Não existe ninguém que seja mais fã de Arsene Wenger do que eu. Igualmente fã até pode haver, mas não mais. Considero Wenger entre os melhores do mundo em todos os tempos, e, em muitos aspectos, ele supera os melhores. Sua importância para a história do Arsenal na era de Premier League é incalculável. A maneira como conseguiu fazer o time se manter relevante e disputando a Champions League todo ano mesmo tendo um orçamento ridiculamente menor que os concorrentes é provavelmente única no futebol – até porque, na época de Rinus Michels e Telê Santana esse tipo de coisa não existia. E não me venham com Guardiola, se Messi jogasse no Arsenal, Wenger teria sido obrigado a vendê-lo.

Porém, depois da derrota de 6 a 0 para o Chelsea, parece claro que, mesmo com todo o sucesso obtido, o tempo de Wenger nos Gunners chegou ao fim. A culpa não é dele, é verdade, é do time, e é do futebol. O problema é que as três coisas, realidade do futebol, time e treinador, não têm se dado muito bem ultimamente. E levar de 6 pode ser péssimo para o Blackburn, horroroso para o Tottenham, mas esses dois não pretendem concorrer no mesmo nível que o Chelsea. O Arsenal pretende. Nesse caso, perder de 6 a 0 é ainda mais calamitoso. Não faz bem ao time, mas também não faz bem a Wenger. Como acontece em muitas relações bem sucedidas, chega uma hora em que cada um tem que ir para o seu lado.

Obs.: Uma historieta aqui que eu não me lembro quem me contou. “Depois que eu me separei, as pessoas me perguntam porque meu casamento deu errado. Claro que deu certo, se não, não tinha durado 20 anos! Mas depois de 20 anos, acabou.” Acho que o princípio é esse).

O problema de Wenger, e ele tem um problema grave, é que ele não consegue comprar os jogadores para concorrer no primeiro nível. Há duas teorias a respeito disso. Uma diz que é ele quem não quer comprar, que não concorda com esse modelo. Eu gosto de acreditar nisso porque me faz gostar ainda mais do cara. A outra diz que a culpa é da direção do time, que não dá dinheiro para ele gastar, e ele não fala nada. Também é admirável, já que qualquer outro no lugar dele meteria a boca no trombone pra se isentar da culpa.

De uma maneira ou de outra, o fato é que, para concorrer no nível em que concorre, o Arsenal precisa gastar muito mais. Não é um Ozil que vai resolver nada. Pra concorrer com Chelsea, Manchesters e Liverpool, tem que ter dinheiro para ter mais de um craque no time, e para ter mais de um jogador de primeiro nível para cada posição. Tem que ter o dinheiro e gastar o dinheiro. Não dá mais pra achar que vai comprar um monte de menino sub-valorizado e esperar eles se desenvolverem. Pra começar, não existem mais meninos sub-valorizados em quantidade para serem achados. Os milionários hoje em dia compram os  jogadores com 14 anos. Além disso, não dá tempo de eles se desenvolverem. O time precisa ganhar já, e todo ano. E o Arsenal não tem elenco pra isso há tempos.

Wenger pode não ser o maior culpado por isso, mas claramente sua obsessão em contratar jogadores que ainda não estouraram ajuda. É um modelo lindo, que, quando funciona, é sem dúvida o mais efetivo. Em um mundo normal, quando o modelo não funciona 100% ainda assim é possível produzir times decentes, que competem pelas primeiras posições. No mundo dos bilhões da Premier League e da Champions League, porém, não dá.

Tanto o Arsenal como Wenger precisam da mudança. O time precisa de um técnico para esse modelo de futebol para bilionários, um Hiddink, um Capello, um burocrata que goste de elencos estrelados. E Wenger precisa mudar de ares. Até para eventualmente perceber que, no esporte em que escolheu para trabalhar e no qual sempre foi extremamente bem sucedido, para se manter no nível em que ele está hoje é necessário abrir mão de alguns princípios. O futebol seria muito, mas muito mais legal se todos fossem Wengers, mas só ele é.

Momento para o comentário fanfarrão de torcedor
Por fim, é importante que Wenger deixe o Arsenal e vá trabalhar no Tottenham. O outro time do norte londrino tem orçamento de rico entre os pobres, e de pobre entre os ricos. O elenco dos Spurs hoje é o tipo de elenco que Wenger gosta, com jogadores que ainda não estouraram, mas que têm um potencial brutal – Lamela e Erikssen mais especificamente. Nas mãos de qualquer idiota, Tim Sherwood, por exemplo, isso vira um catado de semi-craques. Na mão de Wenger, estaria em 3o lugar na Premier League. Mas Wenger, acredito, jamais aceitaria dirigir os Spurs, maiores rivais do Arsenal, até porque seria um passo atrás em sua carreira, e o contrário do que eu tinha dito no parágrafo anterior. Podem ignorar, portanto. Infelizmente.

Tudo isto, porém (a parte séria), só vale se Wenger não estiver comprando os jogadores porque não quer. Porque se o time não tem dinheiro, pelo menos não o dinheiro necessário para brigar com milionários árabes e governos municipais espanhóis, aí tem mesmo é que algemar Wenger em sua escrivaninha e agradecer ao Papai do Céu por tê-lo achado primeiro. Porque, basicamente, Arsene Wenger é o que separa o Arsenal de hoje de um destino tottenhamiano. O Arsenal sem Wenger e sem dinheiro, tende a um destino parecido com o do rival – e com o do Everton, outro grande que não consegue concorrer por falta de grana.

É difícil, porém, acreditar que este seja o caso. Se não têm um russo ou árabe por trás, os Gunners têm um estádio novo que rende bastante dinheiro, uma marca conhecida no mundo todo – muito mais, por exemplo, do que o Manchester City -  e têm que poder concorrer, pelo menos, com o dinheiro de Manchester United e Liverpool. E se foi exatamente o Manchester United que tirou Van Persie de Londres, temos aí uma idéia do nível financeiro provável do time londrino.

Se for assim, parece que chegou a hora de mudar, mesmo. Wenger e Arsenal podem ser mais felizes separados. Sabendo que a felicidade que tiveram juntos, dificilmente será igualada, pelo menos no curto prazo.