Um grupo de torcedoras do Atlético Mineiro, chamado Feministas do Galo, tornou pública a sua insatisfação com o silêncio do clube sobre a condenação por agressão sexual de um de seus jogadores. No final de novembro, Robinho recebeu pena de nove anos de prisão de uma corte de Milão porque teria participado, ao lado de outros cinco homens, do estupro coletivo de uma jovem albanesa, em uma casa noturna da cidade, na época em que era jogador do Milan.

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De acordo com a decisão da nona seção da corte italiana, Robinho e companhia “abusaram das condições de inferioridade psíquica e física da vítima, que havia tomado substâncias alcoólicas, com o agravante te terem lhe dado bebida até que ficasse inconsciente e incapaz de resistir”. É a segunda acusação de violência sexual contra o jogador. Em 2009, quando estava no Manchester City, foi acusado de abuso por uma jovem em uma boate em Leeds. Após investigação, o caso foi arquivado.

Robinho ainda pode apelar para duas instâncias superiores antes que o caso seja concluído e, segundo uma fonte ouvida pela Reuters, apenas neste momento a Itália pedirá a extradição do jogador. Como o Brasil não extradita seus próprios cidadãos, o único risco para o atacante, uma vez confirmada a condenação, seria em viagens para outros países.

Robinho disse, em um post no seu Instagram, que já se defendeu das acusações e que “todas as providências legais estão sendo tomadas” em relação à condenação em primeira instância. Em nota anterior, publicada em 2014, afirmou que foi totalmente inocentado da acusação da Inglaterra e que a “autora da falsa acusação foi denunciada pela polícia londrina e responde processo pelo crime de falsa acusação e calúnia”.

O processo contra Robinho segue na corte italiana, mas, enquanto isso, ele é jogador do Atlético Mineiro com uma condenação por estupro pairando sobre sua cabeça. O clube se recusa a comentar o caso, alegando se tratar de uma “questão pessoal”. É principalmente esse silêncio que incomodou as Feministas do Galo, que penduraram faixas na frente da sede do Atlético, com os dizeres “Um condenado por estupro jogando no Galo é uma violência contra todas as mulheres” e “Galo, seu silêncio é violento! Não aceitaremos estupradores!”.

Em entrevista ao UOL, o grupo afirmou que não está acusando Robinho de estupro e nem apoiando que seja preso, apenas “quer que o Galo se manifeste a respeito de um atleta de seu plantel sofrer esse tipo de acusação grave”. Ao El País, uma representante disse que a “omissão do clube é inadmissível, já que o atleta foi condenado em primeira instância e, em vez de se preocupar com o fato, a diretoria cogita a hipótese de que ele permaneça”. Ano passado, outro grupo de torcedoras atleticanas foi formado, o Grupa, para atrair o público feminino para o estádio, depois de se mobilizarem contra o lançamento do uniforme do Galo, em um desfile com mulheres seminuas, usando biquínis e lingeries.

Diante do protesto de parte da torcida do Atlético Mineiro, há um paralelo pertinente com o futebol inglês. Ched Evans foi condenado a cinco anos de prisão por estupro, cumpriu metade da pena e, no final de 2014, saiu por bom comportamento, em liberdade condicional. Ano passado, conseguiu apelar com sucesso à sentença e um novo julgamento foi ordenado. Nele, Evans foi declarado inocente das acusações.

O relevante, porém, é o momento em que ele tentou voltar a jogar futebol, logo depois de sair da prisão, quando ainda era considerado um agressor sexual pela Justiça. Ele simplesmente não conseguiu. Evans é bom de bola. Nada espetacular, mas um competente atacante para as divisões inferiores da Inglaterra e com algumas convocações para a seleção galesa. Diversos clubes tentaram contratá-lo e sempre esbarraram no protesto de torcedores e na ameaça de patrocinadores.

O Sheffield United, o clube que ele defendia na época da prisão, foi o primeiro a tentar. Uma petição com 167 mil assinaturas e patrocinadores afirmando que deixariam o clube se a contratação fosse concretizada impediram o seu retorno. O técnico do Hartlepool apenas mencionou que gostaria de contar com o jogador e foi imediatamente desmentido por uma nota oficial da diretoria. O Oldham também sofreu com uma petição online e uma potencial debandada de patrocinadores. O Grimsby Town foi outro que manifestou interesse e recuou.

Apenas no meio do ano passado, depois que sua condenação de estupro foi anulada pela Corte de Apelação de Londres e um novo julgamento foi marcado, Evans conseguiu um contrato profissional de futebol. Assinou com o Chesterfield, da terceira divisão, e voltou a praticar seu ofício. Marcou sete gols em 29 partidas na última temporada e foi recontratado pelo Sheffield United, que disputa a Segundona, e segue sua vida. Mas, enquanto era considerado um criminoso sexual pela Justiça, não houve potencial de gols que fizesse os clubes ingleses arriscarem contratá-lo.