Neste domingo, 31 de dezembro, completam-se 25 anos do fim da Tchecoslováquia. A dissolução do país havia ganhado nova tônica a partir de 1989, com a chamada Revolução de Veludo, movimento que culminou na deposição do governo comunista. Depois disso, a separação administrativa entre tchecos e eslovacos se tornou paulatina, até que, em 25 de novembro de 1992, o parlamento tchecoslovaco aprovou a divisão do país em dois estados distintos a partir do primeiro dia de 1993.

Diante da data simbólica, publicaremos durante os próximos dois dias uma série de matérias especiais sobre o futebol na Tchecoslováquia – algumas delas inéditas, outras resgatadas dos nossos arquivos. Abaixo, a segunda, publicada originalmente em 20 de junho de 2016.

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* Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

De um lado, um gigante. Um dos melhores goleiros do mundo em seu tempo e em todos os tempos. Do outro, um meia de 27 anos, virtualmente desconhecido fora de seu país, especialmente além da Cortina de Ferro que separava a Europa capitalista da socialista, e que naquele momento tinha a responsabilidade de decidir um título de peso. Entre eles, a marca do pênalti. Foi neste cenário, no estádio do Estrela Vermelha, conhecido popularmente como “Marakana”, que o armador Antonín Panenka fez história e, com uma grande dose de habilidade e audácia, levou a Tchecoslováquia ao título da Eurocopa de 1976. Seu estilo de cobrar aquela penalidade, com a cavadinha que fez desmoronar o grande arqueiro alemão Sepp Maier, virou referência e até hoje leva seu sobrenome na Europa. O time que triunfou na Iugoslávia provavelmente não é o mais técnico que os tchecoslovacos já formaram. Contudo, é o que melhor soube negar os prognósticos e derrubar favoritos. Inglaterra, União Soviética, Holanda e Alemanha Ocidental ficaram pelo caminho, para tornar irrefutável o grande feito do país no futebol.

Turbulências e trocas de comando a caminho

A história da formação daquela seleção começa em 1970, quando o time treinado desde 1965 por Jozef Marko chegou badalado à Copa do Mundo do México, mas caiu na primeira fase de maneira decepcionante, perdendo as três partidas para Brasil, Inglaterra e Romênia. Marko foi substituído interinamente pelo veterano Antonin Rýgr até o fim do ano, quando este, depois de três resultados fracos, passou a bola para a dupla formada por Ladislav Novák, meia do time vice-campeão mundial em 1962, e pelo ex-atacante Ladislav Kacáni.

tchecoslováquia 76 - jurkemik, ondrus, viktor, gogh, biros, pollak, nehoda, knapp, petras, masny, gajdusek

Apesar da intenção de renovar a equipe, Novák e Kacáni esbarraram em diversos problemas: o ambiente ruim depois do fiasco no México, jogadores em má forma física e técnica, lesionados e até suspensos – Petras, o atacante que marcou contra o Brasil na Copa, quebrou a perna do companheiro de seleção Václav Migas em um jogo pelo Campeonato Tcheco e foi punido com afastamento dos gramados pelo tempo que demorasse a recuperação de seu adversário. Assim, não conseguiram avançar além da fase de grupos das Eliminatórias para a Eurocopa de 1972, desclassificados pela Romênia, e também decepcionaram na visita ao Brasil para a disputa da Taça Independência naquele ano: apesar de segurarem um empate sem gols com a Seleção de Zagallo no Maracanã, também ficaram no 0 a 0 com a Escócia e perderam por 2 a 1 para a Iugoslávia, com seu único gol marcado contra pelo zagueiro Katalinski.

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Foi então que a Federação nacional recorreu a Václav Jezek. Sem ter carreira notável como jogador, o novo treinador se especializou em comandar as categorias de base de vários clubes do país até se destacar no cargo de técnico do Sparta Praga ao longo dos anos 60, conquistando duas vezes o título nacional. Em 1969, deixou a Tchecoslováquia rumo à Holanda para comandar o Den Haag por três temporadas, bem na época em que os conceitos do futebol total estavam fervilhando na terra da Oranje. Com o clube de Haia, foi terceiro colocado na Eredivisie em 1971 e participou em seguida da edição inaugural da Copa da Uefa, antes de ser chamado de volta a seu país para assumir a seleção.

Jezek, porém, não obteve sucesso imediato: precisou enfrentar a desclassificação nas Eliminatórias para a Copa de 1974. Num grupo com Escócia e Dinamarca, o ponto perdido no empate com os lanternas dinamarqueses em Copenhague foi crucial para frustrar as pretensões tchecas, embora o treinador tenha criticado a violência do jogo escocês na derrota por 2 a 1 em Glasgow, que confirmou matematicamente a turma de Billy Bremner no Mundial alemão. O ano de 1974, no entanto, marcaria a virada para aquela seleção. Depois de duas derrotas de 1 a 0 em amistosos para a Alemanha Oriental em Dresden e para o Brasil no Maracanã, os tchecos fizeram bom papel nos jogos preparatórios antes das Eliminatórias para a próxima Euro, chegando a vencer URSS e Bulgária fora de casa, dar o troco nos alemães orientais por 3 a 1 em Praga e golear a Suécia por 4 a 0 em Bratislava.

As eliminatórias

A Eurocopa tinha então um regulamento bem diferente. As 32 seleções das Eliminatórias eram divididas em oito grupos de quatro equipes cada, jogando em casa e fora de casa. O primeiro colocado de cada uma das chaves avançava às quartas de final, num mata-mata em ida e volta, mas ainda fazendo parte das Eliminatórias. Somente quando eram conhecidos os quatro semifinalistas é que um deles era apontado como país-sede. E aí então disputavam-se as semifinais, a decisão do terceiro lugar e a final. Na fase de grupos, a Tchecoslováquia caiu numa chave complicada, com Inglaterra, Portugal e o Chipre, fiel da balança. Embora viesse de bons resultados em amistosos, a estreia, contra os ingleses em Wembley, foi para esquecer: derrota por 3 a 0 diante de um English Team ainda com boas expectativas em relação a seu treinador Don Revie, o homem por trás do sucesso do Leeds desde o fim da década anterior.

ondrus e cruyff

A partir daí, porém, os tchecos não perderam mais. Nos dois jogos seguintes pela fase de classificação, em Praga, esmagaram os cipriotas (4 a 0) e os portugueses (5 a 0). Com o empate sem gols dos ingleses com os lusos em Wembley, uma vitória sobre o time de Don Revie no Tehelné Pole, em Bratislava, daria à Tchecoslováqua uma posição privilegiada no grupo. Os ingleses saíram na frente aos 27 minutos quando Keegan fez boa jogada pela ponta esquerda e cruzou para finalização esquisita de Mick Channon, encobrindo Viktor. Mas pouco antes do intervalo, Nehoda empatou de cabeça após escanteio. A virada veio logo no primeiro minuto da etapa final: Masný foi lançado em profundidade, passou por dois defensores e cruzou para a cabeçada de Galis. A seguir, tanto os tchecos quanto os ingleses arrancaram empates em 1 a 1 contra os portugueses em Lisboa. Mas só o time de Václav Jezek tinha ainda uma partida por fazer. Bateram tranquilamente o Chipre por 3 a 0 em Limassol em 23 de novembro de 1975 e garantiram a vaga nas quartas.

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No mata-mata em ida e volta, disputado já em abril e maio de 1976, o adversário também seria duro: a URSS de Oleg Blokhin, vencedor da Bola de Ouro (da revista France Football) como melhor jogador europeu do ano anterior. Na equipe soviética, nada menos que oito titulares – incluindo Blokhin – vinham do Dinamo Kiev campeão da Recopa e da Supercopa Europeia de 1975, com vitórias categóricas sobre o Ferencvaros e o Bayern de Munique, nas respectivas decisões. Clube e seleção também eram treinados pelo mesmo Valeri Lobanovski. Os tchecos, porém, não se impressionaram com o cartaz do adversário: venceram em Bratislava por 2 a 0, gols de Masný e Panenka, no jogo de ida. Na volta, diante de 100 mil torcedores no Estádio Olímpico de Kiev lotado, saíram na frente com Móder, no último minuto da primeira etapa. Os soviéticos empataram com Burjak logo no começo do segundo tempo, mas novamente Móder, a oito minutos do fim, colocou os visitantes novamente na frente e praticamente classificados. Blokhin empatou aos 42, mas não pôde impedir o avanço dos tchecos.

Nos outros duelos, os demais semifinalistas não tiveram dificuldade em se classificar: a Alemanha Ocidental superou a Espanha com um empate em Madri (1 a 1) e uma vitória em Munique (2 a 0) definida ainda no primeiro tempo. A Holanda passou por cima da Bélgica com goleada em Roterdã (5 a 0) e uma vitória de virada em Bruxelas (2 a 1). E a Iugoslávia, escolhida como sede da fase final, superou o País de Gales vencendo em Zagreb (2 a 0) e empatando em Cardiff (1 a 1) em jogo tumultuado pela torcida local. Nas semifinais, o sorteio colocou os iugoslavos enfrentando os alemães no Marakana de Belgrado, enquanto holandeses e tchecos jogariam no Maksimir, em Zagreb. Imediatamente, criou-se a expectativa de um reencontro, talvez uma revanche, entre a Alemanha de Beckenbauer e a Holanda de Cruyff numa eventual final, repetindo a da Copa do Mundo dois anos antes. Porém os iugoslavos, donos da casa, também tinham um bom time (Buljan, Oblak, Surjak, Dzajic) e não eram descartados. O azarão do quarteto, apontado quase por unanimidade – embora sustentasse então uma invencibilidade de 17 partidas e tivesse derrubado adversários fortes – era justamente a Tchecoslováquia.

Chega a hora da fase final

Os comandados de Jezek, porém, confiavam no próprio potencial e formavam um elenco bastante unido – em outros tempos, os jogadores tchecos e eslovacos chegaram inclusive a conversar em separado com os treinadores. Entre os 22 convocados para a fase final da Eurocopa, a maioria era de eslovacos. A base era o Slovan Bratislava, bicampeão nacional em 1974 e 1975 e vice em 1976, que cedia sete jogadores. Outros três vinham da rival Inter Bratislava, além de dois do VSS Kosice, um da Lokomotiva Kosice e outro do Spartak Trnava. Do lado tcheco, Slavia e Dukla Praga contavam com três cada um, mais um do Bohemians, também da capital, e outro do Union Teplice. Paradoxalmente, o Sparta Praga, um dos principais e mais vitoriosos clubes do país, e equipe em cujo comando Jezek havia se consagrado na década anterior, não cedia ninguém por um motivo simples: atravessava um dos piores momentos de sua história e havia caído para a segunda divisão no ano anterior.

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Taticamente, o time da estreia contra a Holanda apresenta um desenho interessante. O veterano Viktor é o goleiro. Quando a equipe é atacada, a defesa se posiciona com um líbero – o grandalhão Ondrus, 1,96m de altura – atrás de uma linha de quatro jogadores: Pivarník é o lateral-direito; Gögh, o esquerdo; Capkovic é o zagueiro pelo lado direito enquanto Dobias fecha pelo esquerdo, formando a dupla de centrais. Na maior parte do jogo, porém, Dobias se transforma em um volante de apoio pelo lado esquerdo do meio-campo. Experiente lateral-direito de origem, tem facilidade para sair jogando e iniciar as jogadas de ataque. Outro volante, pelo lado direito, é o incansável Pollák, o grande ladrão de bolas do meio, que morde o tempo todo, mas quase não ultrapassa a linha intermediária.

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Sobram os quatro jogadores mais ofensivos, dois meias e dois atacantes. Panenka é o meia-armador clássico. Jogador mais lento, carimba toda bola que passa da defesa pro ataque, cria, lança, distribui. Móder, o outro meia, atuando um pouco pelo lado esquerdo, é mais explosivo, de baixar a cabeça e sair correndo, ganhando as disputas no drible ou na força. Na frente, dois atacantes habilidosos e de muita movimentação: Masný pelo lado direito e Nehoda pelo lado esquerdo. É o time que tenta parar a Holanda de Cruyff, Neeskens, Rep e Rensenbrink – este em fase espetacular no Anderlecht.

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O jogo é disputado no dia 16 de junho, sob chuva insistente em Zagreb. E os favoritos holandeses – que mantêm praticamente intacto o time de 1974, mas agora comandado por George Knobel – percebem que não vão ter vida fácil logo no primeiro minuto, quando Pollák passa a bola por entre as pernas de Jansen no meio-campo. Apesar de bastante brigado, o jogo também tem boas demonstrações de técnica de parte a parte, e as chances vão aparecendo dos dois lados. A Tchecoslováquia não se intimida, ensaia uma pressão na saída de bola holandesa. Até que aos 19 minutos, Rep comete falta em Nehoda no lado direito da defesa holandesa. O próprio Nehoda levanta na área e o gigante Ondrus cabeceia quase da marca do pênalti, no canto oposto de Schirjvers, abrindo o placar inapelavelmente.

Embora não chegue a ser violento, o jogo começa a ter entradas mais duras no segundo tempo. Aos 15, Pollák faz falta em Neeskens, recebe o segundo cartão amarelo e é expulso de campo. Com um a mais, a Holanda vai ao ataque e dá sorte. Aos 29, após cruzamento da direita de Ruud Geels, Ondrus tenta cortar a jogada para escanteio, mas a bola molhada pega um caminho inverso e vai parar nas próprias redes. Três minutos depois, no entanto, os times voltam a ficar também em igualdade numérica: Neeskens acerta Masný e é expulso direto. E a partida vai para a prorrogação, que começa bem equilibrada. Até que, a seis minutos do fim, os tchecos encaixam um contra-ataque: o veterano Frantisek Veselý, que havia entrado para o tempo extra, é lançado em velocidade pela ponta direita, nas costas da defesa, vai à linha de fundo e cruza alto, para a cabeçada certeira de Nehoda. No último minuto, ainda há tempo para mais um bonito gol tcheco: após cobrança curta de escanteio, a bola chega a Panenka, que atravessa o passe rasteiro pelo meio da defesa holandesa até Vesely. A linha de impedimento da Laranja falha, e o experiente meia dribla Schrijvers antes de tocar para o gol vazio. De maneira tão surpreendente quanto incontestável, a Tchecoslováquia vai à final.

Na outra semifinal, no Marakana de Belgrado lotado, um jogo de dois períodos bem distintos: a Iugoslávia vai para o intervalo encaminhando outra surpresa, vencendo a Alemanha Ocidental com facilidade por 2 a 0, gols de Popivoda e Dzajic. Até que no segundo tempo o técnico Helmut Schön põe em campo a dupla do Colônia: primeiro o experiente Heinz Flohe, depois o ascendente goleador Dieter Müller, 22 anos, tido como herdeiro de seu quase homônimo Gerd, Der Bomber. Flohe desconta aos 19. Dieter Müller empata aos 37 e, após nova prorrogação, completa seu hat-trick aos 10 e aos 14 da etapa final do tempo extra, virando inacreditavelmente o jogo para os germânicos. A decisão do terceiro lugar acontece no dia 19 de junho, véspera da final, em Zagreb. Novamente com prorrogação, mas desta vez sem chuva. Mesmo desfalcada dos suspensos Cruyff e Neeskens, a Holanda se recupera e bate a Iugoslávia por 3 a 2, deixando o país-sede na última posição.

A decisão

Para a final de 20 de junho em Belgrado, a Tchecoslováquia não tem seu cão de guarda Pollák, suspenso. Surpreendentemente, seu substituto é um jogador de frente, Jan Svehlík, que atua como um misto de ponta de lança e centroavante, abrindo Masný e Nehoda mais pelos lados. Se a intenção é sufocar a Alemanha Ocidental – que tenta o bi da Eurocopa – desde o começo, ela dá resultado: logo aos oito minutos, numa jogada longa e tumultuada, o próprio Svehlík abre o placar. O lance começa com o zagueirão Ondrus se projetando ao ataque. Ele entrega a Svehlík, que passa a Masný aberto pela direita. O defensor alemão trava, mas a bola sobra para o lateral Pivarník, que desce em velocidade até a linha de fundo e centra rasteiro. A defesa recupera, mas Berti Vogts sai jogando errado. Masný intercepta e devolve a Svehlík, que bate para o gol. Sepp Maier dá o rebote nos pés de Nehoda, que novamente centra rasteiro quase da linha de fundo. Ondrus fura na pequena área, mas Svehlík não perdoa. Ufa! Tchecoslováquia 1 a 0.

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Depois, Viktor entra em ação com uma bonita defesa, tirando com as pontas dos dedos um chute cruzado de Holzenbein. Mas os tchecos seguem atacando e são premiados com o segundo gol, aos 25 minutos. Na ponta esquerda do ataque, Masný bate falta quase da linha de fundo levantando na área. Beckenbauer corta de cabeça, e a sobra vai parar nos pés de Dobias, que ajeita e bate cruzado, rasteiro, de fora da área. A bola morre no canto esquerdo de Maier. Por mais confiantes que estejam, nem os próprios tchecos acreditam numa vantagem desse tamanho tão cedo contra os campeões europeus e mundiais. Vantagem que poderia ter sido ampliada se Masný não tivesse desperdiçado grande chance logo em seguida. Lançado por Móder, ele vence o defensor alemão na corrida e toca na saída de Maier. A bola – que pecado! – passa raspando na trave, por milímetros.

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Outro grande pecado do futebol, porém, é dar os alemães como entregues, derrotados. Três minutos depois do segundo gol tcheco, Vogts avança em velocidade pelo lado direito e entrega na ponta a Bonhof, que encontra Dieter Müller completamente desmarcado no meio da área. O centroavante acerta um bonito voleio e desconta, recolocando os teutônicos no jogo. Mas o empate não virá tão logo. Só no último minuto do segundo tempo, os alemães partem para o abafa e lançam a bola na área da Tchecoslováquia, conquistando um escanteio. Bonhof faz a cobrança e Holzenbein pula junto com Viktor e desvia para as redes. Os tchecos ensaiam uma reclamação de toque de mão ou falta no goleiro, mas logo os protestos dão lugar à frustração pura e simples. Como contra a Iugoslávia, a Alemanha sai de um 2 a 0 contrário para levar novamente a partida para o tempo extra.

A diferença, no entanto, é que desta vez o placar não sofre alteração na prorrogação, com os dois times esgotados fisicamente, apesar do ânimo revigorado dos alemães. E o futebol conhece sua primeira decisão por pênaltis num torneio de seleções de primeiro escalão. Nas três primeiras séries de cobranças, os goleiros não têm chance: Masný, Nehoda e Ondrus acertam pela Tchecoslováquia, Bonhof, Flohe e Bongartz convertem pela Alemanha. Na quarta, o zagueiro Jurkemik (que havia entrado perto do fim do tempo normal no lugar de Svehlík para fechar mais a defesa) chuta forte no canto oposto de Maier e coloca os tchecos mais uma vez à frente. Uli Hoeness tem então a chance do empate, mas seu chute decola sobre o travessão de Viktor com destino às arquibancadas. A bola da vez está com o meia Panenka. É a quinta e última cobrança da Tchecoslováquia da série normal. Do outro lado, no entanto, está o monstro Sepp Maier. O bigodudo armador do Bohemians Praga se apresenta. Coloca a bola na marca e começa uma corrida para a cobrança. Parece que vai encher o pé. Maier pula para seu canto esquerdo. Mas a bola faz um leve arco e entra mansa no gol, numa cavadinha histórica, a primeira que o futebol europeu conhece. A Tchecoslováquia – incrível! – é a campeã da Eurocopa derrubando em menos de uma semana os atuais campeão e vice do mundo.


A conquista é o maior feito do futebol tchecoslovaco em todos os tempos. Até então, a seleção nacional havia batido na trave nos vice-campeonatos nas Copas do Mundo de 1934 e 1962, além da medalha de prata olímpica em Tóquio, em 1964, e do terceiro lugar na primeira edição da Eurocopa, em 1960. A única conquista, de menor peso, havia sido a da derradeira edição da Copa Internacional Centro-Europeia (ou Copa Dr. Gerö), levantada em novembro de 1959. Depois do título, aquela geração alternaria entre glórias e fracassos. Mesmo credenciada pelo título continental, perderia novamente a vaga na Copa do Mundo seguinte, a de 1978 na Argentina, para os escoceses, culminando na demissão de Jezek, substituído por seu auxiliar, Jozef Venglos.

Dois anos depois, na ampliada Eurocopa (agora com oito seleções), superaria a Itália, dona da casa, na disputa do terceiro lugar em uma quase infindável decisão nos pênaltis. No mesmo ano, um time de novatos conquistaria a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Moscou. O ciclo seria encerrado com a fraca campanha e a eliminação na primeira fase da Copa do Mundo da Espanha, em 1982, sem nenhuma vitória em três partidas. O futebol tchecoslovaco só voltaria a se destacar oito anos depois, no Mundial da Itália, chegando às quartas de final com outra geração, embora novamente comandada por Venglos. Foi o último grande momento no futebol do país unificado, antes da separação pacífica entre República Tcheca e Eslováquia, oficializada em 1º de janeiro de 1993.

Panenka, o personagem

Na mesma derrota para a Escócia por 2 a 1 em Glasgow, em 26 de setembro de 1973, que encerrou matematicamente as chances da Tchecoslováquia de disputar a Copa do Mundo no ano seguinte, estreou na seleção centro-europeia aquele que seria o nome indissociável do título continental de 1976. Nascido na capital Praga em 2 de dezembro de 1948, Antonín Panenka começou a jogar aos 10 anos de idade no único clube do país o qual defendeu em toda a carreira, o Bohemians, ligado tanto à classe operária quanto a artistas e intelectuais locais. Meia-armador talentoso, bom passador e de grande visão de jogo, também era especialista na bola parada, tanto em faltas quanto em pênaltis. Entretanto, certa vez em partida pelo campeonato nacional desperdiçou duas vezes a mesma cobrança. Acabou convertendo numa terceira tentativa, mas se irritou com os erros e passou a treinar insistentemente novos jeitos de cobrar, contando com a ajuda do goleiro do Bohemians (e futuramente da seleção), Zdenek Hruska.

panenka

A “ajuda” era curiosa: “Nós fazíamos uma competição de bolas paradas, tanto cobranças de faltas quanto de pênaltis. E para tornar mais divertido, apostávamos chocolates, cervejas e dinheiro. E estava me custando dinheiro porque eu sempre perdia. À noite, na hora de dormir, eu ficava preocupado. Então me veio essa ideia”, contou Panenka, em entrevista ao ESPN FC. Depois de bem-sucedido nas apostas com Hruska (“o único problema foi que engordei muito de tanto chocolate e cerveja”, brincou o meia), passou a tentar em amistosos de pré-temporada contra times menores, e em seguida no campeonato tchecoslovaco. Mas o grande palco para seu feito acabou sendo mesmo a decisão da Eurocopa de 1976. Panenka, no entanto, não era titular na fase de classificação daquele torneio. Havia entrado em campo apenas duas vezes antes da etapa final na Iugoslávia – e marcado em ambas: um hat-trick nos 4 a 0 sobre o Chipre e o segundo gol na vitória sobre a URSS no jogo de ida das quartas de final. Depois, não chegou a balançar as redes holandesas e alemãs no tempo normal, mas converteu o pênalti mais importante da história de sua seleção.

Após a Eurocopa, foi titular da equipe terceira colocada na edição seguinte do torneio, na Itália. Marcou um gol contra a Grécia na primeira fase e também converteu sua cobrança na decisão nos pênaltis contra a Azzurra que valeu a posição. Em 1981, aos 32 anos, deixou o seu Bohemians migrando para o futebol austríaco, onde defenderia o Rapid Viena por quatro temporadas – a legislação do regime socialista do país só permitia o êxodo de jogadores maiores de 30 anos. No ano seguinte, disputaria sua última competição pela seleção na Copa do Mundo da Espanha, marcando os dois gols da equipe no Mundial contra França e Kuwait, ambos de pênalti (curiosamente, nenhum de cavadinha). Com o Rapid, foi finalista da Recopa em 1985, perdendo a decisão para o Everton. Encerrou a carreira em 1993, aos 44 anos, no pequeno Kleinwiesendorf austríaco, antes de voltar a Praga e ao Bohemians, do qual chegou à presidência, posto que mantém até hoje – junto com o de lenda do futebol tcheco.