Entre a geração de bandas, cantores e compositores que despontou dentro da década de 1980 na música brasileira, há todos os tipos de relação com o futebol. Há os acompanhantes próximos (como os são-paulinos Nasi, vocalista do Ira!, e Nando Reis; outro titã são-paulino, o falecido Marcelo Fromer, que até comentou a Copa de 1998 pelo SporTV; o palmeirense Branco Mello, vocalista/baixista dos Titãs – que até programa de rádio apresenta sobre o tema; o tricolor carioca Dado Villa-Lobos; e os flamenguistas Léo Jaime e Herbert Vianna). Há quem goste, mas em nível “normal” (como João Barone, baterista dos Paralamas do Sucesso, um torcedor do Fluminense mais próximo do tênis, ou Roger, do Ultraje a Rigor, que já foi fanático são-paulino, mas hoje acompanha mais o surfe). Há quem tenha deixado de gostar – como Lobão, que se dizia flamenguista até ver a crescente mercantilização do futebol. E há quem não tenha nenhuma proximidade ou afinidade com o esporte. Era o caso de Cazuza, que faria 60 anos nesta quarta-feira.

Não era nem o caso de odiar futebol: desde criança, Cazuza sequer era próximo, sequer tinha um time pelo qual torcesse levemente, sequer acompanhava. Tal distância era motivo de relativa decepção para o pai do futuro cantor e compositor. João Araújo (1936-2013), dos mais importantes empresários da história da indústria fonográfica brasileira, era flamenguista e um desportista autêntico, conforme revelou a mãe de um e esposa do outro, Lucinha Araújo, em “Cazuza – só as mães são felizes”, depoimento transformado em livro de sucesso pela jornalista Regina Echeverria em 1997: “Todos os sábados, meu marido frequentava um clube de futebol formado por 30 homens com mais de 30 anos, com uma exceção aberta a João, que foi admitido aos 24. Era o Clube dos 30, em São Conrado. João sempre teve amigos mais velhos e ali conviveu com Paulo Mendes Campos, Luiz Carlos Barreto, Thiago de Mello, Armando Nogueira, que também levavam seus filhos ao futebol de todos os sábados. Além disso, em toda a sua vida, meu marido foi um esportista que praticou tênis, vôlei e futebol”.

E João assumiu esses dois lados – o apreço pelo futebol inversamente proporcional à falta de gosto do filho – à biografia: “Sempre desejei que Cazuza se interessasse por esportes, mas quando eu o levava ao Clube dos 30, Cazuza não demonstrava a menor vontade de jogar futebol. Às vezes até brincava com a bola, mas rapidamente se desinteressava. O que o empolgava mesmo era pegar meu carro e dirigir em volta do loteamento”.

Pois por incrível que pareça, foi exatamente a falta de apreço do jovem Agenor de Miranda Araújo Neto pela modalidade que motivou uma anedota relatada por um dos mais conhecidos nomes ligados ao esporte na imprensa brasileira. Por sinal, tal nome era colega de João Araújo no Clube dos 30: Armando Nogueira. Em um texto de 1968, para a coluna “Na Grande Área”, que tinha no “Jornal do Brasil”, Armando citou uma anedota real, citada na biografia de 1997. Cujo protagonista era justamente o infante Agenor, Cazuza desde o nascimento, havia dez anos. E que será transcrita a partir de agora:

“Cazuza, 10 anos, chegou da escola participando ao pai uma novidade:

– Papai, estou jogando futebol, lá no colégio.

O pai, que sempre bateu sua bolinha razoavelmente, ficou na maior alegria: nunca tinha confessado, mas o desinteresse do filho por futebol era uma das pequenas tristezas de sua vida. Há alguns anos ele tentou despertar no garoto o gosto pela pelada: no clube em que joga um racha semanal, chegou mesmo a levar Cazuza para o campo, ficava no gol e só para estimular papava frangos tremendos nos chutes de Cazuza.

Nos últimos tempos, porém, Cazuza abandonou na garagem a bola e as chuteiras e nunca mais falara de futebol. Daí a felicidade do pai ao ouvir do menino que estava jogando bola, agora oficialmente, no time do colégio:

– É no time do colégio, Cazuza?

– É, sim.

– No primeiro time, Cazuza?

– Não.

– Ah, é no segundo time, meu filho?

– Também não, papai.

– Não vai me dizer que te puseram no terceiro time. Terceiro time nem deve existir lá no colégio.

– Existe, sim, mas eu não jogo no terceiro time também, não. Sou do Fusa.

– Fusa? Que diabo é isso, Cazuza?

– Fusa é o seguinte, papai: tem o primeiro time, o segundo e o terceiro times. Aí eles pegaram a turma que sobrou e misturaram todo mundo. Isso é que é Fusa.

– E você joga de quê, nesse tal de Fusa? – perguntou o pai, já inteiramente desanimado com o
herdeiro de suas virtudes futebolísticas…

– Eu sou reserva do Fusa, papai.”

Muitos anos depois, em outubro de 1987, numa internação no New England Hospital, em Boston, com Cazuza já enfrentando os primeiros efeitos da AIDS que o matou em 1990, mais uma conversa entre pai e filho evocou os tempos de Clube dos 30, como João lembrou em “Só as mães são felizes”: “Não foi propriamente uma queixa, mas Cazuza tinha um certo lamento na voz ao dizer: ‘pai, lembra quando você me levava para jogar futebol naquele clube de São Conrado? Pois é, você devia ter sacado que meu negócio era outro. Quem sabe se você tivesse me levado a uma Escola de Belas-Artes eu não me sentiria mais feliz?’ E eu me justifiquei dizendo que eu podia ter errado quando o levei ao futebol, o fiz na certeza de que um pai deveria, pelo menos, mostrar ao seu filho quais eram os seus prazeres”.

Melhor assim. Pelo menos, Cazuza descobriu os prazeres artísticos sozinho.