O Irã está entre os países asiáticos mais apaixonados por futebol. Independentemente do gênero, por mais que as autoridades do país insistam em limitar isso. Desde 1982, as mulheres iranianas são proibidas de entrar nos estádios locais. Não podiam sequer ver os jogos pela televisão até 1987, quando ganharam a “permissão” do aiatolá. E, diante da luta constante pela queda da restrição, elas ganharam um importante aliado nesta semana. Capitão da seleção persa, Masoud Shojaei defendeu publicamente o fim do banimento e intercedeu junto ao presidente Hassan Rouhani. Pode parecer pouco, mas esta postura a favor das mulheres é raríssima (para não dizer inédita) entre os jogadores de projeção internacional.

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Após a classificação à Copa do Mundo de 2018, garantida na última semana, Shojaei teve um encontro diplomático com Rouhani. Entre os assuntos abordados, aproveitou para levantar o tema e pedir pela abertura dos portões às torcedoras. “Eles deveriam tomar uma atitude para permitir a presença das mulheres nas arquibancadas no futuro”, declarou o meio-campista do Panionios, em entrevista ao canal Varsesh3. Segundo os relatos da imprensa local, Rouhani estaria disposto a acabar com a proibição, embora o principal entrave se concentre em Ali Khamenei, líder supremo do país e responsável direto por nomear o Ministro da Justiça.

A relação entre a Copa do Mundo e a luta das iranianas por suas liberdades individuais é antiga. O primeiro momento emblemático aconteceu em 1997, quando os persas asseguraram o retorno ao Mundial após duas décadas de ausência. Milhares de mulheres saíram às ruas na comemoração, quebrando as orientações das autoridades religiosas. Além disso, diante da pressão, três mil torcedoras ganharam a permissão de entrar no Estádio Azadi na recepção do time de volta ao país, enquanto outras centenas romperam as barreiras e furaram os bloqueios policiais. Em 2005, novamente as iranianas forçaram sua entrada no estádio, durante o segundo tempo do jogo decisivo contra o Bahrein, que valeu a vaga na Copa do ano seguinte. Já em 2013, ocorreram novos protestos contra a proibição, assim como o desafio à opressão durante a festa nas ruas pela classificação ao Mundial de 2014.

Em momentos específicos, o Irã ensaiou o fim da imposição. Em 2006, o presidente Mahmoud Ahmadinejad derrubou o banimento, em decreto pedindo a criação de áreas especiais para mulheres nas arquibancadas. Pouco depois, o sistema de justiça negou a ordem presidencial, sob a influência do Aiatolá Khamenei. Também existiram breves períodos nos quais as iranianas tinham a autorização para frequentar eventos de outros esportes, como basquete e vôlei, o último deles em 2013. Com o retorno do veto, a repressão aumentou e culminou mesmo em prisões de mulheres desafiando a ordem. A única vez em que as torcedoras locais tiveram passe livre nas arquibancadas aconteceu no Campeonato Asiático Sub-16 de 2012. Em contrapartida, mulheres estrangeiras não são barradas nas partidas internacionais, podendo ocupar o setor visitante.

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Apesar de todos os impedimentos, as iranianas não deixam de defender as suas liberdades. Prática comum no país, muitas torcedoras chegam a se vestir como homens para entrar nas arquibancadas – atitude que serviu de gancho para o filme ‘Offside’, de Jafar Panahi, lançado em 2006 e que discute a questão amplamente. Além disso, frequentemente as persas costumam protestar nas competições internacionais. Movimentos em prol de seus direitos aconteceram nos estádios da Austrália durante a Copa da Ásia de 2015 e, em menor escala, também no Brasil durante o Mundial de 2014.

Em fevereiro de 2015, um grupo de 190 ativistas iranianas (entre elas Shirin Ebadi, ganhadora do Nobel da Paz) assinou uma carta endereçada à Fifa, pedindo a intervenção da entidade. Sugeriram a suspensão do Irã ou ao menos a proibição de eventos oficiais no país – algo urgente na época, diante da escolha da sede da Copa da Ásia de 2019, entregue semanas depois aos Emirados Árabes. “Empregar tais políticas contra as mulheres é moralmente errado, discriminatório e contra o espírito do estatuto da Fifa, assim como contra o espírito das leis internacionais. A Fifa tem o dever de se opor a todos os tipos de discriminação e parcialidade, incluindo o banimento de mulheres nos estádios”, dizia o texto. Enquanto isso, Joseph Blatter lavou as mãos. Agora, a classificação do Irã à Copa de 2018 volta a oferecer projeção mundial ao tema. E a atitude de Shojaei garante às iranianas um importante aliado.