Praticamente hegemônico no futebol austríaco durante os últimos dez anos, o Red Bull Salzburg vem brilhando também no cenário continental nesta temporada. Depois de deixar pelo caminho a Real Sociedad e o Borussia Dortmund, o time está nas quartas de final da Liga Europa, tendo pela frente a Lazio. Embora tenha ganhado impulso relativamente recente do fabricante de bebidas energéticas, o clube não nasceu ontem: traz em seu DNA a história de outro que já viveu sua era de ouro e cumpriu campanha histórica inclusive para os padrões do país numa Copa da Uefa, justamente a antecessora da atual competição. Trata-se do Casino Salzburg, finalista daquele torneio na edição de 1993/94.

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Na história das copas europeias organizadas pela Uefa o os clubes austríacos poucas vezes brilharam. Em mais de 60 anos, chegaram a apenas quatro decisões, contando todas as competições, e nunca levaram uma taça. Maior campeão nacional, o Rapid Viena chegou duas vezes à decisão da Recopa (1985 e 1996), enquanto seu arquirrival Austria Viena, maior campeão da copa nacional, também chegou a uma do extinto torneio europeu, em 1978. A outra decisão continental foi um feito do Casino Salzburg, clube então em ascensão e de fora da capital que iniciava ali o melhor período de sua história.

De Austria a Casino

O clube foi originalmente fundado em 1933 como Austria Salzburg, denominação sob a qual passou a maior parte de sua existência. Nascido da fusão de dois clubes da cidade natal do compositor Wolfgang Amadeus Mozart, o Hertha e o Rapid, chegou à elite austríaca em 1953. Em 1971, bateria na trave pelo primeiro título da liga, terminando um ponto atrás do Wacker Innsbruck. Três anos depois, seria a vez de ser vice na copa, perdendo a final em dois jogos para o Austria Viena.

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A grande transformação se daria quatro anos depois, quando o clube passou a contar com o patrocínio da Casinos Austria, empresa que, como o próprio nome diz, gerenciava diversos cassinos pelo país. Rebatizado como Casino Salzburg, o clube chegou mais duas vezes à final da Copa da Áustria, em 1980 e 1981, perdendo a primeira para o Austria Viena e a segunda para o Grazer AK, em ambas derrotado na partida de volta depois de vencer a de ida.

Rebaixado em meio a uma redução de clubes na primeira divisão em 1985, o clube falhou seguidamente na repescagem de acesso até finalmente conseguir retornar em 1989, depois de contratar o veterano goleador Hans Krankl, ex-Barcelona e peça fundamental da boa seleção austríaca das Copas do Mundo de 1978 e 1982. Krankl pendurou as chuteiras logo após cumprir a missão, mas logo seria substituído por outro atacante com faro de gol, pescado pelo clube em 1990 no Borussia Mönchengladbach: um jovem, porém já rodado centroavante alemão chamado Oliver Bierhoff.

O atacante permaneceria apenas uma temporada em Salzburgo, terminando a temporada como vice-artilheiro da liga (atrás do tcheco Vaclav Danek, do Tirol Innsbruck), enquanto o Casino ficava em quinto. Vendido à Internazionale (e logo em seguida emprestado à Ascoli, onde permaneceu por quatro temporadas), rendeu um bom dinheiro ao clube, que investiu em reforços e formou uma boa base. Em 1992 e 1993, a equipe esteve muito perto de quebrar o jejum. Em ambos os anos, terminou a primeira etapa da competição (a “temporada de outono”) na ponta, mas no fim acabaria superada no saldo de gols pelo Austria Viena, campeão de 1991, que chegou ao tri.

Uma equipe consistente

Foram bons ensaios para a memorável temporada 1993/94. A primeira conquista da Bundesliga chegaria em 8 de junho, coroando a ótima campanha. O destronado Austria Viena – que terminou dois pontos atrás, na segunda colocação – foi batido nos quatro confrontos, sendo arrasado com duas goleadas históricas nos dois últimos: 4 a 0 em Viena e 6 a 0 em Salzburgo. O Rapid, outra força nacional, também apanhou de 3 a 0 na capital pelo terceiro turno. A equipe dirigida pelo técnico croata Otto Baric ainda teve, de longe, a melhor defesa do torneio, com apenas 18 gols sofridos em 36 jogos, média de 0,5 por partida. E, de quebra, ainda teria os dois artilheiros da liga: o croata Nikola Jurcevic e Heimo Pfeifenberger, ambos com 14 gols.

Otto Baric armava a equipe num 3-5-2 com boa cobertura defensiva e saídas com muita velocidade e amplitude nos contra-ataques. Otto Konrad, reserva da seleção na Copa de 90, era o goleiro titular. O veteraníssimo Heribert Weber, 38 anos, presente nas Copas de 78 e 82, era o líbero e capitão. O seguro Leopold “Leo” Lainer formava a dupla de centrais com Christian Fürstaller. Nas alas, duas boas revelações: Thomas Winklhofer pela direita e Franz Aigner pela esquerda eram velozes, dinâmicos, marcavam e apoiavam bem. Logo ganhariam chance na seleção. Além deles, havia o versátil central Kurt Garger e o ala croata Damir Muzek, nomes de alguma frequência entre os titulares.

O meio-campo começava com Wolfgang Feiersinger, nome certo da seleção austríaca, que embora vestisse a camisa 10, atuava como primeiro volante ou até mesmo zagueiro central, às vezes contando com o auxílio de Adolf “Adi” Hütter (outro que em breve chegaria à seleção) como segundo homem de marcação no setor. Mais adiante, o meia Peter Artner, que disputara a Copa de 90, ditava o ritmo da equipe. Pelo lado esquerdo, Hermann Stadler atuava bem aberto, ajudando no apoio por aquele flanco.

Da metade da temporada em diante, a equipe passou a contar também com um brasileiro, o meia Marquinho, revelado pela Ponte Preta no fim da década de 80 e que teve rápida passagem pelo Internacional antes de seguir para o futebol peruano, onde se destacou por algumas temporadas. No time do Casino, ao qual chegou em janeiro de 1994, atuava bem avançado, encostando nos atacantes. Outra novidade daquela temporada, esta vinda da base, foi o ponteiro Martin Amerhauser, de apenas 19 anos, que participou de alguns jogos.

Na frente, havia a dupla de artilheiros da liga austríaca daquela temporada. O croata Nikola Jurcevic, que chegara ao clube em 1992, era veloz e habilidoso, correndo incansável por todo o setor ofensivo. Já o seu companheiro de frente Heimo Pfeifenberger havia participado da Copa de 90 pela seleção da Áustria. Ponta-direita de origem, também se transformara em um atacante “all-round”, às vezes caindo pelos lados, ou recuando para armar, mas sempre aparecendo na área para finalizar.

A campanha histórica na Europa

O vice-campeonato na Bundesliga em 1993 rendeu ao Casino Salzburg uma vaga na Copa da Uefa da temporada seguinte. Seria a quarta participação do clube no torneio (houve também uma na Recopa em 1980/81, graças a uma dobradinha do Austria Viena). O retrospecto não era empolgante: apenas uma vez o clube havia superado a primeira eliminatória, e mesmo assim caíra na etapa seguinte. Mas desta vez partiria para uma campanha inesquecível.

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A grande empreitada europeia começaria no dia 14 de setembro de 1993, diante do pouco expressivo DAC Dunajská Streda, da Eslováquia, batido por 2 a 0 em ambos os jogos. O próximo adversário já tinha um pouco mais de estofo: era o Royal Antuérpia belga, vice-campeão da Recopa na temporada anterior (derrotado pelo Parma na final em Wembley) e que contava com nomes experientes como o goleiro iugoslavo Ratko Svilar e jogadores de seleção belga como o lateral e capitão Rudi Smidts e os atacantes Francis Severeyns e Nico Claesen.  Mesmo assim, um par de vitórias por 1 a 0 foi o suficiente para levar os austríacos pela primeira vez às oitavas.

Naquela etapa, o time de Otto Baric teria pela frente seu primeiro adversário realmente de peso: o Sporting dirigido pelo inglês Bobby Robson, que vinha de eliminar o Celtic e contava com um grande time. Além dos portugueses Luís Figo, Paulo Sousa, Emílio Peixe e Jorge Cadete, havia o zagueiro Stan Valckx, da seleção holandesa, e o meia búlgaro Krasimir Balakov, entre outros. No primeiro jogo, a maior fartura de craques dos Leoninos parecia ter decidido a parada com uma vitória por 2 a 0 no Alvalade, mas a partida de volta entraria para a história como um épico.

Após um primeiro tempo sem gols, logo aos três minutos da etapa final o zagueiro Leo Lainer acertou um chutaço do meio-campo que o goleiro Costinha aceitou. O relógio, no entanto, continuou a correr matando aos poucos as esperanças dos austríacos. Para piorar, aos 42 minutos o time ficou com dez depois que o zagueiro Kurt Garger cortou um lançamento com a mão e recebeu o segundo amarelo. A saga parecia terminar ali, e alguns torcedores já se inclinavam a deixar o estádio.

Até que, em outro chute de longe, agora de Adi Hütter, pouco depois dos 45 minutos, Costinha voltou a aceitar, dando ao Casino uma sobrevida no torneio. Teríamos prorrogação. E aos sete minutos do segundo tempo extra, a defesa lisboeta falhou bisonhamente ao tentar afastar uma bola da área, e o lance sobrou para Amerhauser, que pegou de primeira, estufando as redes e garantindo uma classificação quase improvável para as quartas de final. O único senão foi o fato de que agora o clube precisaria mandar seus jogos fora de seu alçapão, o acanhado estádio Lehen, mudando-se de armas e bagagem para o grandioso Ernst-Happel-Stadion (o antigo Praterstadion), da capital Viena.

O Eintracht Frankfurt, próximo adversário, vivia seu último grande período no futebol alemão: entre 1990 e 1994, terminou sempre entre os cinco primeiros colocados da Bundesliga, incluindo três vezes na terceira colocação. Também apresentava um elenco respeitável, começando por vários jogadores com passagem pela seleção alemã, como o goleiro Uli Stein, o líbero Manfred Binz, o ala Ralf Falkenmayer, os meias Rudi Bommer e Uwe Bein e o atacante Maurizio Gaudino. Além deles, também havia o ganês Tony Yeboah, o polonês Jan Furtok e o iugoslavo Slobodan Komljenovic. Um grande time.

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Adi Hütter colocou o Casino em vantagem na série, marcando o único gol da vitória em Viena. Mas em Frankfurt, Gaudino igualou para o Eintracht, levando a decisão para os pênaltis. Surgiu então um novo herói: o goleiro Otto Konrad deteve as cobranças de Gaudino e Binz e, já nas alternadas, converteu a sua para colocar os austríacos numa semifinal inédita. Mais expressivo ainda: pela primeira vez na história, um clube do país eliminava outro da vizinha Alemanha numa copa europeia.

Ironicamente, o adversário na semifinal também seria alemão. Clube centenário, mas de pouca expressão na Bundesliga até ali, o Karlsruher viveria seu melhor período entre 1992 e 1997. A sexta colocação na liga alemã em 1993 classificou o clube para sua primeira participação em um torneio europeu. O grande destaque daquela equipe era um jovem e promissor goleiro chamado Oliver Kahn. Além dele, havia o experiente volante Wolfgang Rolff (ex-Hamburgo, Bayer Leverkusen e seleção alemã da Copa de 1986), o jovem defensor Jens Nowotny, o zagueiro croata Slaven Bilic, o atacante russo Sergei Kiryakov e três nomes oriundos da antiga Alemanha Oriental: Heiko Bonan, o capitão Burkhard Reich e Dirk Schuster.

O time alemão vinha cumprindo campanha assombrosa na competição. Primeiro, eliminara o PSV. Depois esmagaria o Valencia de Mijatovic e Penev com um histórico 7 a 0 no jogo de volta no Wildparkstadion. Nas oitavas, despacharia o Bordeaux de Márcio Santos, Lizarazu, Dugarry e um jovem meia chamado Zinedine Zidane. E nas quartas, a vítima seria o Boavista, do boliviano Erwin Sánchez e do nigeriano Ricky. Os austríacos, por sua vez, tinham nos dois jogos um desfalque fora de campo: o técnico Otto Baric teria de comandar o time das tribunas, enquanto o auxiliar Slavko Kovacic ficaria no banco.

Em Viena, na primeira partida, pela primeira vez o Casino não venceu como mandante. Mas o 0 a 0 não foi considerado um resultado tão ruim, já que um empate com gols na Alemanha levaria o time à decisão. E foi justamente isso que aconteceu. Numa descida rápida de Jurcevic pela direita aos 12 minutos de jogo, Stadler venceu Oliver Kahn e abriu o placar. O adversário empatou aos nove minutos da segunda etapa, quando Krieg recebeu passe por trás da defesa e desviou de Otto Konrad, e partiu para a pressão. Mas o Casino segurou o resultado e saiu de campo com o empate e a vaga na final.

Na decisão, o adversário era um gigante europeu que vivia momento peculiar. Depois de passar mais da metade do Campeonato Italiano cumprindo campanha irregular, a Internazionale largou de vez a briga pelo scudetto para centrar o foco na Copa da Uefa. Só que o relaxamento no Calcio quase custou a permanência na Serie A, confirmada só na última rodada. No caminho, o clube demitiu o técnico Osvaldo Bagnoli, efetivando o interino Giampiero Marini (ex-meia campeão do mundo com a Azzurra em 1982) até o fim da campanha.

O grande astro daquela Inter era o atacante holandês Dennis Bergkamp, cuja passagem pelo clube não é tida como bem-sucedida, ainda que tenha terminado aquela Copa da Uefa com o título e a artilharia. Além dele, havia o compatriota Wim Jonk, o uruguaio Rubén Sosa e jogadores de seleção italiana como Walter Zenga, Giuseppe Bergomi, Riccardo Ferri e Nicola Berti.

E seria exatamente Berti o autor do único gol do jogo de ida, em Viena, quando as esperanças do Casino Salzburg de trazerem uma taça inédita para o futebol do país começaram a morrer. Aos 35 minutos do primeiro tempo, aproveitando-se de um cochilo da defesa, Rubén Sosa cobrou rápido uma falta lançando o meia improvisado de centroavante na área. Berti se livrou da marcação de Artner e bateu cruzado, vencendo Konrad. Foi um balde de água fria para a torcida austríaca.

Se já era muito difícil tentar o milagre dentro do San Siro lotado em 11 de maio, ficou ainda mais aos 17 minutos do segundo tempo, quando Jonk recebeu passe de Rubén Sosa no lado esquerdo da área, passou por Lainer mesmo um pouco desequilibrado e finalizou com um leve toque por cima de Konrad para colocar a Inter em vantagem ainda maior. O título não veio, ficou em Milão. Mas o Casino já havia feito história.

Os anos seguintes

A conquista da primeira Bundesliga de sua história levou o clube à Liga dos Campeões na temporada seguinte. O Casino não chegou tão longe, mas fez bom papel. Depois de passar pelo Maccabi Haifa na fase eliminatória, teve pela frente um grupo com nada menos que Milan e Ajax – os dois futuros finalistas – e ainda o AEK Atenas. Bateu os gregos fora de casa e, mais significativo, arrancou dois empates com os Godenzonen, de Louis Van Gaal, campeões daquela edição. Mas terminou na terceira colocação da chave e ficou por ali. Depois disso, não fez mais campanhas expressivas nas copas continentais.

O clube venceria mais duas vezes a Bundesliga austríaca, em 1995 e 1997. Neste ano, mudaria novamente de nome, agora para Wüstenrot Salzburg, ao receber o patrocínio de uma empresa de serviços financeiros. Mas a grande revolução viria em 2005, quando a Red Bull, fabricante de bebidas energéticas fundada no país, assumiria o controle do clube, injetando um montante de dinheiro nunca antes visto no futebol nacional e destronando a hegemonia dos velhos rivais Rapid e Austria Viena. No mesmo ano, porém, um grupo de torcedores insatisfeitos com a mudança (que provocou inclusive a troca da cor bordô do uniforme pelo vermelho) criou outro Austria Salzburg, de ascensão meteórica pelas divisões inferiores do país.

De todo modo, por mais que tenha se pretendido um clube inteiramente novo, há ainda vínculos inegáveis entre o Red Bull com o antigo Austria (ou Casino) Salzburg. Até em termos humanos. Revelados pelo clube (e repassados a outro time da Red Bull, o de Leipzig), o volante Stefan Ilsanker e o atacante Marcel Sabitzer são filhos de ex-atletas daquele elenco que brilhou na Europa – respectivamente, o arqueiro reserva Herbert Ilsanker (agora treinador de goleiros do clube) e o atacante Herfried Sabitzer. Já o defensor Stefan Lainer, do time de Salzburgo, é filho de Leo Lainer, experiente zagueiro titular daquele Casino histórico.