Se você fechar os olhos e se deixar viajar pela memória, vai longe. Vai voltar a um ano atrás, e se lembrar exatamente de como começou a sentir aquele 29 de novembro de 2016. Como recebeu a notícia sobre o acidente com o avião da Chapecoense (ou mesmo o seu desaparecimento nos radares), como permaneceu atônito ao demorar para acreditar que aquilo havia mesmo acontecido, como correu atrás de cada nova informação. E depois, de peito rasgado, restou acompanhar a dor que desatinava em Chapecó. Desejar um pouco de conforto a cada um envolvido na tragédia. Ou mesmo se confortar, diante de toda a solidariedade que emanou ao redor do planeta – sobretudo em Medellín, na maior prova de humanidade já vista. A partida mais bonita que nunca se jogou.

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A tragédia com a Chapecoense marca a gente, mesmo que tenhamos acompanhado de longe. Afinal, o “somos todos Chape” não era da boca para fora. Havia uma empatia evidente ali, por um time que ia atrás de seus sonhos firmemente. Que ia muito além das possibilidades, para fazer também quem gosta de futebol sonhar. E também quem gosta da vida, aquela que não segue roteiros óbvios, que pode surpreender, que pode ver o menos cotado buscar o sucesso graças ao companheirismo e à valentia. Tudo isso era Chape. Tudo isso nos ensinou muito. Era uma história deliciosa de se contar. De ver se concretizando diante dos nossos olhos.

Porém, como a vida, nem sempre o final será feliz. Infelizmente, não. E por mais que a dificuldade seja imensa para lidar com ela, que a superação dependa de uma força que vem de onde não se sabe, nada mais natural na vida do que a morte. Ainda que a morte das 71 vítimas fatais daquele voo não soe naturalmente. Não pode soar e nem pode ser aceita assim, quando há claras provas de descaso. Mas, enquanto uma luta pela justiça precisa se desdobrar, há tantos corações desejando um pouco de candura, em meio a um vazio deixado pela saudade que não cessará.

Aquela Chapecoense segue nos ensinando, em seu voo de cruzeiro pela eternidade. E o que mudou desde então? Na subjetividade de cada um, ainda assim, certamente muita coisa. Que as memórias fiquem guardadas e as sensações mais afloradas já tenham passado, é impossível ver o futebol da mesma maneira. Não sentir algo diferente pelas campanhas que cativam. Deixar de pensar no que poderia ter sido, caso aquela madrugada não fosse tão cruel. E, principalmente, pensar que apesar de todos os defeitos, há uma união que transborda através da bola. Um ano depois, as lembranças voltam à tona. Os tributos se repetem. Embora também existam ações superficiais, a irmandade impera.

O futebol ficou melhor depois do que aconteceu com a Chapecoense? Talvez não. Mas certamente ficou mais humano. E que os passos por linhas tortas sigam, o time cheio de coragem que se perdeu na montanha se tornou um símbolo muito forte sobre o que vale a pena buscar. Sobre o que vale a pena sonhar. Mesmo depois do luto, sobre o quanto vale a pena estender a mão. Se muita gente teve a chance de se reerguer depois de um impacto tão profundo, a comunhão descomunal que se viu em diversas partes foi fundamental.

A cicatriz continua aberta. E ela lateja só de pensar o deslumbramento que se vivia de maneira tão intensa por aquele grupo, reportado pelos jornalistas que os acompanhava, interrompido por um vácuo que nunca será preenchido. É difícil de compreender. De acreditar, quando toda a epopeia da Chape guerreira já parecia inacreditável. Vai continuar sendo assim. É o que mantém aquele avião suspenso na mente, com destino, quem sabe, a algum lugar.

Cada um de nós continuará lidando com as lembranças, de longe, saudosos e sentidos. A Chapecoense, como agremiação, toca a vida em frente, ainda que nem todos concordem suas posturas. A torcida da Chape, por sua vez, merece aplausos por onde passar. Foi impressionante a maneira como ela, de peito apertado, mas aberto, abraçou o mundo inteiro dentro da Arena Condá. E há aqueles que precisam de todos os pensamentos hoje, sempre: as mães, os pais, os irmãos, as esposas, os filhos, os amigos e os colegas que perderam alguém na tragédia. Aqueles que, em todo o momento, deveriam ser a prioridade.

Somos levados a refletir sobre a maneira como o desastre nos transformou internamente, mas é imensurável o que mudou na vida de cada um que ligado diretamente com as vítimas. De cada um que perdeu parte do coração naquele acidente. É duro ver a dor que persiste em cada um. E mais duro perceber que, além de perseguirem o conforto praticamente inalcançável, ainda precisam correr atrás da justiça. Quando lembramos aquela Chapecoense, ao menos uma parte do pensamento deve estar com eles. Os que carregarão consigo o sentimento intraduzível. Que necessitam de paz, ao mesmo tempo que necessitam de força.

Se há um alento que resista, ele está no sonho que revive. Nos filhos que ainda terão uma vida longa pela frente, e carregam em si o amor de seus pais. E também nos que sobreviveram – Alan Ruschel, Follmann, Neto, Rafael Henzel, Erwin Tumiri, Ximena Suárez. Nos seis que experimentaram aquilo que não pode ser chamado de outra maneira além de milagre. Que realizam cotidianamente outros milagres para retomarem a vida. Que sabem a importância de cada um daqueles que partiu, seus irmãos através do futebol. Que carregam uma chama que por muito pouco não se esvaiu. Que são o elo de quem se foi e de quem ficou. Transformaram-se profundamente, mas seguem em frente.

Há um turbilhão que nos toma só de pensar na Chapecoense. Mas há um sonho. Do qual se quer acordar, do qual não se pode deixar de sonhar. Por eles, por aqueles que perderam o sonho.