Edinson Cavani deu o ar da graça na final da Copa da Liga Francesa. O atacante uruguaio teve atuação destacada na decisão do torneio contra o Lyon, foi o nome do jogo com os dois gols marcados e, enfim, apareceu para a vida. Seria um cala-boca monstro para quem o criticou nas últimas semanas? Nem tanto. Basta perguntar para os qatarianos do QSI se eles acham que esta taça os faz esquecer completamente da Liga dos Campeões.

>>>> Na sombra de Ibrahimovic, Cavani deixa futuro no PSG em xeque

Claro que uma derrota na decisão de um torneio de importância discutível tornaria o ambiente ainda mais insuportável no Parc des Princes. Além de todos os problemas já citados anteriormente, vale acrescentar a suposta discussão entre Thiago Silva e Zlatan Ibrahimovic propagada pela imprensa francesa, motivada pela defesa do brasileiro ao seu compatriota Lucas.

Cavani despertou quase duas semanas depois do necessário. Deveria ter dado a resposta exibida no Stade de France justamente quando o time mais precisava dele: em Stamford Bridge, diante de um rival forte e de alto nível – principalmente depois de suas declarações de que não queria ser uma sombra de Ibrahimovic e tinha bola suficiente para ser a estrela do PSG. Brilhar contra o Lyon na Copa da Liga é bacana, mas muito pouco diante da possibilidade aberta ao uruguaio para provar seu verdadeiro valor.

Deixando Cavani de lado, a grande questão em torno do projeto do PSG em fazer parte da elite continental passa pelo nome de Laurent Blanc. O treinador fez questão de ressaltar seus títulos conquistados no clube e o percurso da equipe na Liga dos Campeões, como se este currículo fosse suficiente para convencer os qatarianos de que está tudo bem. Se estivéssemos falando de um clube mediano, as palavras de Blanc seriam justas. Mas se trata do PSG, cujos investimentos milionários nas últimas temporadas não combinam apenas em se contentar com a conquista de títulos de âmbito nacional.

>>>> Cavani: decepção com requintes de frustração
>>>> Cavani mostra como é fácil fazer um torcedor feliz

Não se trata de colocar em discussão a integridade de Blanc, um sujeito correto e que aparenta ser um boa praça. O problema está em sua capacidade para motivar um grupo, principalmente em momentos de tensão. Um José Mourinho teria feito Cavani comer a grama no Stamford Bridge, ao insuflar tudo o que o uruguaio sentia e revelou na polêmica entrevista ao L’Équipe. Blanc, pelo contrário, deve ter se reunido com o jogador e dito “olha, não é legal criar um clima assim. Vai lá e jogue o que sabe”.

Exatamente nessas horas o treinador tem papel fundamental para levar um time à vitória ou ao rame-rame. Blanc tinha em mãos uma poderosa arma para fazer Cavani render em campo diante do Chelsea, mas não a aproveitou. Deixou para lá e viu o uruguaio só se levantar por conta própria em um jogo contra um rival mediano e que ainda teve uma apresentação abaixo do razoável no Stade de France. Se quiser subir um degrau na próxima temporada, o PSG deve se separar de Blanc e contratar alguém com atitudes mais firmes.

E cada vez mais fica evidente que também foi um erro colocá-lo à frente da seleção francesa após a traumática era Raymond Domenech. O momento exigia uma sacudida daquelas em um grupo contaminado, mas o perfil conciliador de Blanc apenas prolongou um dos períodos mais tristes da história dos Bleus.

O inferno do Valenciennes

A humilhante derrota por 6 a 2 em casa para o Nantes foi o estopim de uma guerra no Valenciennes. A goleada afundou ainda mais o clube na zona de rebaixamento da Ligue 1 – o VA ocupa a antepenúltima posição com apenas 29 pontos, seis a menos do que o Guingamp, primeiro clube fora da degola. Para completar o péssimo ambiente dentro do clube, uma série de eventos mostra que a queda será o menor dos problemas.

Torcedores, jogadores e dirigentes do Valenciennes mergulharam em uma crise de valores da qual dificilmente escaparão até o fim desta temporada. O ambiente tenso visto após a derrota para o Nantes trouxe graves consequências para as rodadas finais do campeonato. Revoltados com mais uma apresentação medíocre da equipe, mais de uma centena de torcedores do VA protestaram na saída dos atletas. E o que deveria ser um desabafo se tornou um barril de pólvora com o pavio aceso.

Alguns jogadores do Valenciennes tentaram conversar com a torcida e transmitir alguma calma. Só que nem todos os atletas pensaram da mesma forma. Com os ânimos exaltados e provocados por alguns torcedores, eles passaram a insultá-los. O atacante Jean-Christophe Bahebeck, emprestado pelo Paris Saint-Germain e autor de um dos gols dos donos da casa, ficou transtornado com as provocações de que não estava com a cabeça no Valenciennes e só pensava em receber seu salário do PSG.

O bate-boca entre Bahebeck e os torcedores apenas jogou gasolina em um incêndio que já tomava grandes proporções. Mais tarde, e com a cabeça fria, o jogador se desculpou pelo Twitter, mas o ambiente estava longe de ser apaziguado. Poucas horas após a partida, o meio-campista Mathieu Dossevi foi a uma discoteca com seu irmão. Dois homens não gostaram de ver o jogador se divertindo em um momento delicado para o clube e resolveram tratar a questão na base da ignorância. Dossevi e seu irmão foram agredidos e o jogador teve seu carro roubado.

Como se já não houvesse problemas suficientes, Jean-Raymond Legrand demonstrou ter um timing desastroso. O presidente do Valenciennes escolheu o pior momento possível para anunciar que não injetará mais dinheiro para cobrir o déficit do clube. Uma novidade que compromete qualquer possibilidade de o clube pensar em montar um time melhor e praticamente o condena ao limbo.

Em crise técnica dentro de campo, em guerra aberta entre alguns jogadores e a torcida e agora com um futuro financeiro dos mais nebulosos, o Valenciennes assinou sua passagem para disputar a Ligue 2 na próxima temporada. A menos que algum milagre (leia-se a chegada de um investidor disposto a arriscar seu dinheiro com um clube à deriva), a situação do VA será de penúria.