Quando o Barcelona empatou com o Real Madrid no final de semana passado, em um jogo que poderia ter pior sorte aos blaugranas, a conquista invicta de La Liga parecia consumada. Os três próximos desafios seriam um tanto quanto brandos, como se viu pela goleada tranquila sobre o Villarreal no meio da semana. Porém, uma noite atônita dos barcelonistas impediu a façanha. E se o lado derrotado precisa analisar suas culpas, há um vencedor que precisa ser elogiado. O Levante fez o jogo de seus sonhos no Estádio Ciutat de Valencia. Intenso e letal em determinados momentos do confronto, não perdoou os deslizes do Barça. Chegou a abrir quatro gols de vantagem no placar e, apesar dos riscos, a reação dos catalães ao final só ressalta como os 5 a 4 não vieram de graça.

A temporada do Levante no Espanhol, de volta após conquistar a segunda divisão na temporada passada, foi feita de altos e baixos. O time começou bem nas cinco primeiras rodadas, com direito a vitórias sobre Villarreal e Real Sociedad, além de empates contra Real Madrid e Valencia. O problema é que o desempenho despencou e, com uma mísera vitória entre a 6ª e a 27ª rodada, os riscos de rebaixamento eram reais. A guinada veio a partir de março, graças a um desconhecido. O técnico Paco López, com histórico apenas nas divisões de acesso, que trabalhava na própria filial dos granotas, vinha como salvador da pátria. Desde que assumiu, emendou oito vitórias em dez rodadas, derrotado apenas pelo Atlético de Madrid. Arrancada que rendeu a apoteose neste domingo.

O Barcelona pode falar que estava sem Lionel Messi, de fato a grande razão para a campanha invicta no Campeonato Espanhol até ali. Mas a ausência do camisa 10 não explica o fracasso no Ciutat de Valencia, porque os maiores problemas estiveram em outra certeza do time de Ernesto Valverde, a defesa. Sergi Roberto, Gerard Piqué e Samuel Umtiti não atuaram. Yerry Mina fez uma partida completamente perdida, enquanto Thomas Vermaelen se lesionou com meia hora de jogo. Os laterais não cobriam na eficiência e as bolas nas costas de Sergio Busquets também incomodavam.

O começo ativo do Barcelona não adiantou quando o Levante abriu o placar aos nove minutos. José Luis Morales avançou até a linha de fundo e cruzou para Emmanuel Boateng completar. O quarteto formado por Morales, Boateng, Roger Martí e Enis Bardhi causava o pesadelo nos barcelonistas. Jogavam com velocidade e verticalidade, atacando os espaços deixados pela defesa adversária. Um minuto depois, Bardhi carimbou a trave num lance no qual a meta estava aberta. E quando os blaugranas sentiam o baque, com dificuldades para quebrar as linhas de marcação, Boateng ampliou aos 31. Aproveitou a ausência de Vermaelen, já lesionado, para fazer estrago ao driblar Marc-André ter Stegen e deixar Mina no chão.

O Barcelona tentou se reerguer antes do intervalo. Philippe Coutinho começou a aparecer, naquela que foi sua melhor atuação desde que chegou ao clube, mas pouco adiantou. Aos 31, o brasileiro marcou um gol nas suas características, abrindo a partir da esquerda e chutando forte da entrada da área, em arremate que contou com a visão congestionada do goleiro para entrar. Todavia, as expectativas logo definhariam, com o Levante demolindo o Barça no início do segundo tempo.

Entre a erupção dos anfitriões e o apagão dos visitantes, foram três gols em apenas 11 minutos. Com pouco mais de um minuto, José Campaña rolou a bola para Bardhi acertar um chute na gaveta de Ter Stegen. Aos quatro, mais um tento, em contra-ataque fulminante para Boateng completou sua tripleta. Já aos nove, o passe na medida de Martí deixou Bardhi livre às costas da defesa, apenas tirando do alcance de Ter Stegen. Era um resultado de sonho, mas totalmente compreensível pela maneira como o Levante era insaciável.

Os 5 a 1 no placar, obviamente, empurraram o Barcelona ao ataque. Andrés Iniesta saiu aplaudidíssimo, apesar de sua atuação abaixo da média, substituído ao lado do apagado Ousmane Dembélé. As entradas de Denis Suárez e Paco Alcácer beneficiaram os blaugranas, embora seu protagonista fosse mesmo Coutinho. O brasileiro chamou a responsabilidade, marcando dois gols antes dos 19 minutos, primeiro concluindo como um centroavante, antes de soltar um de seus petardos de fora da área, que desviou na zaga e morreu nas redes. Já aos 26, um pênalti assinalado sobre Busquets permitiu que Luis Suárez encostasse no placar.

Havia tempo suficiente para ao menos um empate do Barcelona, o que poderia ser considerado uma reação fantástica. Entretanto, o autocontrole que sobrou ao Levante, faltou ao Barça. Os granotas estavam esgotados fisicamente, mas trataram de atacar um pouco mais, sem se expor tanto na defesa. Enquanto isso, os blaugranas se mostravam uma pilha de nervos na hora de concluir as jogadas, travando na marcação adversária. Nem mesmo Coutinho ou Suárez resolveram neste momento. Ficou o descontentamento evidente. Na saída do estádio, o técnico Ernesto Valverde declarou que sai com “raiva” por não sustentar a invencibilidade.

A campanha do Barcelona ainda é extraordinária, mas este tropeço talvez sirva para lembrar ao futuro que o time não apresentou um futebol tão condizente com a sua vantagem. E se o pragmatismo muitas vezes foi a chave da equipe de Ernesto Valverde, desta vez ele esteve em falta para evitar o desespero em meio ao bombardeio do Levante. As dúvidas ficam a um clube que não se contenta apenas com a liga, e se questiona sobre a dependência extrema de Messi ao longo da temporada. E se Coutinho é quem se salva do desastre, Mina, que já vinha sem clima com o treinador segundo os relatos da imprensa, talvez tenha encaminhado um empréstimo à próxima temporada.

Melhor ao Levante, que desfruta a sua própria façanha. O Barcelona não sofria cinco gols em uma partida desde 2003, algo inédito na era vitoriosa que se instaurou depois disso. Que a salvação estivesse assegurada aos granotas, esta é uma vitória que traz novas perspectivas, até pela boa sequência recente da equipe. A esta altura, o modesto 15° lugar é detalhe, tendo o campeonato em perspectiva. A torcida do Levante ganhou uma vitória para ser recontada a filhos e netos daqueles que puderam presenciá-la.