o Aston Villa foi surpreendido dentro de casa pelo Oldham no dia anterior, cabia aos comandados de Sir Alex Ferguson se coroarem campeões. A vitória por 3 a 1 sobre o Blackburn, de virada, sacramentou o fim da travessia pelo deserto. Mais do que isso, iniciou uma verdadeira época de fartura em Manchester, impulsionando os vermelhos a se tornarem os maiores campeões nacionais.

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A conquista da Copa dos Campeões em 1968 marcou o auge do Manchester United de Matt Busby, mas também o início de sua derrocada. A renovação do elenco não se sustentaria e os Red Devils iniciaram os anos 1970 de maneira modesta, frequentando o meio da tabela no Campeonato Inglês. Chegaram a ser rebaixados à segunda divisão, antes de conquistarem o acesso na temporada seguinte. E, a partir de 1975, tinham as copas nacionais como maior ambição. Até o fim da década de 1980, no máximo, conseguiram dois vice-campeonatos da liga: em 1979/80, a arrancada nas últimas rodadas não serviu para alcançar o Liverpool; em 1987/88, mais uma vez não foram páreos à supremacia dos Reds.

Neste momento, Sir Alex Ferguson já tinha assumido o comando do Manchester United. Foram primeiros anos difíceis, em que a falta de campanhas mais consistentes prejudicavam, criando até dúvidas sobre a permanência do treinador. O ponto de virada ao escocês à frente dos Red Devils aconteceu em 1990, faturando seu primeiro título após mais de três anos no cargo, ao bater o Crystal Palace na final da Copa da Inglaterra. Na temporada seguinte, os mancunianos levaram a Recopa Europeia em cima do Barcelona. E depois, além da Supercopa Europeia, também a Copa da Liga em 1992. De qualquer maneira, o Campeonato Inglês permanecia como obsessão. Que não veio por um triz naquele mesmo ano, com mais um vice.

A campanha de 1991/92, aliás, é particularmente amarga ao United. As expectativas sobre a equipe aumentavam, após a conquista da Recopa. Os Red Devils contavam com vários jogadores tarimbados e outros nomes que começavam a eclodir, como o prodígio Ryan Giggs e o recém-contratado Peter Schmeichel. Além disso, o primeiro turno no Campeonato Inglês foi excelente, logo alçando o time ao topo da tabela. Contudo, o segundo semestre dos mancunianos foi extremamente inconsistente. A equipe degringolou a partir da virada do ano, em uma disputa acirrada com o Leeds United. As maratonas de jogos adiados em curtos períodos atrapalharam, mas não eram a única justificativa para os triunfos que rareavam. Em abril, uma derrota em casa para o Nottingham Forest cedeu a liderança de vez aos Whites. E depois de um novo revés, contra o West Ham, a pá de cal aconteceu justamente em Anfield, com vitória do Liverpool. Por mais que o Leeds também oscilasse, terminou quatro pontos à frente, causando enorme decepção em Old Trafford.

O jeito era levantar a poeira para o Campeonato Inglês 1992/93. Ou melhor dizendo, para a recém-fundada Premier League. Se a liga representava uma nova era aos clubes em termos de receitas, sobretudo pelos contratos de transmissão com a TV, o Manchester United surfaria nesta onda para capitalizar o momento. E tentou se aproveitar do dinheiro em caixa para subir de patamar. Desde a temporada anterior, a imprensa inglesa especulava o interesse dos Red Devils em Alan Shearer, a fenomenal revelação do Southampton. Sir Alex Ferguson via o centroavante como a peça certa, diante dos problemas apresentados pelo ataque na derrocada de 1991/92.

O Manchester United, porém, não era o único a cortejar Shearer. E o dinheiro do Blackburn acabou fazendo a diferença para atrair o artilheiro, com o magnata Jack Walker bancando o negócio aos Rovers. A alternativa para os Red Devils, a princípio, estava em Dion Dublin. Pretendido também por Chelsea e Everton, o atacante chegou por £1 milhão, após se destacar com a camisa do Cambridge United. Ao contrário de Shearer, soava mais como uma aposta do que como uma solução.

Mesmo sem a grande contratação projetada por Ferguson, o Manchester United contava com um elenco essencialmente forte. Peter Schmeichel já se tornara o dono absoluto da meta, após anos de incertezas na posição. Steve Bruce e Gary Pallister compunham uma dupla de zaga bastante tarimbada, que se solidificou com as conquistas recentes em Old Trafford. Já nas laterais, despontavam Paul Parker e Denis Irwin. A faixa central possuía Paul Ince, dínamo do meio-campo. Ryan Giggs se firmava como uma promessa irresistível na ponta, em setor que também contava com os serviços de Lee Sharp e Andrei Kanchelskis. O capitão Bryan Robson perdia espaço por conta das frequentes lesões, mas permanecia como uma liderança no elenco. Mais à frente, havia a opção de Brian McClair na ligação. Já a referência do ataque, independentemente de Dion Dublin, atendia pelo nome de Mark Hughes, que vinha de anos prodigiosos em Manchester.

Não seria um início de temporada promissor ao Manchester United, apesar das opções do plantel. O time perdeu o jogo inaugural da Premier League, batido pelo Sheffield United. Depois, tomou de 3 a 0 em casa ante o Everton, na segunda pior derrota como mandante desde que Ferguson assumira. Foram quatro rodadas de espera para comemorar a primeira vitória e, como se a crise não fosse suficiente, Lee Sharpe foi diagnosticado com meningite. Neste momento, como resposta às dúvidas, até parecia que os mancunianos engrenariam. Emendaram cinco triunfos consecutivos, mas logo vieram sete rodadas em jejum, que pressionaram a gangorra para baixo. E, para piorar, a situação nas copas não ia nada bem. A equipe caiu diante do Torpedo Moscou na Copa da Uefa, antes de sucumbir ao Aston Villa (treinado por Ron Atkinson, antecessor de Fergie) na Copa da Liga Inglesa.

Em meio à montanha russa, o principal reforço se tornou desfalque. Um mês após chegar, em setembro, Dion Dublin quebrou a perna. Recobrava as necessidades de opções ao ataque. Sir Alex Ferguson, assim, mirou alguns novos nomes – em tempos nos quais, vale lembrar, as janelas de transferências ainda não existiam. O Sheffield Wednesday rejeitou a proposta por David Hirst, enquanto Brian Deane, do rival Sheffield United, era aventado pela imprensa inglesa. Até mesmo o lendário Matt Le Tissier virou alternativa aos Red Devils, em negócio que não vingou. A solução viria do rival Leeds United, com uma dose de acaso. “O Leeds nos ligou perguntando se venderíamos Denis Irwin a eles. Mas, brincando, eu sugeri que poderíamos trocá-lo por Eric Cantona. Então, houve um silêncio do outro lado da linha”, relembra Ferguson.

Contratado pelo Leeds em fevereiro de 1992, após acumular polêmicas na França, Cantona teve participação destacada na reta final da campanha do título inglês. Não tanto por sua efetividade, autor de apenas três gols nas 15 partidas que disputou, quase sempre saindo do banco, mas pela qualidade técnica que se evidenciou logo naqueles primeiros meses. Adorado pela torcida, o atacante só não desfrutava do mesmo moral nos bastidores dos Whites – principalmente com o técnico Howard Wilkinson, que desaprovava a postura “egoísta” da estrela. Os atritos se tornaram públicos, com trocas de farpas através da imprensa, e o camisa 7 passou a esquentar o banco. Assim, por mais que não tenha aceitado ceder Irwin, o Manchester United seguiu em frente com as conversações. Em poucos dias, fechou a contratação pela bagatela de £1,2 milhões, algo que não parecia verossímil aos torcedores. Uma pechincha, confirmada no marcante 26 de novembro de 1992.

A estreia de Cantona no Manchester United não poderia ser mais simbólica. Vestiu a camisa 10 em um amistoso contra o Benfica, que celebrava os 50 anos de Eusébio. E com os Red Devils se reencontrando com as vitórias, o francês providenciou o impulso para que o time embalasse de vez. O ataque, tão criticado pela falta de produtividade, passou a acumular placares amplos. Cantona contribuía não apenas com seus gols, mas também com um talento inegável na criação, seja para servir o artilheiro Mark Hughes (autor de 15 gols na campanha) ou para potencializar o avanço dos pontas. Definitivamente, a peça que faltava para a engrenagem girar. “Ele tinha exatamente esta aura e esta presença. Cantona tirou a responsabilidade de nós e tomou para ele. É como se dissesse: ‘Sou Eric e estou aqui para ganhar o título para vocês'”, relembra Paul Ince, à FourFourTwo.

Antes que Cantona chegasse, havia um temor entre os próprios companheiros de Manchester United. A reputação do atacante não era nada boa, considerando as turbulências que causou na maioria absoluta de seus clubes. Preocupavam-se com a instalação de uma bomba-relógio nos vestiários de Old Trafford. Contudo, a impressão logo mudaria. Segundo Gary Neville, que começava a se firmar no profissional, o novo colega era “um cara polido e respeitável, que vivia numa casa modesta e andava num carro modesto”. Mais do que uma referência, Cantona ainda era uma inspiração. O novo astro chegava uma hora mais cedo aos treinamentos para aprimorar sua técnica. Um profissionalismo que acabou contaminando o elenco. Pesava também a relação de Sir Alex Ferguson, que sabia administrar o grupo e fazia concessões necessárias ao seu craque, deixando-o à vontade como nunca.

O Manchester United, que foi lanterna ao final da segunda rodada e ocupava a modesta décima posição em 21 de novembro, arrancou rumo às cabeças. Na virada do ano, após um cardíaco 3 a 3 contra o Sheffield Wednesday no Boxing Day, o time já era terceiro. Emparelhava-se ao surpreendente Norwich City, ao Aston Villa e ao Blackburn – então, aparentemente os principais candidatos ao troféu. Já as vitórias contundentes em janeiro valeram a primeira colocação. A corrida se tornaria parelha, apesar das raras derrotas dos mancunianos. Mas o time apresentava aquele toque especial, de quem parece fadado a acabar com a taça – ou, em outras palavras, de quem desfruta de um protagonista como Eric Cantona.

Foram várias partidas nas quais o craque desequilibrou. Em fevereiro, seu gol tardio deu os três pontos contra o Sheffield United em Old Trafford – uma semana depois, as Blades seriam carrascos na Copa da Inglaterra, impedindo a dobradinha. Em março, o francês arrancou o empate dramático contra o Manchester City em Maine Road, quando uma sequência de quatro jogos sem vitória tirou os Red Devils na liderança. Já em abril, fechou o essencial triunfo sobre o Norwich em Carrow Road, que recuperou a primeira colocação. De lá, a equipe de Sir Alex Ferguson não mais sairia, mantendo a distância na perseguição do Aston Villa.

O duelo mais emblemático daquela campanha, todavia, seria o seguinte. O Manchester United defendia a liderança recebendo o Sheffield Wednesday em Old Trafford. E embora Cantona não tenha brilhado tanto, com o papel de artilheiro cabendo a Steve Bruce, outra entidade mística dos Red Devils preponderou: o “Fergie Time” – termo que seria criado apenas cinco anos depois, mas já se fez válido em 1992/93. Aos 20 minutos do segundo tempo, as Corujas deram um enorme susto nos anfitriões, quando John Sheridan abriu o placar. Os mancunianos não desistiriam. Precisaram batalhar até os acréscimos, quando finalmente buscaram uma virada que soava impossível. O empate saiu aos 41, a partir de um escanteio, que Bruce cabeceou firme. Já aos 52, o cruzamento que desviou na zaga sobrou para o zagueiro testar mais uma vez. Ferguson quase invadiu o campo, tamanha a euforia, e a torcida comemorou feito um título. Não era propriamente, mas indicava que ninguém tiraria a taça do United.

Nas semanas seguintes, um pouco menos de sofrimento. O Manchester United derrotou Coventry City, Chelsea e Crystal Palace, beirando a conquista. Já em 2 de maio, quando o Aston Villa perdeu para o Oldham, o grito de campeão ecoou mais alto na Grande Manchester. O tabu estava findado. Era hora de celebrar com mais uma partida em Old Trafford. Mais uma vitória, exatamente contra o Blackburn, que roubara Shearer – e que o perdera durante a campanha, por uma grave lesão no joelho. Os Rovers até abriram o placar, com Kevin Gallacher. Ryan Giggs, Paul Ince e Gary Pallister buscaram a virada por 3 a 1, definitiva aos primeiros donos da Premier League. Ao final, batendo o Wimbledon, os Red Devils fecharam a campanha com dez pontos de vantagem no topo.

O alívio inicial pelo fim da espera em 1993 logo se transformaria em uma sequência de glórias. De sete títulos ingleses na antiga Football League, o Manchester United levantaria 13 taças na nova Premier League. Eric Cantona seguiu chamando a responsabilidade até 1997, incutindo um espírito vencedor em Old Trafford e botando a faixa no peito mais três vezes – exceção feita a 1995, quando sua suspensão pelo famoso chute no torcedor do Crystal Palace, de certa maneira, beneficiou o Blackburn. Sir Alex Ferguson confiava em sua estrela, ao mesmo tempo em que forjava novas. Aquela temporada de 1992/93 marcou as estreias de David Beckham, Nicky Butt e Gary Neville. Já nos meses seguintes, viria ainda Roy Keane, contratado junto ao Nottingham Forest. A espinha dorsal de um esquadrão que aprendeu a comemorar há 25 anos.