Era a oportunidade ideal para Edinson Cavani mostrar seu verdadeiro valor. O atacante uruguaio, que há alguns dias deixou claro seu descontentamento por atuar fora de sua posição preferida em campo, teve a chance de comandar o ataque do Paris Saint-Germain no duelo decisivo contra o Chelsea no Stamford Bridge, no jogo de volta das quartas de final da Liga dos Campeões. E o uruguaio decepcionou.

Claro que a ausência do lesionado Zlatan Ibrahimovic teve um peso enorme na derrota por 2 a 0 para os Blues, e a consequente eliminação do PSG na Champions. Contudo, para quem declarou aos quatro cantos que estava cansado por ser apenas uma sombra do sueco, a atuação discreta em Londres apenas provou que Cavani, sim, é mesmo um coadjuvante para Ibra e deve se contentar com isso.

Em Londres, o PSG adotou uma postura de apostar nos contra-attaques, o que de certa forma favorecia o uruguaio. Com dois pontas velozes (Lucas e Lavezzi), era de se esperar que tudo se encaixasse da melhor maneira para Cavani. O camisa nove, porém, apresentou números modestos. Foram três finalizações (apenas uma delas na direção do gol) e aproveitamento de 73% dos passes.

Cavani correu 11km, perdendo somente para Matuidi e Willian. Seu esforço, porém, foi em vão. O uruguaio não teve poder de decisão. Durante todo o primeiro tempo, ele não recebeu uma bola sequer dentro da área. Quando precisou decidir, o jogador mais caro da história do futebol francês (€ 64 milhões) decepcionou – e ainda há os que cornetam Ibrahimovic por se destacar apenas em jogos da fase de grupos e sumir nos mata-matas.

Nos primeiros 45 minutos de jogo, a aparição mais perigosa de Cavani foi uma falta cobrada na barreira. Na segunda etapa, quando finalmente apareceu, desperdiçou boas chances criadas por Matuidi e Cabaye. No jogo de ida no Parc des Princes, ele também havia sido bastante discreto: duas finalizações (uma certa). Brilhar contra o Stade Reims, quando marcou um gol, está longe de ser o objetivo principal de vida de um jogador que pleiteia maior respeito e um tratamento de estrela reservado a Ibra.

Suas atuações sem destaque nas duas partidas contra o Chelsea demonstram que Cavani ainda está abaixo de suas melhores condições. Ele se recuperou de uma lesão muscular, mas aparenta não estar 100% fisicamente. Sua cabeça também anda abalada pelo complicado processo de divórcio pelo qual passou. Por tudo isso, teria sido melhor para o uruguaio permanecer em silêncio, e não sair por aí se dizendo vítima do sistema e assumindo um discurso coitadista.

Barrado da área VIP
Blanc não conseguiu inflamar os seus jogadores (Foto: AP)

Blanc não conseguiu inflamar os seus jogadores (Foto: AP)

Pela segunda temporada consecutiva, o PSG foi barrado na entrada do Olimpo do futebol europeu. Após um primeiro jogo exemplar diante do Chelsea, os parisienses sucumbiram à fúria de Stamford Bridge e à malícia de José Mourinho. Um duro golpe principalmente para os qatarianos que mandam prender e soltar no Parc des Princes, mas veem frustrada, de novo, sua obsessão de mostrar seu poder.

Laurent Blanc temia os 20 primeiro minutos de jogo em Londres. Para alívio do treinador, o PSG soube se virar muito bem dentro deste ambiente de pressão pouco eficiente dos Blues. A saída do lesionado Eden Hazard parecia encaminhar um script dos sonhos para os parisienses, mas os visitantes se deixaram levar por uma postura indolente em campo. Recuaram cedo demais. Ignoraram a necessidade de combate no meio-campo para ao menos aliviar o crescente domínio dos Blues no setor.

Mourinho deu uma bela lição a Blanc: futebol não se resume a esquemas táticos ou estatísticas; quando se entra em campo, coloca a vida em jogo. O que diferencia os dois treinadores é a capacidade do Special One de insuflar seus jogadores, de incutir em cada um deles este instinto de sobrevivência de quem precisa tirar energia sabe-se lá de onde quando se está à beira da exaustão.

A semana que separou as duas partidas foi utilizada por Mourinho para transformar seus jogadores de derrotados e virtuais eliminados em matadores. E Blanc… Bom, Blanc fez Lucas ter mais um dia de Lucas. O brasileiro, que entraria na equipe para desenvolver um papel fundamental para o bom funcionamento do time, repetiu aquilo que os são-paulinos cansaram de ver: arrancadas inúteis, decisões equivocadas entre a hora de driblar ou de tocar e uma insistente e irritante tendência de centralizar seu jogo.

Era tarefa do treinador trabalhar para que isso não se repetisse, mas Blanc pouco fez para orientar o brasileiro e salientar o tamanho da responsabilidade que estaria em seus ombros no Stamford Bridge. Aliás, poucos pareciam ter esta noção do que estava em jogo em Londres. Enquanto a turma do Chelsea carregava no semblante a aura de gladiadores, os parisienses estavam ali só curtindo a paisagem.

Christian Gourcuff foi muito feliz ao analisar o estilo de Blanc – para o treinador, seu colega de profissão não tem aquela capacidade de entrar em comunhão com seus jogadores. Basta ver a emblemática figura de Mourinho após o segundo gol do Chelsea, quando o Special One deixa o banco de reservas em uma tresloucada corrida para ficar junto com seus atletas, como se também estivesse vestindo a camisa azul, calção e chuteiras.

O português encarou o jogo como uma luta de vida ou morte. Blanc pensou na partida como outra qualquer. O Chelsea conquistou a vaga nas semifinais da Champions com a alma, algo que dinheiro algum pode comprar, como bem comprovaram os qatarianos que veem jorrar cifrões por todos os lados. Sem essa vontade de vencer, o PSG deve mesmo se limitar aos títulos insossos da Ligue 1 e a pagar de gatão em meio a coitadinhos que passam o chapéu para ganhar alguns trocados para não morrer de inanição.