Geração Playstation Corneta Europa

Carta aberta à torcida Playstation

Volta e meia o assunto “torcer por clube europeu” vem à tona e domingo ele saltou na tela das redes sociais com a foto duma molecada em São Luis reunida pra ver o título do Arsenal. O tema sempre vira uma briga de foice entre os cagadores de regra e os nerdzinhos anti-brasileiros. Tenho minhas ideias, claro, mas não tenho presunção alguma que seja uma “regra”. Cada um torce para quem achar que deve, mas se acha que a escolha não estará sujeita à zoeira (e isso não vale só a escolher times da Europa), você não entendeu o futebol em primeiro lugar.

Futebol, pra mim, é esporte de compartilhamento.

Mais que o dia do jogo do time, o dia seguinte é ainda a coisa MAIS LEGAL no futebol. Porque essa é a hora da corneta, ou de sair na rua com a camiseta do time com aquele ar meio cínico, um tanto arrogante, e todo mundo saber exatamente o porquê. E se a véspera foi de um fiasco monumental, é aí que você passa o dia se esquivando dos SMS, do porteiro, do vizinho. Por tudo isso, mais que achar torcedor de time europeu um freak ou algo assim, sinto uma certa pena de ser uma torcida praticamente solitária.

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Esse torcedor sai por aí fardado após uma retumbante vitória sobre algum glorioso Aston Villa e nem mesmo a mãe dele sabe o motivo. Ou mais deprê: porque pode ser facilmente confundido com o Seu Zé das chaves, que só comprou a camisa porque tava em promoção no camelô (essa é a única coisa que me deixa feliz com toda exposição diária de times árabes e russos da Europa. Mais gente que precisa ganhando dinheiro às custas). O tanto que as “redes sociais aproximaram as relações”, por outro lado, deixou essa cambada de moleque presa em seu próprio mundinho de mentira.

E isso aqui não tem nada a ver com intolerância, não me entendam mal. Preciso deixar bastante claro que existem muitas pessoas no mundo, milhares delas e, olha só que coisa mais chocante, não conheço todas. Não sei o motivo da escolha de cada um. Mas não fica difícil sacar, conversando com muitos desses torcedores de time europeu, que tem grande quantidade de peleguismo na questão. A Europa sempre soube explorar de forma genial esses mercados ermos como Indonésia ou Singapura. Esse países, onde o fenômeno do futebol pouco tem a ver com drible, golaços ou torcida incrível (o tipo de coisa que faz alguém se identificar por um clube, acho), mas idolatria pura. É onde Messi e Ibrahimovic são vistos como rockstars, e não jogadores de futebol. Que é uma coisa que não cola em lugares tradicionais, onde por mais fodão que seja algum jogador, meia dúzia de resultados ruins, e a corneta canta. Foi pra essa gente, em tese, que Barcelonas da vida viraram marcas.

>>>> Como nenhum desses jogadores foi se desenvolver na Europa?

E por isso é realmente uma pena que isso se multiplique num país com tantos clubes de massa e histórias incríveis. Não é como se você nunca fosse ter a chance de ver um craque, um jogão, um estádio lotado, etc (a menos que não se aproveite o tempo que Romários, Ronaldos e Neymares joguem no Brasil, dizendo que eles devem ir logo para a Europa). Hoje, quase que pode-se achar mais torcedores (sic) do Chelsea no Brasil que, sei lá, em Bristol (porque os caras lá preferem torcer pro Bristol Rovers ou City do que ser pelego do “mainstream” e riem de quem faz o contrário). Enquanto isso, aqui, cresce uma geração que considera o Manchester City algo mais importante que o Vasco (ou Cruzeiro ou Palmeiras; daria pra citar uns 15 clubes brasileiros mais importantes). E é nesse sentido que um cara com a camisa do Criciúma no Louvre é muito menos caipira que um fulano cheio de gel, fardado de Real Madrid em shopping de luxo.

Sempre que comento esse tema no Twitter, vários me perguntam se não é a mesma coisa torcer por time que não seja da cidade. Usam o exemplo do Acre, do Amazonas, do Nordeste. Não, não é. Porque é algo cultural de uns bons anos (que em vários casos, foi passado através do parentesco), muito mais que uma epidemia geracional com enxame de jogos disponíveis em TV a cabo — que, admito, é a maneira mais cheia de frufru que encontrei pra falar “seguir a modinha”. E mais: onde existe uma legião de Flamenguistas no NE, também há torcida para qualquer outro time do Rio, o que preserva a rivalidade (uma das partes legais), e, de acordo com o meu conceito lá do início (bem particular), o compartilhamento. Governasse eu o mundo, as pessoas apoiariam o local antes de tudo, mas compreendo quem opte por um time que possa de fato vencer (aliás, o que me faz compreender ainda menos quem escolha, além de um time europeu, logo o Arsenal).

>>>> Saiba se você torce de verdade para seu time europeu ou está só seguindo a moda

Ame quem você quiser. Mas se acha que amor é ficar relinchando no Twitter após a derrota do “seu time” em um clássico em vez de se sentir como se tivesse perdido um parente, você realmente não entendeu nada. Mas sempre pode ser pior, claro. Você pode confundir o amor, casar com ele, e depois dever a metade dos rendimentos mensais. Um abraço, Alexandre Pato.